Documentação sobre santidade de Monsenhor João Benvegnú é entregue ao Vaticano

Durante 14 anos, mais de 500 testemunhas foram ouvidas e milhares de documentos analisados na etapa diocesana, concluída em julho na cidade de São Domingos do Sul.

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A fase diocesana foi concluída oficialmente com uma cerimônia solene realizada na Paróquia de São Domingos do Sul - Fotos: Arquivo/Igreja CatólicaA fase diocesana foi concluída oficialmente com uma cerimônia solene realizada na Paróquia de São Domingos do Sul - Fotos: Arquivo/Igreja Católica
A fase diocesana foi concluída oficialmente com uma cerimônia solene realizada na Paróquia de São Domingos do Sul - Fotos: Arquivo/Igreja Católica
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A trajetória da causa de beatificação do Servo de Deus Monsenhor João Benvegnú alcançou um marco histórico no último dia 29 de agosto. A documentação referente à primeira fase do processo, realizada em âmbito local, foi entregue ao Dicastério das Causas dos Santos, no Vaticano, no coração da Igreja Católica.

O material, que reúne anos de pesquisas, testemunhos e análises sobre a vida e o legado do sacerdote, foi levado a Roma pelo padre Eberson Fontana, da Arquidiocese de Passo Fundo, e pelo padre Elisandro Guindani, da Diocese de Vacaria. Ambos destacaram a emoção de conduzir as caixas com documentos que carregam não apenas registros oficiais, mas também a memória viva de um pastor que marcou profundamente a história de São Domingos do Sul e da região.

O processo local: 14 anos de trabalho e dedicação

A entrega em Roma só foi possível após a fase diocesana ser concluída oficialmente em 31 de julho, com uma cerimônia solene realizada na Paróquia de São Domingos do Sul. O local escolhido não poderia ser mais simbólico: foi ali que Monsenhor João Benvegnú dedicou mais de 50 anos de sua vida pastoral e onde também repousam seus restos mortais.

A celebração, presidida pelo arcebispo de Passo Fundo, Dom Rodolfo Luís Weber, reuniu cerca de mil pessoas. Mais de 20 sacerdotes participaram, além de fiéis da comunidade e de cidades vizinhas, evidenciando o quanto a figura do Monsenhor continua presente na memória popular.

Fama de santidade

Segundo o padre Dalci de Bastiani, pároco de São Domingos e que trabalhou como postulador da causa, o processo só existe porque Monsenhor João foi reconhecido em vida e após sua morte por sua fama de santidade. “Se a pessoa não tem fama de santidade, não adianta. Monsenhor João viveu com fama de santidade, morreu com fama de santidade, e essa fama só cresceu ao longo dos anos”, afirmou.

Foram 14 anos de investigação para reunir toda a documentação enviada agora ao Vaticano. A equipe responsável foi formada por 10 membros fixos, incluindo historiadores, teólogos, notários e representantes do tribunal eclesiástico. Mais de 500 testemunhas foram ouvidas, entre fiéis, religiosos, familiares e pessoas que conviveram com o sacerdote.

A comissão histórica analisou detalhadamente cartas escritas pelo Monsenhor, registros em livros paroquiais e até mesmo publicações que abordam sua trajetória. Já os censores teológicos se dedicaram a avaliar se seus escritos e atitudes estavam em plena conformidade com a doutrina da Igreja. “Foi um pente-fino em tudo o que ele fez e deixou registrado”, explicou padre Dalci.

O resultado desse trabalho foi reunido em quatro caixas, lacradas e encaminhadas a Roma, onde o processo segue agora em sua fase romana.

Quem foi Monsenhor João Benvegnú

A compreensão da causa de beatificação passa necessariamente pelo entendimento da vida de Monsenhor João. Filho de imigrantes italianos, nasceu em 1907, às margens do rio Taquari, no Distrito de Muçum, pertencente naquela época a Guaporé/RS, hoje município de São Valentim do Sul/RS. Já com formação religiosa, chegou a São Domingos do Sul em 1935, uma época marcada pela pobreza e pelas dificuldades típicas das comunidades coloniais.

