OPINIÃO

Dezembro

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Dezembro de 1974, segundo ano do segundo grau, antevendo que não teria grana para custear curso pré-vestibular criei rotina de estudo espartana para o que enfrentaria. Foi prazeroso, mas era a realidade, provavelmente enfrentaria as provas com o que tinha do Cenav e do que constava das apostilas e livros que conseguia emprestado. Com a conquista da primeira namorada havia descoberto o uso do xampu - Cabelos e Pontas – o que era um salto de qualidade para quem, no máximo usava o sabonete Phebo. Para os melhores momentos puçuqueava o perfume Lancaster do meu velho. Bons tempos. Trancafiado em meu quartinho, às vezes, vinha sentar ao lado de minha velha mãe para assistir aos filmes da sessão da tarde como, por exemplo, O Seresteiro de Acapulco (com Elvis Presley) ou O Candelabro Italiano.


Estudar...estudar...estudar para encarar o ambiente de competição. Minhas férias foram reduzidas a um dia somente, dia 11 de dezembro. Depois, suor e lágrimas. Meus companheiros de jornadas eram Ceres e Alcides Sartori, Menegotto (biologia), Edison de Oliveira (português), Vitor Segundo Mandelli (inglês), livros do cursinho Serrador e Integral.


Num esforço danado meu velho conseguiu grana para ingressar no almejado Gama Vestibulares. Era grife estar com Romero-Saletinha-Adil-Barquete-José Ernani-Ivo-Gastão-Flávio Korb-Osvandré-Jussara-Anete. Paulo Barquete afirmou após atentar para o meu desempenho em uma prova simulada que eu iria ser aprovado. O problema é que eu não sabia que profissão abraçar. Talvez, sonhador que sou, Engenharia Florestal, para salvar o planeta. E tinha que ser na federal de Santa Maria, onde o dinheiro da família poderia me suportar. Fui aprovado e também aqui em Medicina, mas não cursaria porque tinha medo de cadáveres, sensação de desmaio ao ver sangue e pânico quando presenciava alguém passar mal; além disso a renda familiar não possibilitava esse sonho numa faculdade particular. Mas, o destino...ah, o destino...Um dia antes da matrícula em Passo Fundo (04 de fevereiro) meu pai teve um mal súbito e tive que superar minhas limitações e atendê-lo. Foi meu primeiro paciente. No outro dia, orgulhoso pelo êxito do primeiro”atendimento” comuniquei ao velho pai (38 anos) que tinha 2 notícias: uma boa, faria medicina; uma ruim, amatrícula era naquele dia. Meu pai, ao ouvi-las, disse-me com ternura de pai: tua missão é estudar e a minha é arrumar dinheiro para isso e saiu atrás de amigos para socorrê-lo financeiramente. E aí estou eu, plenamente ciente de minha raiz, plenamente agradecido por saber ler os “avisos”, agradecendo aos dezembros, aos livros e à mágica da vida, de tentar aprendera ler as entrelinhas.

 

Bem, Zé Dirceu, o cabeça da quadrilha, lança uma autiobiografia (livro que algumas pessoas escrevem contando como gostariam de ser) em que provavelmente suprimiu todos os seus crimes e comportamentos duvidosos desde que era presidente da UNE; provavelmente passará batido os abandonos que suas ex-famílias foram expostas e também os vultosos desvios de grana em favorecimento pessoal e de sua quadrilha que assaltou o país nas últimas duas décadas. Nas biografias há, geralmente, um rol de feitos sobre o personagem agraciado; na de Zé Dirceu há um prontuário policial.

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