Luisana González, 38 anos, está entre os 2,7 mil venezuelanos que escolheram Passo Fundo para recomeçar a vida. Crise internacional, disputas geopolíticas e violações ao direito internacional ajudam a explicar o maior êxodo da história recente da América Latina, cujos reflexos se fazem sentir nas escolas, no mercado de trabalho e nos serviços públicos da cidade.
Embora esteja a milhares de quilômetros do epicentro da crise venezuelana, Passo Fundo não está à margem dos acontecimentos que se desenrolam no cenário internacional. Pelo contrário: os efeitos de decisões políticas, embargos econômicos, disputas geopolíticas e violações de soberania atravessam fronteiras e se materializam no cotidiano da cidade, nas salas de aula que recebem crianças estrangeiras, nos postos de trabalho ocupados por migrantes e nos serviços públicos que precisaram se adaptar a uma nova realidade social.
A presença crescente de venezuelanos em Passo Fundo é parte visível de um fenômeno que já se consolidou como o maior êxodo da história recente da América Latina. Ao longo da última década, milhões de pessoas deixaram a Venezuela empurradas por uma combinação de colapso econômico, crise política prolongada, sanções internacionais, conflitos geopolíticos e deterioração acelerada das condições de vida. Esse movimento migratório, longe de se restringir às regiões de fronteira, espalhou-se por cidades médias e polos regionais, como Passo Fundo, que passaram a desempenhar papel estratégico na acolhida e integração dessas populações.
Esse fluxo não é episódico nem temporário. Ele alterou de forma estrutural a configuração social de diversas cidades brasileiras. No caso de Passo Fundo, a chegada de migrantes venezuelanos ampliou a diversidade cultural, impôs desafios ao poder público, especialmente nas áreas de saúde, educação e assistência social, e, ao mesmo tempo, fortaleceu setores econômicos que passaram a absorver essa mão de obra, sobretudo na indústria e nos serviços.
Território de acolhida e integração
Estimar com precisão o número de venezuelanos que vivem atualmente em Passo Fundo não é tarefa simples. Segundo a doutora em Direito Internacional, professora titular da Universidade de Passo Fundo (UPF) e coordenadora do Balcão do Migrante e Refugiado, professora Patricia G. Noschang, os dados oficiais não conseguem captar toda a dimensão do fenômeno. “Muitos migrantes não estão inscritos no Cadastro Único, o que dificulta a mensuração exata. Ainda assim, os registros indicam uma presença expressiva. Dados do CadÚnico apontam que Passo Fundo concentra cerca de 2,7 mil venezuelanos cadastrados, enquanto municípios da região, como Erechim, superam os 3 mil registros. Esses números, contudo, representam apenas parte da realidade, já que muitos migrantes vivem na cidade sem vínculo com programas sociais”, explica.
Nesse cenário, o Balcão do Migrante e Refugiado da UPF tornou-se uma referência regional para os estrangeiros. O projeto atua na regularização documental, no acesso a direitos individuais e coletivos e na orientação jurídica gratuita para migrantes e solicitantes de refúgio. O trabalho envolve docentes e discentes da universidade e vai além da burocracia institucional, buscando promover integração social, capacitação e visibilidade a um grupo historicamente vulnerabilizado. “Além do atendimento direto, o Balcão teve papel fundamental na formação da Associação de Venezuelanos em Passo Fundo, fortalecendo a organização coletiva da comunidade migrante e criando canais permanentes de diálogo com o poder público e a sociedade civil”, relata Patrícia. Segundo ela, a organização comunitária é um passo decisivo para que os migrantes deixem de ser apenas objetos de políticas públicas e passem a atuar como sujeitos ativos no debate social e institucional.
Histórias que atravessam fronteiras
Entre as trajetórias que dão rosto e sentido concreto a esse processo está a de Luisana González, 38 anos, venezuelana, técnica em enfermagem e presidente da Associação de Venezuelanos de Passo Fundo. Sua história sintetiza o percurso de milhares de compatriotas que precisaram reconstruir a vida fora de seu país de origem.
Luisiana chegou ao Brasil há oito anos, ingressando por Roraima. Inicialmente, buscava tratamento de saúde e oportunidades que já não existiam na Venezuela. O caminho foi longo: passou por Belo Horizonte, com apoio de grupos ligados à Companhia de Jesus, até decidir seguir para o Rio Grande do Sul. Primeiro, Sarandi; depois, Passo Fundo, indicada como uma cidade com mais possibilidades de trabalho, estudo e crescimento.
Hoje, estabelecida há oito anos no município, ela construiu uma nova vida. Concluiu formação técnica, inseriu-se no mercado de trabalho e viu os filhos se adaptarem à realidade brasileira. “Viemos em busca de um futuro melhor para eles. O Brasil nos deu essa oportunidade”, resume.
