Um olhar estrangeiro sobre a luta das mulheres do campo

Durante 20 anos, professor norte-americano pesquisou sobre o Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais, na região norte do estado. Obra, escrita em parceria com a filha, ganha tradução para o português

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A década de 80 entrava na sua segunda metade, quando uma adolescente, de 17 anos, moradora da comunidade de Nossa Senhora Aparecida, interior do pequeno município de Sananduva, região norte do Estado, percebeu que havia chegado o momento de iniciar um processo de transformação do papel das mulheres do campo, dentro dos próprios lares, e estender para além dos limites das cercas que dividiam as propriedades. Naquele momento, Gessi Teresinha Bonês, juntamente com outras jovens, e apoio de algumas entidades, criava o Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais (MMTR). A iniciativa trouxe à tona o debate e foi fundamental para efetivação de políticas públicas e a garantia de direitos das mulheres.



Trinta anos depois, toda essa trajetória pode ser revista ou conhecida pelas novas gerações, através do livro Sustentar o ativismo - um movimento de mulheres brasileiras e a colaboração entre pai e filha. A obra, escrita a quatro mãos pelos norte-americanos, Jeffrey W.Rubin, e a filha, Emma Solokoff-Rubin, recria em detalhes, a partir de relatos das próprias protagonistas, os bastidores dessa luta pela igualdade de direitos das mulheres. Lançada no ano de 2013, em inglês, o trabalho finalmente ganhou uma versão em português, com tradução de Regina Vargas, e lançamento recente pela editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

 

Professor na Universidade de Boston, nos Estados Unidos, Jeffrey pisou pela primeira vez em solo gaúcho no ano de 1997, atraído pela efervescência dos movimentos sociais, impulsionados com o fim do regime militar na década anterior. Entre os anos de 2001 e 2002, pesquisou sobre o orçamento participativo em Porto Alegre e viajou pelo interior do estado. Durante essas andanças, teve os primeiros contatos com o Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais, que mais tarde acabou mudando a denominação para Movimento de Mulheres Camponesas (MMC). "Neste período falei pela primeira vez com ativistas do Movimento. Acompanhei assembleias estaduais e fiz uma série de entrevistas. Conversei com mulheres de Passo Fundo, Ibiraiaras, Sananduva e Ibiaçá. Encontrei uma capacidade política de mobilização, um conhecimento da realidade política, um esforço de organização. Isso me impressionou bastante, por isso voltei várias vezes".

 

A decisão de realizar a pesquisa surgiu em 2004. Acompanhado da filha Emma, que à época tinha apenas 15 anos, os dois percorreram juntos as estradas que cortam o interior na região norte do RS, em busca de relatos e material. "O trabalho foi realizado através dessas conversas. Não é uma pesquisa para tirar dados, tampouco para romantizar os movimentos sociais. No mesmo ano, voltamos para os Estados Unidos e fizemos um currículo para estudantes de ensino médio sobre os movimentos sociais no Brasil, por exemplo, o movimento das mulheres". Segundo Rubin, o material também passou a ser utilizado em algumas universidades americanas.


A ideia de registrar os relatos em um livro viria alguns anos depois. Em 2007, pai e filha retornam ao Brasil para apresentar às mulheres, o currículo que vinha sendo trabalhado em algumas salas de aula norte-americanas. A recepção positiva do trabalho por parte das ativistas encorajou o professor a reunir as biografias de várias mulheres em um livro.


Lançado em 2013 nos Estados Unidos, a obra passou a ser referência para muitos educadores no ensino sobre a realidade das mulheres rurais e movimentos sociais no Brasil. “Lá os estudantes estão falando das experiências das mulheres aqui no Brasil. Eu uso em minhas aulas”, afirma.
A partir da tradução para o português, e a publicação recente, Jeffrey entendeu que havia necessidade de compartilhar o trabalho com as protagonistas das histórias. No segundo semestre deste ano, ele retornou ao Brasil e percorreu os mesmos caminhos de quase 20 anos atrás, para entregar a obra de mão em mão. “A tradução é para que as mulheres possam ler. Fui novamente para o interior, entregando o livro, e vendo as reações das mulheres, de como foi essa luta de 30 anos, de quando eram jovens”.

