OPINIÃO

O bibliotecário J.L. Borges

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Jorge Luis Borges foi diretor da Biblioteca Nacional, na Argentina, entre 25 de outubro de 1955 e 11 de outubro de 1973. Assumiu o cargo no rastro da Revolução Libertadora, que deu cabo ao governo populista de Juan Domingo Perón (1946-1955), e saiu (aposentado) quando da volta, do mesmo Perón, ao comando da Argentina, eleito que fora, democraticamente, no pleito de 23 de setembro de 1973. Esses dados constam em qualquer biografia que se preze de J. L. Borges. Mas, o que, amiúde, não se encontra com tanta facilidade, é como foi a gestão de Jorge Luis Borges na Biblioteca Nacional da Argentina, ao largo de 18 anos?  Houve, efetivamente, um Borges executivo? Um Borges administrador? Um Borges Chefe? Um Borges CEO? Sabidamente, em 1955, quando assumiu esse cargo, Jorge Luis Borges já estava praticamente cego. E isso ele deixou bem claro no seu conhecido Poema dos dons (Poema de los dones): Ninguém rebaixe a lágrima ou rejeite/esta declaração da maestria/de Deus, que com magnifica ironia/deu-me a um só tempo os livros e a noite (Nadie rebaje a lágrima o reproche/ esta declaración de la maestria/ de Dios, que con magnífica ironia/ me dio a la vez los libros y la noche). Como era, então, o dia a dia de Borges na Biblioteca Nacional? Eis uma intrigante questão.

Para o entendimento da gestão Jorge Luis Borges na Biblioteca Nacional da Argentina, considero essencial a leitura de um pequeno livro, publicado pelo jornal Página 12, com o apoio da Telecom, em 1998, intitulado “Borges Diretor de la Biblioteca Nacional – Diálogos entre José Edmundo Clemente y Oscar Sbarra Mitre”,  cujo conteúdo revelador contempla a transcrição  e as notas, por Martín Arias, de seis encontros entre José Edmundo Clemente y Oscar Sbarra Mitre, realizados em 1998 (nos dias13, 15, 20, 27 e 31 de outubro; e 3 de novembro).

Apesar de todos os méritos que acumulava como escritor e intelectual de escol, Jorge Luis Borges foi nomeado para o cargo de diretor da Biblioteca Nacional por iniciativa de Esther Zemborain de Torres e pela influência da poderosa Victoria Ocampo.  Inclusive, consta que, quando soube que fora indicado para o cargo, Borges teria dito que preferia dirigir a Biblioteca de Lomas de Zamora, sendo de pronto rebatido por Victoria: “no sea idiota!” O fato é que, junto com Borges, assumiu como vice-diretor da Biblioteca Nacional José Edmundo Clemente, que tinha uma vasta experiência em gestão de bibliotecas, uma vez que, desde 1943, ocupava o cargo de bibliotecário chefe do Ministério de Obras Públicas da Nação. E, durante toda a gestão Borges na Biblioteca Nacional, de 1955 até 1973, foi Clemente quem, na sombra de Borges, efetivamente exerceu o comando executivo da instituição. Borges nunca se envolveu com a administração da Biblioteca Nacional. Tinha uma ideia romântica de biblioteca. Ignorava que uma Biblioteca Nacional é essencialmente memória. Na instituição, com o apoio de secretárias, que liam pra ele, escrevia (ditava) e preparava conferencias, numa rotina que incluía a chegada por volta das 16 h e a saída pelas 19 h, além de coordenar as conferencias dos sábados pela manhã. Editou cinco números da revista La Biblioteca, com textos seus e de convidados. Borges era a metáfora da própria biblioteca, tendo, com o seu prestígio como escritor e intelectual, ajudado para tornar a instituição conhecida internacionalmente. O que restou do Borges bibliotecário foi o que ele escreveu na instituição. E isso não é pouco, frise-se. O verdadeiro bibliotecário chefe foi Clemente.

Um dos raros pontos de divergência entre Borges e Clemente envolveu a nova sede da Biblioteca Nacional. O velho prédio da Calle México não comportava mais o acervo. Borges era contra e Clemente a favor. As tratativas iniciadas nos anos 1950 foram contempladas em Lei de 1961. A pedra inaugural da obra, com a presença de Borges e Clemente, aconteceu em 13 de outubro de 1971. E, a nova sede, efetivamente, sem Borges e sem Clemente, virou realidade, em 10 de abril de 1992, na Calle Agüero 2502, em Buenos Aires.

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