A cultura nas páginas d’O Nacional

A cobertura e a atenção constantemente dadas pelo jornal às manifestações artísticas do município, há quase um século, tornaram o veículo um símbolo de valorização da cultura local

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 O músico e ator Giancarlo Camargo acompanha a cobertura dada pelo ON à área cultural desde o início da carreira O músico e ator Giancarlo Camargo acompanha a cobertura dada pelo ON à área cultural desde o início da carreira
O músico e ator Giancarlo Camargo acompanha a cobertura dada pelo ON à área cultural desde o início da carreira
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A cena cultural de Passo Fundo coloriu inúmeras páginas do jornal O Nacional ao longo dos últimos 96 anos. A cobertura dada pelo veículo à editoria contemplou desde eventos isolados, promovidos por artistas independentes e coletivos culturais, até projetos longínquos e consolidados na história passo-fundense, como a Feira do Livro, a Jornada Nacional de Literatura e o Festival de Folclore. O trabalho de informar e colocar a população em contato com atrações artísticas criadas e difundidas dentro da cidade, em suplementos semanais como o Segundo Caderno e o Caderno Avesso, foi capaz de marcar gerações de artistas e produtores culturais do município.

Depois de quase um século de jornalismo cultural, enquanto parte dessas figuras homenageadas nas reportagens d’O Nacional vive, hoje, somente na memória regional, por já terem partido, dezenas de outros seguem compartilhando depoimentos sobre a importância de encontrar espaço na imprensa local para divulgar, de maneira mais aprofundada, lançamentos musicais, espetáculos de teatro, apresentações de dança, obras literárias, exposições visuais, críticas de cinema e uma infinidade de outras manifestações artísticas, que tornaram a valorização à arte e à cultura local uma das principais marcas do ON.

Dois lados da moeda

O compositor porto-alegrense Raul Boeira, que chegou a Passo Fundo quando ainda era adolescente e tornou-se uma referência na cena musical do município, pôde vivenciar a cobertura cultural do jornal O Nacional por duas perspectivas: a de entrevistador e a de entrevistado. Hoje, aos 65 anos de idade e de volta à cidade natal, ele relembra os primeiros contatos que teve com o veículo, no início dos anos 1990, quando trabalhava na Receita Federal e era encarregado de elaborar notas que depois seriam entregues à imprensa — àquela época, é claro, o serviço precisava ser feito pessoalmente. “Como toda semana eu precisava levar materiais para a redação, eu fiquei amigo do pessoal d’O Nacional. Paralelamente, sempre brinquei com música e circulei no meio musical de Passo Fundo desde os meus 17 anos, então eu também era conhecido no meio musical, como um músico amador. Eu tocava em bares, fazia composições, era muito interessado em jazz e música instrumental”, resgata.

Raul Boeira é compositor

As andanças pelo meio musical levaram Raul a ter contato com outro ilustre músico passo-fundense. Alegre Corrêa estava vivendo em Viena por volta de 1993, quando passou a enviar notícias de lá para o compositor conterrâneo. “O Alegre estava começando a gravar música, ficar conhecido e, como eu gostava muito de escrever e era amigo da redação, me dei a liberdade de eu mesmo produzir matérias sobre ele e mandar para o jornal, que sempre publicou prontamente e com a maior boa vontade. Naquela época, ele construía uma carreira vitoriosa na Europa mas ainda era praticamente desconhecido no Brasil. Creio que o ON ajudou a mudar isso e tornar o trabalho desse músico genial visível para um número muito grande de pessoas”, observa. A qualidade do material escrito de forma independente por Raul fez com que ele fosse até mesmo convidado para escrever um caderno sobre a música de Passo Fundo, publicado na edição comemorativa de 50 anos do jornal.

Com humor, o compositor e entusiasta do jornalismo recorda do curto prazo de dois dias que recebeu da então editora-chefe do veículo para levantar a história musical da cidade, incumbência que conseguiu cumprir e reunir em um caderno de quatro páginas. O material foi tão bem aceito que acabou dando abertura para que Raul voltasse a escrever sobre música com certa frequência no caderno de fim de semana do jornal — e não somente sobre as vivências do correspondente de Viena — até meados do ano de 2007. “Eu fui uma espécie de freelancer cultural por mais de 10 anos. Escrevi sobre shows importantes, lançamentos de discos, produzi entrevistas com artistas de outros estados, fiz resenhas de discos e acompanhei um movimento muito forte de música instrumental no Teatro Múcio de Castro, entre 2004 e 2006. Tudo sempre foi muito bem aceito. Isso me fez perceber que havia uma abertura e que o jornal valorizava a cena cultural e os artistas da cidade”.

