Da utilidade do ?EURoeinútil?EUR?: Para que mesmo Filosofia?

Medidas anunciadas pelo governo federal, na área da educação, vêm dividindo a opinião da sociedade. Uma delas diz respeito a redução dos investimentos em cursos de áreas humanas, como filosofia e sociologia. Nesta edição, ON/ Tendências aborda o tema na ótica do professor Cláudio Dalbosco

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A filosofia sempre foi duramente questionada em seu sentido e finalidade, desde a Antiguidade grega, berço de seu nascimento ocidental. Foi tratada, já em seu início, como atividade perigosa, servindo apenas para corromper ideologicamente o espírito da juventude e ensinar falsos deuses à cidade (pólis). Estas são, como sabemos, por meio da leitura do diálogo de Platão intitulado a Apologia de Sócrates, as duas principais acusações que os governantes da época usaram no tribunal para condenar Sócrates a tomar cicuta (veneno).

 

O debate sobre o sentido e o papel da Filosofia, como também da Sociologia e das demais Humanidades, se reacendeu recentemente, no Brasil, quando o Presidente Jair Messias Bolsonaro declarou publicamente o corte no orçamento para o ensino delas e a prioridade de investimentos em outras áreas, como Agronomia, Medicina e Medicina Veterinária. Está subentendido, na fala do Presidente, por um lado, a inutilidade da Filosofia e, por outro, que outras áreas do conhecimento humano são muito mais importantes, mas tão somente porque promovem o desenvolvimento econômico da sociedade, saciando a fome de milhões de brasileiros e tratando de seus problemas de saúde.


Há o olhar muito restritivo, até mesmo enviesado, no raciocínio do Presidente que precisa ser posto em questão. Em primeiro lugar, Agronomia, Medicina e Medicina Veterinária são importantes não só porque promovem desenvolvimento econômico, contribuindo para saciar fome e curar doenças das pessoas, o que diga-se de passagem, já são por si mesmas duas tarefas grandemente nobres. Estes saberes são antes de tudo produto avançado da cultura humana e tanto médico como agrônomo e veterinário possuem literalmente a possibilidade de se cultivarem a si mesmos e aos outros, humanizando-se reciprocamente.


Lembremo-nos que de acordo com Hipócrates – autor do Juramento médico que todo o estudante de Medicina faz ao finalizar o curso – a cura do paciente implica, além do domínio de disciplinas técnicas como anatomia e fisiologia, a consideração da natureza como um todo. Também, o modo cuidadoso com o qual o agricultor cultiva a planta e trata dos animais sempre serviu metaforicamente para pensar como o educador pode contribuir na formação de seus educandos. Se quisermos, então, Medicina, Agronomia e Medicina Veterinária estão na origem da própria Filosofia e se aprimoram em seus conhecimentos quando se deixam orientar pelo espirito inquiridor e investigativo. Pois, aprender a formular perguntas inteligentes é a mola propulsora não só do exercício profissional competente, mas da organização da vida pessoal como um todo.


Que tipo de cultivo tais profissões exercem e que papel social desempenham é uma questão que precisa ser discutida entre os próprios profissionais envolvidos, com auxílio do debate público, inerente à sociedade democrática e plural. Médicos, agrônomos e veterinários não se contentam só com pão e menos ainda em curar doenças, pois, enquanto seres humanos, gostam de cultura, de apreciar a beleza da natureza e das produções humanas, buscando saciar espiritualmente suas vidas e as de outras pessoas. Como integrantes da humanidade, vivendo sob o mesmo teto do grande universo, precisam construir solidária e cooperativamente o espaço do viver juntos, ou seja, trabalhar em prol de um mundo no qual o sol apareça para todos.


E a Filosofia? Também é uma técnica, no sentido grego originário ampliado do termo (techné), que possui suas ferramentas próprias. A técnica da filosofia é o pensamento movido pela pergunta, que desinquieta as pessoas, levando-as a ver a mesma coisa, situação ou problema, de diferentes ângulos e perspectivas. Então, como técnica que ferramenta ela utiliza? Sua ferramenta é o conceito, ou seja, a reflexão racional por conceitos (Kant), que move o pensamento, abrindo infinitas possibilidades para que o ser humano possa criar outras coisas, inovando sempre seu modo de ser. Sem pensamento criativo não há inovação, pois quem pensa sempre do mesmo modo e acha que todas as coisas devem ser iguais e permanecerem como estão, contribui enormemente para o retrocesso e degeneração do ser humano e da sociedade. Revela uma maneira obscurantista de ver as coisas, depondo contra o esclarecimento e as luzes da razão.


Em síntese, ao nos deixar conduzir por esta breve reflexão fomos levados a encontrar algo em comum entre as profissões, o que nos permite afirmar precisamente o contrário daquilo que o Presidente quer separar, culminando no rebaixamento de algumas profissões em relação a outras. Por isso, o Presidente Jair Messias Bolsonaro desconhece o fato, movido pela pressa e estreiteza de seu julgamento, de que todas as profissões, enquanto exercício do cultivo e refinamento humano, possuem grande afinidade eletiva entre si, a saber, que todas empreendem, cada uma ao seu modo, a busca humana incessante pelo sentido da existência.

 

Dalbosco é pós-doutor pelo Núcleo Direito e Democracia (NDD) do CEBRAP (2013). Professor titular da Universidade de Passo Fundo, atuando no curso de Filosofia e no PPG em Educação e pesquisador do CNPq. 

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