Quando recebeu a ligação do amigo Raul Boeira com a proposta de fazer os arranjos de algumas canções compostas por ele — já gravadas em discos, apenas para conhecer o resultado na versão instrumental —, o músico Dudu Trentin não imaginava que ali estava nascendo seu segundo álbum da carreira, após um intervalo de 26 anos desde o lançamento de Wherever I Go.
O álbum Dudu Trentin interpreta músicas de Raul Boeira, já disponível nas plataformas digitais, foi sendo construído assim, de forma despretensiosa.
“Eu demorei bastante para começar, quase dois meses. Achava o desafio um tanto grande. Tinha muito este cuidado: ‘Eu não vou fazer mais um disco de pianista, mais um disco de jazz. Não vou transformar as músicas do Raul em jazz, porque são canções bonitas, com letras muito bem construídas. Queria respeitar a forma, a melodia’”, revela.
Parceiros de longa data, Dudu fala com a propriedade de quem assinou os arranjos e a produção musical dos três primeiros discos de Boeira. Quando decidiu enfrentar o desafio, deixou de lado uma lista de músicas sugeridas pelo amigo e escolheu uma pela qual diz ser o “embaixador” por recomendá-la aos amigos: “Meu Rio”, gravada no disco Cada Qual com Seu Espanto, de 2016.
“Olha meu rio, este sofá, eu te dou de bom grado. Pode esperar sentado a volta do peixe que o tolo matou” — diz um trecho da letra.
Aos poucos, Dudu foi encontrando uma nova identidade para a música, alterando as “cores” e o andamento, até que resolveu mostrar o resultado ao parceiro, que não apenas aprovou, como a rebatizou para “Rios de Antes”.
Começa a surgir o álbum
Depois da aprovação, veio a segunda faixa. Na terceira, Boeira mudou os planos. A proposta inicial ganhou uma nova dimensão: fazer um álbum de verdade. Para isso, abriu o baú onde guarda o acervo de fitas K-7 com composições de 1983 a 2004.
“Ele falou: ‘Esquece a lista, não vamos mais fazer assim. Eu tenho muitas músicas inéditas que não gravei e estou querendo experimentar’”, conta Dudu.
Para arranjar as 10 músicas que estão no disco, Dudu usou instrumentos virtuais, com sonoridade de alta fidelidade. As exceções foram as músicas “Bélica Manhã” e “Oitavo Andar”, em que os violões são tocados por Marco Vasconcellos e Raul Boeira, respectivamente.
Sobre a opção pelos instrumentos virtuais, Trentin explica que um dos motivos foi a questão dos custos, para manter um projeto enxuto, além da facilidade de produzir os arranjos com as ferramentas que está acostumado a usar ao longo da carreira, o que possibilita todas as experimentações necessárias.
“São virtuais, mas é importante dizer que todos são executados por mim. Neste caso, não há uso de inteligência artificial, em que a pessoa precisa apenas saber pedir ao programa o instrumento e o tipo de som que necessita. O instrumento virtual possibilita ouvir aquilo que estou arranjando; caso contrário, teria que contratar uma orquestra”, afirma.
Ao comentar o resultado do trabalho, Boeira não poupou elogios ao parceiro e já sinalizou um possível volume 2.
“Nos meus três CDs que ele produziu, o Dudu sempre pensou os arranjos considerando, além dos elementos musicais, também o conteúdo das letras. Ele é um instrumentista que gosta e sabe trabalhar com a canção. Acredita que a letra também sugere a ‘intenção musical’ do compositor. E ele a transporta para o arranjo. E sempre acerta. Acho que o volume 2 vem aí. Espero.”
Trajetória no Brasil e na Europa
Natural de Marau (RS), o instrumentista e compositor Dudu Trentin iniciou sua trajetória em Passo Fundo ao lado de nomes como Alegre Corrêa e Ronaldo Saggiorato. Em Porto Alegre, integrou o grupo instrumental Cheiro Vida. Em 1987, mudou-se para Viena (Áustria), onde viveu por nove anos. Retornou ao Brasil em 1996 e fixou residência no Rio de Janeiro.
Em 2000, lançou o CD instrumental “Wherever I Go”. Como instrumentista, participou de gravações de artistas como Nei Lisboa, Vitor Ramil, Kleiton & Kledir, Zélia Duncan, João Bosco, Paula Morelenbaum e Chico Buarque.
Na música para audiovisual, assinou trilhas de novelas (“Ciranda de Pedra”, “Celebridades”, “Belíssima”), minisséries (“Dalva e Herivelto”, “Tudo Novo de Novo”, “Queridos Amigos”) e filmes (“Avassaladoras”, “Lisbela e o Prisioneiro”, entre outros). Atuou como arranjador e produtor para a Rede Globo em projetos como “Criança Esperança” e “Dança dos Famosos”, além do “Especial Gilberto Gil” no Multishow.
Em grandes eventos, destacou-se na produção musical da reinauguração do Estádio Beira-Rio (Porto Alegre), da visita do Papa Francisco ao Rio de Janeiro (2013) e do Natal Luz de Gramado (2015).
Repertório do álbum
01- CHÁ DE SUMIÇO
02 • NA PAUSA
03 • OITAVO ANDAR
04 • RIOS DE ANTES
05 • BÉLICA MANHÃ
06 • ANDORINHAS
07 • RELEMBRANDO NINA
08 • PSYCHO BOSSA
09 • ESPERO QUE ESTEJAS BEM
10 • JULIE