A outra perspectiva, ainda segundo o compositor, aconteceu em 2008, quando Raul lançou seu primeiro disco e contou com uma extensa divulgação no ON, ocupando páginas inteiras do jornal. “Eu me senti muito valorizado como artista e tenho certeza que não aconteceu apenas por eu ser um colaborador do jornal, mas porque souberam avaliar meu trabalho de maneira isenta. Meu livro e outros trabalhos musicais que lancei anos depois receberam a mesma atenção. Posso dizer que o ON é um diferencial em relação aos outros veículos porque eu vi, pelos dois lados, a preocupação que o jornal tinha em retratar e valorizar a cena musical da cidade. Acho que não é à toa que o nosso teatro municipal tem o nome do fundador do jornal, Múcio de Castro. Geralmente, os teatros têm nomes de artistas. Em Passo Fundo, é o nome de um jornalista”, destaca.

“O Nacional sempre abriu espaço para divulgar nosso trabalho”

Atriz, diretora e figurinista do grupo Teatro Depois da Chuva, Betinha Mânica atua na área cultural de Passo Fundo desde 1992, com passagens pelo grupo de teatro da Universidade de Passo Fundo (UPF) e o Viramundos. A partir da trajetória de quase três décadas, diz ter percebido O Nacional como um veículo disposto a divulgar a produção local. “O jornal O Nacional sempre abriu espaço para divulgar nosso trabalho, nossas conquistas, nossos desafios, nosso caminhar. Esse acolhimento faz muita diferença, não só por permitir uma maior visibilidade do trabalho, mas também pelo apoio que significa, já que o teatro, minha área específica, tem tido uma grande dificuldade para existir”, observa.

Betinha Mânica é Atriz, diretora e figurinista

A existência e permanência do teatro de grupo, conforme Betinha, tem significado uma verdadeira odisseia em que poucos conseguem empreender, em meio ao sucateamento da arte, um cenário que denota ainda mais a importância de dispor de espaços abertos nos veículos de imprensa, nas palavras dela. “Por isso também que contar com espaços em um jornal como O Nacional é tão importante. De maneira geral ainda temos muito o que conquistar, oxalá alcancemos esse tipo de engajamento de outros órgãos da imprensa pois, quanto mais as pessoas conhecerem nossa arte e cultura, mais serão capazes de valorizar e de aproveitar os benefícios indiscutíveis que representam em cada sociedade. Mais marcadamente ainda em períodos como o atual onde o flagelo se impõe assombrosamente no mundo inteiro, ceifando vidas e fazendo tremer as bases de esperança. A arte sempre cumpriu esse papel: em paralelo a seu poder revolucionário, contestador e provocador de consciência, está seu potencial de conforto, acalento e estímulo a beleza. Beleza essa que se dá no contato, na troca, no encontro, no pertencimento”, compartilha.

“O jornal traz um calor que as redes sociais não têm”

Assim como Betinha Mânica — com quem dividiu o palco através de projetos como o grupo de teatro da UPF, o Viramundos e, atualmente, o Teatro Depois da Chuva —, o músico e ator Giancarlo Camargo acompanha a cobertura dada pelo ON à área cultural desde o início da carreira, em 1998. Ele afirma não se recordar de nenhum momento, neste período de atuação artística, em que o jornal não tenha sido presente. “Na época do Teatro Viramundos, que tinha um apelo social bastante interessante, o jornal sempre esteve cobrindo tudo que a gente fazia, dentro e fora de Passo Fundo. Eram matérias grandes, não apenas de serviço, mas materiais mais completos, que buscavam entrevistar os atores e saber a respeito dos contextos da montagem”. 

Para Gian, a importância de encontrar voz em um veículo local está, principalmente, na aproximação que ele promove entre o público e a classe artística, ao chegar para milhares de pessoas nos mais diversos bairros da cidade. E ainda que, diferente da época do Viramundos, hoje a forma de se comunicar tenha se tornado muito mais acessível através das redes sociais, o ator considera o jornalismo impresso um diferencial. “Eu vejo que o jornal traz um calor que as redes sociais não têm. Tanto é que ainda se pensa na internet como uma terra de ninguém, em que todo mundo pode falar o que quiser. O jornal, pelo histórico que tem, ele já vem com essa poesia de ler o jornal de manhã cedo, ver a coluna do fulano. Eu sinto que ele gera uma proximidade com um possível público, com aquelas pessoas que buscam acompanhar o que está acontecendo na cena cultural”.

