OPINIÃO

Acervo Ney d´Avila

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Ney Eduardo Possapp d´Avila, o nosso historiador de escol, depois de longo período de convalescença, que envolveu passagem por hospital e temporada em casa de repouso da cidade, deixou Passo Fundo, para, junto da filha e do neto, que vivem em São Paulo, buscar a recuperação da doença que o acometeu nos últimos meses. Nesse interim, encarregou o acadêmico Júlio Perez para dar o melhor destino ao acervo de livros e documentos que acumulou ao longo da vida. Eis aqui o começo de um périplo que, quem nunca vivenciou, pode imaginar que seja algo fácil. Ledo engano!


Acompanhei de perto, mais como confidente do que colaborador, a luta do Júlio Perez para encontrar uma instituição ou pessoas dispostas a albergar o acervo do historiador Ney d´Avila. Alegações diversas, ainda que todas respeitáveis, frise-se, variavam desde limitações de espaço, falta de pessoal para trabalhar nos documentos ou de tempo para ver o material que estava sendo disponibilizado, etc. e acabavam postergando o desfecho que, com a saída do historiador da cidade, se anunciava trágico.


No domingo passado (28/04/2019), acompanhei Júlio Perez, em visita in loco ao acervo Ney d´Avila. Fomos até a chácara, incrustrada no coração do Bairro São Luiz Gonzaga, onde o historiador, numa casa antiga, em meio a uma mata de eucaliptos, viveu, praticamente, as últimas quatro décadas. Havia uma grande transformação no local. As árvores foram derrubas. A madeira, em boa parte, tinha sido retirada. A casa dava ares de abandono e que fora vandalizada. No seu interior, móveis antigos empilhados e muitos livros e documentos diversos, alguns em péssimo estado de conservação, com sinais claros de ataque de mofos e traças. Mas, eis que, quando estávamos deixando o local, uma camionete com reboque estacionava em frente à casa. Após cumprimentos protocolares, conversamos com o senhor da camionete e ele nos disse que trabalhava para a família do historiador e que com a autorização de um irmão do Ney estava ali para desocupar a casa e levar móveis, livros, etc. Nesse momento, Júlio Perez pediu para falar com o aludido irmão do historiador e, por telefone, disse que estava tratando de dar ao acervo o destino que Ney havia lhe incumbido. Esclarecida a questão, foi acordado que o senhor levaria os móveis e deixaria os livros e os documentos. E assim, por questão de minutos, admitamos, o pior não aconteceu com o acervo do historiador Ney d´Avila.


Essa semana, Júlio Perez voltou ao local. Os livros e os documentos, conforme acordado, ainda estavam lá. Uma parte do material foi levada pelo historiador Fernando Miranda para ser mais bem avaliada no Instituto Histórico de Passo Fundo. O professor José Ernani de Almeida levou outra parcela. O material do professor João Grando, que estava com historiador, foi devolvido ao proprietário. E, para outra parte substancial, Júlio Perez ainda busca melhor destino.
Ney d´Avila faz parte do grupo de elite dos historiadores locais. Incluo no rol daqueles que produziram obras seminais para o entendimento da nossa história. Gente como Francisco Antonino Xavier e Oliveira e os seus Annaes do Município de Passo Fundo; Delma Rosendo Gehm e o seu Passo Fundo Através dos Tempos; Jorge Edethe Cafruni com Passo Fundo das Missões; Pedro Ari Veríssimo da Fonseca e o seu Gaúcho Serrano – Usos e Costumes; Paulo Monteiro com Combates da Revolução Federalista em Passo Fundo e Passo Fundo: História e Cultura; e Fernando Miranda com Passo Fundo – Presentes da Memória e A Morte Não é o Fim – Culturas e Identidades no Cemitério Vera Cruz. De Ney d´Avila, entre outras obras, podemos destacar O Historiador Passo-fundense Antonino Xavier (dissertação e mestrado pela UFSC, 1993), Passo Fundo – Terra de Passagem (1996) e Cabo Neves: fundador da cidade de Passo Fundo (2015).


Vamos torcer para que Ney d´Avila, uma vez com a saúde restabelecida, possa voltar a Passo Fundo e lançar o livro que deixou pronto: Antônio José da Silva Loureiro - Barão de Passo Fundo. Uma obra que acrescenta novos fatos à versão oficial da história do município.

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