Preservar a diversidade religiosa no ambiente escolar

Seccional de Passo Fundo conta com representantes de oito religiões, que podem ser procuradas caso ocorra um desentendimento nas escolas envolvendo as religiosidades

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Ipácio Carolino (esquerda) e Pastor Adélcio Kronbauer (direita)Ipácio Carolino (esquerda) e Pastor Adélcio Kronbauer (direita)
Ipácio Carolino (esquerda) e Pastor Adélcio Kronbauer (direita)
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Criado para mediar conflitos que envolvem a religiosidade nas escolas públicas e particulares de Passo Fundo, a seccional do Conselho de Ensino Religioso do Estado do Rio Grande do Sul (Coner/RS), conta com representantes de oito religiosidades diferentes, além da 7ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE). Estas, quando solicitadas, oferecem atendimento e os encaminhamentos necessários a fim de resolver uma situação adversa entre as partes, que vão desde violências, humilhação ou ofensas verbais. “O nosso objetivo é promover a paz e o respeito nas escolas. Que ninguém seja discriminado ou sofra bullying, qualquer coisa deste gênero, porque manifestou uma preferência religiosa”, pontua o presidente do Coner seccional, pastor Adélcio Kronbauer.

 

Dentro do ambiente escolar, os representantes que realizam estes atendimentos percebem que é um universo bem diverso. De acordo com Ipácio Carolino, um dos membros da seccional e representante da Casa Branca Aldeia de Oxóssi, por medo do julgamento e preconceito à religião das pessoas acabam por esconder e negar a sua identidade. Assim, o Coner atua para que haja o encorajamento dessas crianças e adolescentes neste processo de aceitação. “É muito interessante a experiência de entrar nas escolas, fazer a fala, e perceber que muitos se encorajam e se declaram de determinada religiosidade. Existe a discriminação e o preconceito e por conta disso as pessoas se retraem e se escondem. Esse é o momento para eles se assumirem como tal perante a classe”, explica.

 

Nos casos em que ocorrem os desentendimentos relacionados às religiosidades e o Conselho é acionado, é realizado um processo de esclarecimentos. Primeiro se procura a instituição de ensino em que as partes frequentam e ocorre o diálogo para entender o que ocorreu. O objetivo é sempre distensionar o clima pesado e buscar conversar, além de orientar sobre as regras e leis existentes. Se houver partes que não quiserem realizar o diálogo, há outras formas jurídicas. “A discriminação por causa de religiosidade é uma infração, seja em um ambiente escolar ou local público. O aluno precisa se sentir livre para crer naquilo que acredita”, ressalta o presidente. O Conselho trabalha ainda para agregar outras religiões que não se encontram no estatuto.
Proselitismo é proibido


Além de auxiliar na mediação destes conflitos, é dever do Coner orientar as escolas e os professores a não realizarem proselitismo (esforço em converter diversas pessoas em prol de uma ideia) pelo ensino religioso, tanto nas aulas como em textos destinados aos alunos. De acordo com o presidente, a escola não é um local de catequese ou doutrinação, seja de qualquer segmento religioso. “O Coner tem também como função ajudar as comunidades escolares a entender que no colégio, mesmo que a escola seja de um segmento religioso, o ensino religioso precisa ser ensinado como um fenômeno de conhecimento. Não é um campo de batalha de conquistar gente para essa ou aquela religião”. Para isso, são realizados também encontros de formação de professores. A dica do Coner é inclusive que as escolas convidem estas religiosidades para que as próprias tenham um espaço de apresentação aos alunos.


Respeito e integração
O Conselho existe para preservar a diversidade religiosa no ambiente escolar, mostrando para a comunidade que é possível conviver pacificamente. O membro representante da umbanda, Ipácio Carolino, reafirma que é necessário descontruir as informações negativas que se possa ter em relação ao outro, propondo sempre a integração e a união como forma de se melhorar como pessoa em um universo conturbado. “As pessoas estão, nesse momento, envolvas em uma egrégora muito negativa, por conta da religiosidade e das disputas pelo espaço. Aí tem-se a violência ultrapassando todos os limites, pois elas estão se agredindo moralmente, fisicamente e há inclusive depredação de templos. As pessoas perderam a razão, estão meio cegas e agindo por instinto. Por isso, é tão perigoso a gente não trabalhar isso em um espaço certo e da maneira correta”.

 

Estado
O Coner/RS existe a nível estadual desde 1997, de acordo com a Lei nº 9.475/97, que define que o ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo. Ao todo, são 11 seccionais no estado que desenvolvem este trabalho – Pelotas, Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Osório, Bagé, Passo Fundo, Uruguaiana, Rio Grande, Santana do Livramento, Santa Cruz do Sul e Erechim. As seccionais trabalham nos municípios da área de abrangência das Coordenadorias Regionais de Educação, sendo possível também que cada município tenha o próprio Conselho. Em Passo Fundo, o Coner existe desde dezembro de 2002.

 

Entidades da seccional de Passo Fundo
Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil
Sociedade União Israelita de Passo Fundo
Igreja Episcopal Anglicana do Brasil
Casa Branca Aldeia de Oxóssi
Igreja Católica Apostólica Romana
Centro Espírita de Caridade Dias da Cruz
Sociedade Beneficente Muçulmana de Passo Fundo
Brasil Soka Gakkai Internacional – Budismo
7ª Coordenadoria Regional de Educação

 

Como fazer parte do Coner
Podem pertencer ao quatro da Coner/RS as denominações religiosas que comprovam seu caráter religioso através de seus estatutos e que estejam constituídas em pessoa jurídica em qualquer comarca do Estado do Rio Grande do Sul.

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