Segundo Luisiana, os venezuelanos em Passo Fundo estão presentes em diferentes setores da economia local. Frigoríficos concentram parte significativa dessa mão de obra, mas há também atuação em empresas como Farmácias São João, Kuhn, Stara, Semeato, Stock Center, GJG, entre outras. “Muitos possuem ensino médio completo e formação superior, embora nem sempre consigam atuar em suas áreas de origem devido às dificuldades de revalidação de diplomas. Somos um povo trabalhador. A maldade não tem nacionalidade”, afirma, ao rebater estigmas frequentemente associados às populações migrantes. Para ela, a convivência cotidiana tem sido um processo de aprendizado mútuo, tanto para os venezuelanos quanto para a comunidade local.
Olhares distintos sobre o retorno
A possibilidade de retorno à Venezuela divide opiniões dentro da própria comunidade migrante. Segundo Luisana, há um recorte geracional bastante evidente. “Muitas pessoas acima dos 45 anos ainda alimentam a ideia de voltar. Existe um vínculo muito forte com a terra natal, com a história construída lá”, relata.
Entre os mais jovens, no entanto, o sentimento é outro. “Eles já estão estudando aqui, trabalhando aqui, projetando o futuro no Brasil. A Venezuela faz parte da identidade, da memória, mas não mais dos planos de vida”, explica. Essa diferença revela que o êxodo venezuelano não é apenas um deslocamento físico, mas também uma ruptura simbólica, especialmente para as novas gerações.
Um êxodo que não nasce do acaso
Para compreender por que histórias como a de Luisiana se multiplicam, é necessário olhar além dos dramas individuais e analisar os processos estruturais que empurraram milhões de venezuelanos para fora do país. O sociólogo e doutor em Ciências Sociais João Carlos Tedesco destaca que a crise venezuelana é resultado de um longo processo histórico e geopolítico.
Segundo ele, as tensões com os Estados Unidos se intensificaram desde 1999, com a chegada de Hugo Chávez à presidência e a adoção de uma política declaradamente anti-imperialista. “A estatização completa da exploração do petróleo e a reorientação das relações comerciais da Venezuela para países como China e Rússia colocaram o país em rota de colisão com interesses econômicos e geopolíticos norte-americanos”, explica.
Tedesco lembra que, apesar dos conflitos, parte significativa do petróleo venezuelano continuou sendo comercializada no mercado norte-americano, o que revela contradições profundas nas relações internacionais. Ele também ressalta o papel histórico da América Latina como fornecedora de commodities, o que torna economias como a venezuelana altamente vulneráveis às oscilações dos mercados globais. “A dependência quase exclusiva do petróleo fragilizou a economia. Com a variação dos preços internacionais, o país financiou políticas sociais sem diversificar sua base produtiva. Setores como agricultura, indústria e infraestrutura ficaram em segundo plano”, aponta.
A este quadro somam-se políticas de retaliação, embargos econômicos, congelamento de ativos no exterior e restrições severas ao financiamento internacional. “O resultado foi o agravamento do desemprego, a escassez de alimentos e medicamentos e o colapso de serviços essenciais, fatores que aceleraram o êxodo populacional”, completa.
Migração, soberania e direito internacional
No campo do direito internacional, Patrícia analisa que os recentes episódios envolvendo a Venezuela reacenderam debates centrais sobre soberania estatal, uso da força e legalidade das intervenções estrangeiras. “Ações unilaterais violam princípios fundamentais da Carta das Nações Unidas, especialmente a proibição do uso da força contra a integridade territorial de Estados soberanos”, explica.
Ela também chama atenção para o pano de fundo econômico dessas disputas. “A Venezuela detém uma das maiores reservas de petróleo do mundo e ocupa posição estratégica em um cenário global marcado pela disputa por fontes energéticas e minerais. A América Latina volta a ser tratada como território de influência, em uma lógica que remete à antiga Doutrina Monroe”, contextualiza.
Do global ao cotidiano local
As tensões entre Venezuela, Estados Unidos, China, Rússia e blocos econômicos como os BRICS revelam uma profunda reconfiguração da ordem mundial. Tarifas, sanções, disputas por recursos naturais e reposicionamentos geopolíticos moldam decisões tomadas em centros de poder globais, mas cujos efeitos chegam a cidades como Passo Fundo.
Em 2025, o município foi o quarto do Rio Grande do Sul que mais contratou migrantes, com saldo positivo de 440 vínculos formais, segundo o Caged, superando inclusive Porto Alegre. No comércio, a Comercial Zaffari se destaca, dos cerca de 8 mil colaboradores, aproximadamente 500 são estrangeiros, majoritariamente venezuelanos, inseridos em projetos de acolhimento, cultura, linguagem e integração.
No Estado, os números confirmam a tendência. Mais de 51 mil vínculos ativos, com crescimento superior a 20% em relação a 2024. Mais da metade dessas vagas está na indústria, e os venezuelanos representam 55% desse contingente.
Ao acolher migrantes, Passo Fundo se insere de forma concreta nas grandes questões contemporâneas: direitos humanos, mobilidade internacional, justiça social e integração. A crise venezuelana, portanto, não é apenas um tema distante dos noticiários internacionais. Ela está presente nas ruas, nos locais de trabalho, nas escolas e nas histórias de quem, longe de casa, reconstrói a vida em solo passo-fundense.


