OPINIÃO

O dissenso do clima

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Se há um assunto capaz de suscitar debates acalorados, com opiniões exacerbadas (favoráveis ou contrárias) e defesas de interesses corporativos (veladas ou nem tanto), esse é o que trata da mudança do clima global. Mas, afinal, a atividade humana é ou não é a principal responsável pelo aquecimento global que assola o planeta na atualidade? Há ou não há consenso, na comunidade científica, que a ação humana tem sido a principal responsável pelo aquecimento observado em escala planetária, especialmente a partir dos anos 1950? E, se há esse entendimento, então por que tanta controvérsia sobre o assunto?
Eis um tema que comporta muitas nuanças, mas, que, inquestionavelmente, desde 2007, quando saiu o quarto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), ao ficar estabelecido que “os gases de efeito estufa de natureza antropogênica têm sido responsáveis pela maior parte do inequívoco aquecimento da temperatura média global a partir da segunda metade do século 20”, não deveria mais suscitar dúvidas. Todavia, não é isso que se observa cotidianamente. A metodologia do “consenso”, adotada pelo IPCC, pode ser assumida como cientifica? Existe consenso cientifico? Há espaço para outro olhar (desinteressado) sobre o clima global?
A discussão da mudança do clima global, ainda que esteja presente internacionalmente, na esfera diplomática e científica, desde final dos anos 1980, mantém-se atual e relevante como nunca; especialmente com o advento da era Trump no comando da nação mais rica e poderosa do planeta (os EUA). Um novo momento histórico, em que as grandes questões ambientais, a exemplo da mudança do clima global, podem perder protagonismo e as opiniões da comunidade científica, por mais consolidadas que sejam, a exemplo dos relatórios do IPCC, relegadas; saindo vitoriosa, por conveniência de ocasião, a via do dissenso em vez do assaz bem trilhado caminho do consenso.
Não é de hoje, que os contrários à tese da responsabilidade humana na mudança do clima global acusam de falacioso o dito consenso científico que concluiu pela inequívoca natureza antrópica da elevação da concentração dos gases causadores do efeito estufa na atmosfera terrestre. Não raro, utilizam técnicas apurada de persuasão ou, quando não, buscam fazer valer a sua opinião pela força do poder econômico ou politico.
Insistem os céticos do aquecimento global, que não há espaço para “consenso” no universo científico; que a crença cega na tese da ação humana como responsável pela elevação dos gases causadores do efeito estufa (como aparenta nos relatórios do IPCC) é um pecado imperdoável; que o método científico, seguindo as premissas de Karl Popper, não opera por consenso; que hipóteses que não podem ser expressas quantitativamente não são suficientemente rigorosas para serem testáveis; usam e abusam de relatos de trabalhos que refutam a tese do aquecimento global (alguns, inclusive, que levam a assinatura de cientistas que gozam de certo reconhecimento nos meios acadêmicos, mas que não são necessariamente especialistas na área de clima); etc.
Indiscutivelmente, em parte, estão com a razão os céticos do aquecimento global: CONSENSO não é prova cientifica de nada. Mas, por outro lado, estão completamente equivocados ao não admitirem que esse suposto consenso, forjado a partir de resultados de pesquisas robustas, constitui-se, usando-se emprestada a definição de Thomas Kuhn, no atual paradigma dominante da ciência normal do clima. Sim, consenso implica em concordância; mas não necessariamente em unanimidade. Na ciência, e nesse caso em particular, consenso significa aquilo que a maioria dos especialistas aceita como válido. Então, diante do que está posto, resta, aos que são contra, derrotar o modelo presumido da responsabilidade humana na mudança do clima, para que essa teoria seja rejeitada e algo novo, como os apregoados ciclos naturais de variabilidade climática, possa, legitimamente, ocupar o seu lugar como o novo consenso científico. Simples, assim!

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