A 26ª edição da Expodireto Cotrijal começou nesta segunda-feira (9), em Não-Me-Toque, marcada por mobilização de agricultores e por discussões sobre os desafios enfrentados pelo agronegócio gaúcho. Cerca de mil produtores participaram de um protesto durante a abertura do evento para chamar a atenção para o endividamento acumulado após sucessivas safras prejudicadas por eventos climáticos.
Nos últimos anos, o clima severo no Rio Grande do Sul alternou períodos de estiagem e enchentes, dificultando a recuperação financeira das propriedades rurais e o pagamento de financiamentos e custeios. O cenário levou produtores a defenderem medidas emergenciais para a renegociação das dívidas.
Durante a cerimônia oficial, o vice-governador do Estado, Gabriel Souza, afirmou que o governo gaúcho articula, junto ao Congresso Nacional, a votação de um projeto que permita a securitização dos débitos do setor.
“Estamos apoiando o pleito junto ao Senado Federal para votar rapidamente o projeto de lei que viabilizará a securitização das dívidas”, afirmou. Segundo ele, uma comitiva liderada pelo governador Eduardo Leite deve ir a Brasília nesta semana para tratar do tema com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e reforçar a urgência da votação.
O vice-governador destacou que a proposta busca tanto resolver o passivo acumulado quanto preparar o setor para o futuro. Entre as medidas defendidas está a prorrogação do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs), permitindo que os recursos permaneçam no Estado para investimentos em irrigação, manejo do solo e infraestrutura hídrica.
“O objetivo é fazer o maior investimento da história em irrigação e reserva de água no campo, porque precisamos nos preparar para um cenário de mudanças climáticas”, disse.
Mobilização e pressão política
As manifestações de agricultores durante a abertura da feira foram classificadas pelo vice-governador como legítimas e um reflexo da gravidade da situação no campo.
“São manifestações pacíficas, respeitosas, mas firmes, que mostram exatamente o dilema da vida dos gaúchos”, declarou. Segundo ele, o problema do endividamento não atinge apenas o meio rural, mas repercute também na economia das cidades.
A autoridade também destacou que o Rio Grande do Sul enfrenta uma situação diferente da de outras regiões agrícolas do país devido à recorrência de eventos climáticos extremos.
“Se acontece aqui com mais frequência, é necessário um tratamento especial ao produtor gaúcho”, afirmou.
Endividamento e novos desafios
O secretário estadual da Agricultura, Edivilson Brum, reforçou que o endividamento segue como um dos principais desafios para o setor produtivo. Ele lembrou que, desde o ano 2000, o Estado já enfrentou sete estiagens severas, além dos episódios recentes de enchentes.
“Hoje temos dois temas que nos incomodam muito: o endividamento dos produtores e a questão dos royalties das sementes”, afirmou.
Segundo Brum, o governo estadual também participará de reuniões em Brasília para defender a aprovação do Projeto de Lei 5122, que prevê a utilização de recursos do fundo do pré-sal para criar linhas de crédito voltadas à renegociação das dívidas rurais.
A proposta permitiria empréstimos com prazo de carência de dois anos e de sete a oito anos para pagamento, oferecendo condições mais longas para que os produtores consigam regularizar sua situação financeira.
“A salvação literal da lavoura é a votação desse projeto”, afirmou o secretário.
Brum também destacou que o problema econômico tem reflexos diretos nas famílias rurais. Segundo ele, o acúmulo de dívidas e as perdas sucessivas de safra têm provocado impactos na saúde mental dos produtores.
“A tradição do gaúcho é plantar, produzir e pagar suas contas. Muitos acabam se vendo em um beco sem saída”, lamentou.
Guerra preocupa produtores
Outro tema que surge como preocupação para o setor é o conflito no Oriente Médio, que já começa a trazer reflexos indiretos para o agronegócio.
De acordo com o secretário da Agricultura, há relatos de produtores com dificuldades para adquirir diesel, combustível essencial para a colheita, em razão de impactos logísticos e de mercado relacionados à guerra.
“Há produtores angustiados porque a alta do diesel e a situação internacional estão afetando a entrega do combustível justamente no auge da colheita”, explicou.
Apesar disso, Brum afirmou que o cenário também abre discussões sobre a ampliação do uso de biocombustíveis no país, ampliando o papel da agricultura na produção de energia.
“Cada vez mais a agricultura, além da alimentação, também será energia”, disse.
Números atrativos
Mesmo em meio aos desafios enfrentados pelo setor, a Expodireto Cotrijal inicia sua programação com números expressivos. A edição deste ano reúne mais de 600 expositores e delegações de mais de 70 países, consolidando a feira como uma das maiores do agronegócio internacional.
Entre os principais temas da programação estão o avanço tecnológico no campo, a biotecnologia, a gestão das propriedades rurais e a sucessão familiar nos negócios agrícolas.
O presidente da Expodireto Cotrijal, Nei Mânica, destacou a forte participação de produtores e lideranças já no primeiro dia do evento.
“A abertura teve grande presença de produtores, entidades e autoridades, e juntos vamos construir e buscar as soluções que o agronegócio ainda precisa”, afirmou.
Expectativa para dados da safra
A programação da feira segue ao longo da semana com painéis, debates técnicos e lançamentos de tecnologias voltadas ao campo. Para esta terça-feira, uma das principais expectativas é a divulgação das projeções da Emater para a safra de verão no Rio Grande do Sul.
Os dados devem trazer uma atualização sobre a produtividade das principais culturas do Estado e ajudar a dimensionar os impactos das condições climáticas enfrentadas nas últimas temporadas agrícolas.