Passou mais de cinco décadas no mesmo local, acompanhando de perto a realidade do povo. Sua vida espiritual intensa, marcada por longas horas de oração — levantava-se às quatro da manhã para rezar, confessar e distribuir a Eucaristia —, somava-se a um olhar profundamente humano e social.

Preocupado com as necessidades básicas da população, liderou iniciativas que transformaram a cidade. Entre suas maiores realizações está a construção de um hospital, considerado de referência regional à época. Para isso, trouxe um gerador da Alemanha e construiu uma hidrelétrica, garantindo energia elétrica para viabilizar o projeto.

No campo da educação, foi pioneiro, pois cedeu espaços da paróquia para a instalação de escolas e incentivou a criação do primeiro ensino médio em um distrito do Rio Grande do Sul, transformando São Domingos do Sul em referência na área educacional. Incentivou ainda a agricultura familiar, introduzindo novas culturas.

Outro destaque foi seu papel no incentivo à industrialização. Ele articulou a vinda de uma fábrica de bolas da Dal Ponte, que chegou a empregar 122 jovens. “Era um homem que enxergava as necessidades espirituais e sociais do povo e não media esforços para transformar a realidade”, disse padre Dalci.

Monsenhor faleceu em janeiro de 1986, mas sua memória continua viva. Hoje, escolas, ruas e instituições levam seu nome, e milhares de pessoas recorrem a ele em busca de graças.

Expectativa em Roma e próximos passos

Com a documentação entregue, a expectativa agora se volta para os próximos passos em Roma. O Dicastério das Causas dos Santos irá analisar, em primeiro lugar, se Monsenhor João viveu de forma exemplar as virtudes cristãs da fé, esperança e caridade. Caso esse reconhecimento seja concedido, ele passará a ser chamado de Venerável.

Na sequência, será necessário o reconhecimento de um milagre atribuído à sua intercessão para que receba o título de Beato. A canonização como santo exigirá um segundo milagre.

De acordo com padre Dalci, o tempo para cada etapa é incerto. “Talvez as virtudes sejam reconhecidas em até três anos, mas os milagres dependem da fé do povo e da vontade de Deus. O que sabemos é que a fama de santidade dele cresce a cada dia”, explicou.

Esse reconhecimento já se percebe no movimento constante no jazigo do Monsenhor, em São Domingos do Sul. Estima-se que, durante a semana, 50 pessoas visitem o local diariamente. Nos finais de semana, esse número ultrapassa 300 visitantes, vindos de diferentes regiões do Brasil, como Paraná e Santa Catarina. Muitos vão agradecer bênçãos alcançadas; outros pedem intercessão em momentos de dificuldade.

Para a Arquidiocese de Passo Fundo, o avanço da causa é motivo de esperança e alegria. “Temos a certeza de que Monsenhor João foi uma criatura extraordinária, que viveu as virtudes cristãs em altíssimo grau. Por isso, acreditamos que um dia será não apenas beatificado, mas também canonizado”, disse o pároco.

Outras homenagens e celebrações

No dia 7 de setembro, São Domingos do Sul recebe o lançamento do documentário “Servo de Deus: Monsenhor João Benvegnú”, obra que resgata a trajetória de fé e dedicação do sacerdote que marcou gerações na região. As exibições gratuitas acontecem no Clube União, em duas sessões: às 17h e às 19h.

Já em 8 de setembro, o município será palco da 2ª Romaria dos Bispos, Presbíteros e Seminaristas do Rio Grande do Sul, encontro que celebra a unidade do clero gaúcho e tem como inspiração a vida e o legado de Monsenhor João Benvegnú.

Documentos foram entregues no Vaticano pelo padre Eberson Fontana, da Arquidiocese de Passo Fundo, e pelo padre Elisandro Guindani, da Diocese de Vacaria - Fotos: Arquivo/Igreja Católica


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