Com sementes e mudas em mãos, um solo fértil e a vontade de transformar o território, uma horta agroflorestal comunitária nasceu aos fundos do Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM) no bairro Zachia. Vertente do projeto “Territórios da Agricultura”, promovido em diferentes regiões do país, desde junho Passo Fundo tem recebido ações de fomento à agricultura urbana, periurbana e rural. A movimentação resultou na exposição fotográfica que é realizada até o dia 22 de novembro na Biblioteca Central da Universidade de Passo Fundo (UPF), mostrando o diálogo e construção da horta comunitária nos últimos cinco meses.
Nascendo e desabrochando
Cultivado em uma base de mobilização social e na criação de ações que possam contribuir para o desenvolvimento da agricultura, o Territórios da Agricultura teve início com Jornadas Formativas, divididas em cinco encontros. Uma vez por mês, moradores do Zachia, estudantes, professores e funcionários da UPF, além de representantes da Prefeitura de Passo Fundo, se reuniram para articular possibilidades de intervenções no bairro. “Pensamos em abelhas, em um pomar, mas o resultado foi uma horta agroflorestal comunitária e que o melhor lugar seria no CRAM”, contou a representante da pró-reitoria acadêmica da UPF, Lísia Rodigheri Godinho, que acompanhou de perto as atividades.
Carregado do simbolismo desde o nascer ao desabrochar, a escolha da terra do Centro de Referência de Atendimento à Mulher vem ao encontro da desconstrução do estigma da mulher que sofre violência. “Queremos desmistificar a violência e trazer espaços de cuidado, de vida, para que as pessoas possam se aproximar e construir esse coletivo de enfrentamento também da violência na cidade”, refletiu Lísia.

Horta agroflorestal comunitária
Depois do estudo e troca de experiências acerca da produção de alimentos orgânicos, que reuniu cerca de 30 pessoas, foi a hora de colocar a mão na terra. Durante três mutirões, realizados no mês de setembro, mais de 20 voluntários fizeram o cercamento do local e construíram os canteiros, implantando mudas de verduras, legumes, plantas medicinais, além de árvores frutíferas e nativas. “A gente sabe que uma horta é um desafio, porque ela é um ser vivo e precisa de cuidados. Por isso pensamos na agro floresta, porque ela tem uma dinâmica de solo que a médio e a longo prazo é mais sustentável do que uma horta tradicional”, explicou Lísia Rodigheri.

Todo o trabalho foi construído de maneira colaborativa com a comunidade, que decidiu sobre o que fazer e onde fazer. “Ainda mantemos um grupo no WhatsApp e um dos líderes da comunidade nos disse: Bah, já estou com saudades de mexer na terra. Quando é que vamos de novo?”, contou o coordenador local do Territórios da Agricultura, Cassiano Cavalheiro Del Ré. Seu Arivaldo, coordenador da Ocupação 4 do bairro Zachia, relata o quão importante e bem recebida foi a instalação da horta. “É pelo bem do bairro Zachia, como muitas pessoas não tem condições de comprar uma saladinha, um tempero. E com o tempo, depois que estiver pronta essa horta, eles vão nos procurar aqui”, contou ele no documentário produzido sobre o projeto.
Formação pessoal
Apesar da produção de alimentos ser o benefício mais direto à comunidade no entorno do CRAM, o espaço tem a perspectiva de ir além, trazendo noções pedagógicas e informativas para a comunidade. “Essa proposta é um embrião, estamos utilizando essa iniciativa como um modelo para pensar um projeto mais amplo de hortas no município como um todo. E até para o próprio bairro, de como a gente constrói coletivamente soluções”, pontuou Lísia Rodigheri, elencando a possibilidade de intervenções das próprias escolas da comunidade no local. “Estamos cultivando a terra, mas também desenvolvendo outras habilidades, como um espaço formativo”.

Exposição fotográfica

Todo o projeto foi atravessado por uma perspectiva fotográfica, mostrando a realidade do bairro e toda a sua convivência. “A fotografia provoca as pessoas a olharem para o território, a olharem para si próprias e para o trabalho. Ela tem essa possibilidade, essa força de instigar e mostrar que é possível. Isso é fundamental”, explicou Cassiano Del Ré. A exposição “Territórios da Agricultura: Alimento saudável e transformação local” acontece desde o dia 4 de novembro, com registros de todas as atividades desenvolvidas e de maneira interativa traz poesias e perguntas que instigam o público a refletir sobre produção orgânica de alimentos.

Proposto pela Evoluir e a Holy Cow, instituições que trabalham a educação no território e o desenvolvimento sustentável, o Territórios da Agricultura é oriundo de recursos via incentivo fiscal e cultural junto ao Ministério do Turismo. Com patrocínio direto da Bayer, a Universidade de Passo Fundo (UPF) foi convidada para ser o parceiro local do projeto, que escolheu coletivamente o bairro Zachia como sede das atividades.