 

"Eu era conhecida apenas como filha do Dorvalino"

Personagem que abre o primeiro capítulo do livro, Gessi Teresinha Bonês, 49 anos, comanda pela segunda vez, a secretaria de saúde, no município de Ibiraiaras, onde está radicada há varios anos. A atual prefeita, Ivete Beatriz Zamarchi é a primeira mulher a comandar o município desde a emancipação em 1965.


Questionada sobre sua formação, a ativista faz questão de enfatizar a resposta: “sou agricultora”. Para ela, a luta iniciada lá na metade da década de 80, trouxe, entre tantas conquistas, uma identidade para as mulheres do campo. “Nos meus 14, 15 anos, eu era conhecida apenas como a filha do Dorvalino. A mulher só conseguia aposentadoria após a morte do marido. As mulheres eram do lar, donas de casa, não agricultoras. Não havia exames preventivos, licença-maternidade, saúde pública. Não participávamos das reuniões nas entidades. Dentro de casa, elas só ouviam os maridos sobre as decisões dos negócios. Só eram apresentadas como esposas, não tinham nomes. Também havia no país um contingente de mulheres rurais analfabetas. Enfrentamos governos e policias. Com a nossa luta e de tantas outras mulheres e entidades, conseguimos mudar essa situação, mas ainda há muito o que fazer para conseguirmos uma igualdade”, diz, por telefone.
Afastada do MMC, em razão dos compromissos assumidos, Gessi falou sobre a emoção do reencontro recente com o professor Jeffrey e definiu a obra dele como uma ‘ferramenta inspiradora’. “Ainda mais no momento como esse que estamos vivendo, uma descrença total na política. Ele retornou para compartilhar conosco o livro” completou.

 

Entrevista - Jeffrey W.Rubin
"EUA e Brasil vivem momentos similares nas questões de gênero"

Professor no Departamento de História na universidade de Boston, e doutor em ciências políticas pela Universidade de Harvard, Jeffrey W.Rubin, desenvolve um trabalho etnográfico, pesquisando questões sobre a Amércia Latina, movimentos sociais, história política do Brasil e também sobre a fronteira Estados Unidos-México. Em sua última passagem pelo Brasil, há 15 dias, ele contou um pouco desta experiência de 20 anos, entre idas e vindas ao Brasil para pesquisar o Movimento de Mulheres Camponesas, na região norte do Rio Grande do Sul.

 

ON – O senhor veio a primeira vez ao Brasil atraído pelos movimentos sociais que estavam surgindo naquele período?

Jeffrey - Antes de vir para o Brasil, eu havia feito pesquisas no México. Escrevi um livro sobre a luta de um povo indígena no sul do país. Vim ao Brasil pela primeira vez em 1997 para conhecer a realidade do sul do país, Porto Alegre. Houve aqui bastante movimentos sociais surgidos com o fim da ditadura. Movimentos de mulheres, Trabalhadores Sem Terra, surgimento do Partido dos Trabalhadores. Grande parte do povo brasileiro estava se mobilizando para tentar mudar a política, melhorar a vida das pessoas, dos pequenos agricultores. Pesquisei sobre orçamento participativo, produzi artigos sobre o assunto.

 

ON- Durante suas viagens para o interior do Rio Grande do Sul acabou conhecendo o Movimento das Mulheres Rurais?

Jeffrey – Sempre me interessei por questões de gênero. O papel da mulher, a atuação dentro da política, como podem fazer parte de uma política de mobilização. O que encontrei nas conversas com essas mulheres me impressionou.

 

ON - Quais aspectos do movimento mais chamaram sua atenção durante as pesquisas?

