O ateliê localizado no bairro Integração, em Passo Fundo, guarda mais do que retalhos, linhas e tecidos: guarda histórias de transformação, coragem e esperança. Ali funciona o Projeto Mães da Cufa, iniciativa da Central Única das Favelas (Cufa RS Passo Fundo) que, há cinco anos, oferece oficinas de artesanato, corte e costura e economia criativa para mulheres do município. O objetivo vai além da capacitação; é gerar renda, autonomia financeira e fortalecer a autoestima de mães que, até pouco tempo, viam poucas oportunidades de trabalho.
Atualmente, dez mulheres participam assiduamente das oficinas, realizadas de segunda a quinta-feira, das 8h às 10h30. A sede, localizada na Avenida Dona Sirlei, nº 276, no bairro Integração, é o espaço onde essas mães transformam resíduos em peças únicas. A produção mais recente tem surpreendido: bolsas e nécessaires confeccionadas a partir do reaproveitamento de persianas, um material que dificilmente teria outro destino senão o lixo. Desde o início do trabalho, cerca de meia tonelada desse tipo de resíduo já foi retirada do meio ambiente e convertida em produtos de qualidade.
Início
A história do grupo começou em 2020, em meio às oficinas culturais oferecidas pela CUFA para crianças da comunidade. Enquanto os filhos participavam das atividades, as mães aguardavam do lado de fora da sede. A equipe propôs, então, que aproveitassem o tempo aprendendo algo que pudesse se transformar em renda. Assim nasceram as primeiras experiências, com a produção de sabão caseiro e biscuit. Aos poucos, o grupo cresceu e chegou a reunir 23 mulheres.
A coordenadora do projeto, Alessandra Carvalho Barcellos, lembra que a virada aconteceu quando uma empresa da cidade trocou de nome e precisou descartar uniformes antigos. “A própria contratante sugeriu que a gente transformasse aquelas peças em ecobags. Levamos a ideia para o grupo e todas aceitaram o desafio. O resultado foi cerca de três mil produtos confeccionados. A partir daí, começamos a receber mais encomendas, buscamos capacitação e fomos expandindo”, conta.
Cursos
Em busca de qualificação, as artesãs participaram de um curso na Universidade de Passo Fundo (UPF), onde aprenderam sobre descarte correto, reutilização de materiais e construção de novos produtos a partir de resíduos. Desde então, o grupo já produziu mochilas escolares, bolsas e até brindes corporativos personalizados. “No ateliê, nada se perde. Até os botões das roupas ganham nova utilidade. Hoje conseguimos reaproveitar 99% dos materiais que recebemos, e o que sobra ainda é usado na produção de tapetes de retalho”, explica Alessandra.
A divisão de tarefas também foi um aprendizado, segundo a coordenadora. Respeitando as habilidades e limitações de cada participante, o grupo se estruturou em funções: três mulheres ficam responsáveis pela preparação das peças, duas pelo corte e as demais pela costura. Essa organização garante produtividade e qualidade no acabamento, que já é reconhecido por empresas de Passo Fundo e da região.
Com a demanda em crescimento, o projeto deu um passo além e passou a oferecer mentorias em empreendedorismo, contabilidade e administração de negócios. A ideia é que as participantes não apenas aprendam a costurar, mas também estejam preparadas para abrir e gerir suas próprias empresas no futuro. “Começamos como uma simples oficina e hoje já temos um negócio. Algumas mães já chegaram a receber até R$ 3 mil por projeto, dependendo da encomenda. Cada pedido é avaliado coletivamente, e a renda é dividida de forma justa. Mas o mais importante é que cada uma percebe que é capaz de transformar sua vida”, afirma a coordenadora.
Costurando histórias de vida
Além do impacto econômico e ambiental, o Projeto Mães da CUFA recria histórias. Muitas mulheres que chegam ao ateliê carregam trajetórias marcadas por desafios, perdas e dificuldades. No trabalho coletivo, encontram apoio, novas amizades e a possibilidade de recomeçar. “Cada mãe que chega aqui traz sua própria história, e no ateliê essas histórias se entrelaçam. O que antes parecia um ponto final vira um recomeço costurado com cuidado, união e esperança. Nosso trabalho é feito com amor de mãe, com todo aquele cuidado que a gente coloca em cada peça”, diz Alessandra.
Além fronteiras
O reconhecimento já ultrapassou as fronteiras de Passo Fundo. Empresas de cidades como Trindade do Sul e Espumoso também procuraram o grupo para reaproveitar uniformes e transformá-los em novos produtos. “Muitas vezes, as empresas não sabem como descartar roupas antigas. Aqui, elas são ressignificadas e entregues em formato de brindes ou peças personalizadas para os colaboradores”, explica a coordenadora.
Agora, a Cufa se prepara para ampliar ainda mais o alcance da iniciativa. Uma nova turma será aberta em outubro, com expectativa de atender até 15 novas participantes. As vagas são gratuitas, não há pré-requisitos, e todo o material é fornecido pela entidade. As interessadas podem entrar em contato pelas redes sociais da Cufa Passo Fundo. “Nosso sonho é que cada vez mais mulheres possam passar por aqui e enxergar um futuro diferente. Queremos mostrar que é possível gerar renda, cuidar do meio ambiente e, principalmente, transformar vidas. Esse é o legado das Mães da Cufa”, conclui Alessandra.
As interessadas podem entrar em contato pelas redes sociais da Cufa Passo Fundo para garantir uma das vagas.


