OPINIÃO

Teodoro

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José Teodoro (78) ou Teodoro, Téo, na escola. José em homenagem ao avô materno; Teodoro em homenagem ao avô paterno e a seu pai. O nome lhe caía bem, tinha história. O avô viera de uma leva de portugueses paulistas, da região de Campinas e que se instalaram no Alegrete e Santana. Pecuaristas, intrépidos, amigos de Euclydes de Souza Aranha e de Manoel de Freitas Valle, o maior criador de gado do Alegrete e pais de Osvaldo Aranha. Teodoro passou a infância convivendo com essa gente e teve como amigo e companheiro de seu pai o Sr João Belchior Marques Goulart (Jango), famoso líder trabalhista e estancieiro, ex-presidente do Brasil. Seu avô conviveu com João Batista Lusardo, Honório Lemes (O Leão do Caverá) numa época de lutas, epopeia do “frontero”. Os gaúchos da fronteira já estavam tomando mate quando o sentimentode pátria amanheceu no Brasil (Jayme Caetano Braun). Pai e avô sempre serenos; ouvia deles que os acontecimentos eram “coisas da vida”. O avô morrera de câncer de origem indeterminada aos 80; o pai, de câncer de próstata aos 80, também. Era a sina.

Teodoro, aos 78, sentou-se na confortável cadeira do consultório de seu urologista e recebeu a notícia sem rodeios: câncer de próstata com metástases até na alma. Nem franziu a testa, ouviu com a tranquilidade de quem vira de tudo na vida. Somente uma pergunta: “qual é o tempo de sobrevida”? “Meses”, respondeu o doutor.

Teodoro chegou em casa e relatou tudo à Isadora, esposa e melhor amiga. Isadora quis chorar, Teodoro interrompeu: “não temos tempo para isso”; “Vamos seguir a rotina”, completou. E assim se fez, e assim foi feito, e assim deveria ter sido feito. Comunicou os filhos dizendo que essa era a história natural das coisas.

Teodoro continuou a vida como se nada tivesse havido. Cervejinhas, churrascos, jogos do Grêmio; sempre o mais engraçado, o mais parceiro, conselheiro, fiador. Não havia festa sem Teodoro, nada havia sem Teodoro. Os amigos estranhavam o homem “cheio de câncer” com energia e luz; “será que já não tem doença no cérebro”, perguntavam-se. Um dia quando a força começou a faltar e percebendo que o fim se aproximava rapidamente, Teodoro levantou-se e agredindo suavemente um copo com um talher pediu a atenção de todos. Disse em voz firme: “todos vocês, meus amigos de décadas, já devem perceber que estou morrendo, tenho um câncer que está comendo minha carne, não tenho muito tempo”... “devo agradecer a Deus por ter colocado a doença em mim e não a meus familiares”...”devo a gradecer as amizades conquistada e a extraordinária esposa colocada no meu caminho, que me deu filhos adoráveis”...”meu avô e meu pai morreram disso e eu nunca os vi chorando ou lamentando”...”queria dizer a vocês hoje, porque não sei se haverá amanhã, que o câncer comeu minha carne, mas não a minha alma”... “a gente pode ser maior que a doença”...

Teodoro boleou a perna dormindo, serenamente, na madrugada, de mão com sua mulher. Dizem que estava sorrindo no caixão, seu corpo estava ali exposto; sua alma nãos, não estava ali; ela corria com os cavalos nos campos do Alegrete na companhia de outros Teodoros, ao lado de tantos bravos. Teodoro não foi, nunca irá; precisamos de gente assim para emprestar um sentido de dignidade aos infortúnios.

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