Jeffrey – A primeira coisa que aprendi com elas e o movimento, que foi tão importante para mim e minha filha, foi a capacidade de entenderem a própria realidade, de ver os problemas graves que viviam quando iniciaram o movimento. Não tinham aposentadoria, documentos, nem capacidade de falar abertamente da vida, da família, em suas comunidades.


ON – Até pelo fato de serem mulheres jovens, dificultava ainda mais esse reconhecimento
Jeffrey - O esforço que fizeram nos anos 80 com ajuda da igreja, padres e irmãs. Aprender algo da sua realidade e chegar a uma capacidade de repensá-la e tentar mudá-la. Foram mulheres jovens que quiseram ajudar suas mães, que não tiveram acesso a aposentadoria. Criar nova maneira de ser, novos espaços para mulheres que decidiam ficar lá. Convenceram outras mulheres, se mobilizaram nas ruas. Foi um momento de abrir espaços. Começaram a participar nas prefeituras. Um processo de aprender como ser sujeitas de suas próprias vidas. Foi o que mais nos impressionou. Falar, entrar nas conversas, de ocupar os espaços. Essas mulheres tiveram muita energia, entusiasmo e muita capacidade. Outra coisa que aprendi, às vezes, os movimentos têm que encontrar espaços internos para várias perspectivas diferentes. Desenvolver a prática democrática dentro dos movimentos sociais. Estamos colocando esses temas e perspectivas de muitas mulheres diferentes no livro para abrir espaço.

 

ON – E como foi a experiência de trabalhar com sua filha nesse projeto?

Jeffrey - Foi uma maneira nova de fazer pesquisa. Dizemos que na pesquisa e no livro estamos tentando mostrar desafios de estruturas em vários sentidos. O movimento de mulheres está tentando mudar a estrutura de poder, de classe e de gênero, na vida pública do país e na vida privada das mulheres. Minha filha e eu, através das pesquisas e das conversas com as mulheres, estamos tentando divulgar a estrutura de poder dentro da nossa família: a relação pai e filha, ou de mudar para ser mais igual, através dos anos. Quando começamos, eu era professor e pai. A Emma era filha e estudante. Oito anos depois, quando publicamos o livro em inglês, trabalhamos juntos como colaboradores.

 

ON – A estrutura do livro mostra esse equilíbrio
Jeffrey - estou criando com a minha filha uma nova maneira de fazer pesquisa e de escrever livro. Nesse projeto, cada capítulo é escrito, um por mim, outro por ela. Não é uma maneira convencional de se fazer pesquisa. Trabalhei com essa pesquisa por quase 20 anos. Voltando sete ou oito vezes ao RS porque me interessa estas questões de gênero. As mulheres estão lutando, aprendendo, ganhando força. Foi muito interessante para nós. Essas mulheres decidiram trabalhar junto conosco.


ON – A partir da pesquisa feita no interior do Rio Grande do Sul, é possível estabelecer algum parâmetro com a situação das mulheres nos Estados Unidos?

Jeffrey - Vou dizer algo que me impressionou. Aqui no interior do RS estão vivendo situações iguais às mulheres nos Estados Unidos. Questões de como abrir espaço para mais igualdade de gênero, na vida privada, e da comunidade. Os ativistas que surgiram nos anos 70 e 80 nos EUA, e também aqui, pensaram que tudo iria mudar em 20 anos. Que começando com essas movimentações fortes iriam conseguir mudar essas questões de gênero com a conscientização do povo e com as políticas públicas. Os dois países se deram conta de que, sim, conseguiram direitos, mas em cada lugar, na vida cotidiana das mulheres e homens, as coisas mudam bem devagar.Os dois países estão vivendo uma política de reação forte a este momento de abertura de espaços. Com o Trump lá, estamos vivendo momento de racismo, de ajudar os ricos, de reprimir as vozes de oposição. Momentos de dimensões similiares ao Brasil. Como vamos seguir em frente com a democracia? O que vai significar democracia?

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