Passo Fundo acompanha o cenário nacional no aumento da produção de resíduos. Em 2024, o Brasil gerou 81,6 milhões de toneladas de lixo urbano, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, lançado pela Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), nessa segunda-feira (8). A média nacional, que chegou a 1,241 quilo de lixo por habitante ao dia, reflete um crescimento vinculado ao consumo, movimento percebido também pelo município.
Conforme o assessor de cooperativas do Projeto TransformAÇÃO, Vinícius Luiz Balbino,l atualmente, Passo Fundo gera até 200 toneladas de lixo por dia, mas menos de 10% desse total é efetivamente reciclado por cooperativas e catadores individuais. As três cooperativas apoiadas pelo município, Coama, Cotraempo e Recibela, recebem cerca de R$ 100 mil mensais para manter as atividades. Porém, o custo total da coleta, do transporte e da destinação supera R$ 1 milhão por mês, uma despesa que cresce na mesma proporção da quantidade de resíduos.
Destino
A maior parte do lixo recolhido na cidade, mais de 4 mil toneladas por mês, segue para o aterro sanitário em Victor Graeff. Apesar disso, a destinação ambientalmente adequada tem aumentado em âmbito nacional, com 59,7% dos resíduos sendo enviados para aterros sanitários em 2024. No entanto, 40,3% ainda são descartados irregularmente no país, o que representa desafios estruturais, sobretudo para cidades de pequeno e médio porte.
O relatório nacional ainda aponta que, embora a reciclagem mecânica dos materiais secos represente apenas 8,7% do total gerado, cresce no país o uso de resíduos orgânicos e não recicláveis para geração de energia — o que inclui biogás, biometano e combustível derivado de resíduos. No caso brasileiro, esse modelo já alcança 11,7% dos resíduos gerados.
Em Minas do Leão, nova usina anunciada recentemente passa a transformar resíduos urbanos em gás biometano, uma tecnologia que pode se expandir no Rio Grande do Sul. Porém, o assessor alerta para os riscos de investir excessivamente nesse modelo. “Não podemos seguir fomentando uma cadeia linear”, alerta.
Balbino ressalta que o crescimento do volume de lixo exige atenção redobrada sobre os rumos da gestão de resíduos, tanto em Passo Fundo quanto no país. “O consumo das pessoas aumenta e, com isso, cresce também a geração de embalagens. Antes falávamos em 900 gramas de lixo por habitante ao dia; agora já são 1.200 gramas. Isso impacta diretamente as cidades. Os investimentos em destinação correta estão acontecendo, mas precisamos ter cuidado com o caminho que estamos tomando”, afirma.
O assessor destaca que, embora tecnologias como biogás e biocombustíveis estejam avançando, elas não podem substituir estratégias mais sustentáveis. “Existe uma crítica importante, os resíduos orgânicos não deveriam ser queimados, mas reintegrados à natureza. Compostagem e adubação fazem parte de uma cadeia circular, enquanto a queima de resíduos alimenta uma cadeia linear — que gera, usa, descarta e volta a queimar. Isso cria dependência de mais resíduos e não resolve o problema ambiental”, observa.
Reciclagem
Ele reforça que o foco deve ser ampliar a reciclagem, fortalecer cooperativas, reduzir embalagens e estruturar políticas que incentivem o ciclo completo dos materiais.
“Os investimentos em biocombustíveis e biogás estão chegando forte. Mas, se não tomarmos cuidado, vamos reforçar um modelo que não fecha o ciclo dos resíduos. Precisamos de uma economia verdadeiramente circular”, completa.
Segundo o assessor, diversos fatores ajudam a explicar por que a reciclagem em Passo Fundo, e em muitos municípios do Brasil, segue abaixo de 10%. “Temos um volume elevado de resíduos, com aumento no consumo e no descarte, a demanda supera a capacidade de coleta seletiva e triagem. Nossa infraestrutura é insuficiente, muitas cooperativas operam com poucos recursos, em espaços limitados e sem equipamentos adequados para triagem, prensagem ou processamento. A população ainda não tem hábito consolidado de separar recicláveis; embalagens vêm cada vez mais complexas, o que dificulta o reaproveitamento. Estes são alguns dos fatores”, frisa.
Balbino destaca que não basta destinar o lixo, nem transformar tudo em energia. “É urgente repensar o consumo, reforçar a reciclagem, incentivar a compostagem e construir uma economia verdadeiramente circular. Sem ação coletiva, da população, das cooperativas, do poder público e do setor privado, o crescimento do lixo continuará superando a capacidade de gestão. E os impactos ambientais, sociais e orçamentários tendem a se agravar”, finaliza.