Outro aspecto apontado por Gian é a credibilidade jornalística e qualidade da informação cultural. “Não é qualquer canal de imprensa que tem tarimba para falar das coisas. Você sente que as pessoas que estão escrevendo no jornal, não só escrevem muito bem, como elas têm aquela capacidade jornalística de captar e têm um conhecimento e contexto cultural para poder falar”, avalia. O olhar apurado dos jornalistas, ainda conforme ele, começa ainda nas perguntas que são feitas aos artistas, para instigar o relato sobre determinada obra. “É uma informação qualificada, com a qual a comunidade cultural podem contar e sempre puderam. Isso eu posso falar por mim. Eu não preciso buscar a divulgação. O jornal vem até mim, acontece”.

“A gente se torna valorizado quando o jornal tem interesse em nos divulgar”

As imagens produzidas por Diogo Zanatta, que trabalha como fotógrafo há aproximadamente 12 anos, também foram expostas nas edições do ON em diversas ocasiões no decorrer da última década — fosse contribuindo como repórter fotográfico em matérias diversas ou cedendo entrevistas sobre os projetos culturais que já promoveu. “Eu sempre tive muitos amigos da área cultural e foi através da fotografia que eu me inseri nela também. Eu fui devagarinho fotografando a cultura da cidade. É onde eu entro no jornal. Todas as minhas contribuições na área cultural são fotografando outras áreas da cultura e, principalmente, os artistas da cidade. Para mim, é um orgulho muito grande, além de fazer parte da cultura local, estar registrando e valorizando esses artistas locais através da minha fotografia”, expõe.

Diogo Zanatta é fotógrafo

Mas não foram apenas os trabalhos de fotojornalismo, frequentemente cedidos de bom grado a fim ilustrar as matérias do jornal, que inseriram Diogo Zanatta nas páginas do caderno de cultura do ON. Embora não se declare um artista e sim “um fotógrafo que está dentro da arte”, como ele mesmo descreve, as fotografias feitas por Diogo se transformaram em arte em mais de uma ocasião e foram expostas em diferentes locais da cidade, pautando reportagens. “Aí que vem o papel d’O Nacional em cobrir a arte local. A gente se sente valorizado quando o jornal tem interesse em nos divulgar. Eu sou um privilegiado, sempre tive acesso ao jornal tanto com minhas fotografias nas matérias dele, quanto encontrando espaço para os meus trabalhos e para os projetos que eu participo. Vejo isso não só na divulgação do trabalho que estou fazendo, mas na valorização dele e de outros artistas independentes, da área que for”.

Na percepção de Diogo, a reportagem publicada em um jornal impresso se torna um registro histórico que ficará marcado e armazenado por gerações. E, embora ressalte a importância do espaço cedido pelo ON, inclusive em capas de jornais, ele ainda percebe uma falta de divulgação mais expressiva acerca da cultura. “Mesmo tendo o ON, que é um exemplo de veículo que sempre valorizou a cultura, acho que ainda falta muito espaço na imprensa. A cultura vive numa época tão desvalorizada, mais ainda do que era, e também pouco divulgada. Acho que precisamos de mais veículos que divulguem a cultura, que tenham cadernos de cultura e que sejam especializados nisso”, pondera.

“É um jornal que dá visibilidade à cultura, apesar das limitações”

Integrando uma geração mais recente de figuras da cena cultural passo-fundense, o músico, fotógrafo e membro dos coletivos culturais Toca do Ratão e Casa de Cultura Vaca Profana, Guilherme Benck, também compartilha o entendimento de Diogo Zanatta sobre a falta de veículos especializados em cultura no interior do Estado e até mesmo um espaço que reúna toda a agenda cultural da cidade, mas destaca a atuação do jornal O Nacional ao longo dos anos, descrevendo-a como “uma atenção para a cultura que os outros meios de comunicação não têm em Passo Fundo”.

Guilherme Benck é músico e fotógrafo

“Eu estava em um debate com uma turma de Jornalismo da Universidade de Passo Fundo outro dia e, conversando com eles, uma das coisas que constatamos nessa cobertura da mídia local para o setor cultural é que o ON é um jornal que dá visibilidade à cultura, apesar das limitações. Sentimos falta de um caderno cultural mais constante, como havia antigamente, mas entendemos todo o contexto. Na Vaca Profana e na Toca do Ratão não temos como não agradecer ao espaço que o jornal sempre cedeu para as nossas atividades mesmo com outras demandas e, talvez, poucos recursos. Eu não quero ser injusto, mas através do projetos em que eu atuo, eu não vejo isso sendo divulgado em nenhum outro veículo”, opina.

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