OPINIÃO

O cachimbo de Bohr

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Aqueles que tiveram o privilégio de estudar metodologia científica com Karl Popper (1902-94) dizem que ele sempre começava o seu curso com uma frase que ficou muito conhecida: “Sou um professor de método científico, mas tenho um problema: NÃO EXISTE MÉTODO CIENTÍFICO.” Conseguido o intento da surpresa que a afirmação causava na audiência, prosseguia “entretanto, há algumas regras práticas que podem ser bastante úteis.” Eis como Popper, que virou um monstro sagrado, ainda que não livre de questionamentos, na filosofia da ciência, começava a abordagem do problema clássico da demarcação que nos possibilita distinguir ciência de pseudociência.

Karl Popper construiu a sua reputação na filosofia da ciência com a solução ou critério do falsificacionismo que se contrapunha ao ideal do conhecimento positivo, embasado no método, que ainda hoje é propalado, consciente ou inconscientemente, pelos seguidores de Auguste Comte (1798-1857). Um conhecimento seria rotulado de científico, para os positivistas, se verificável por meio da experiência, observações e experimentos. Do contrário, não. Era o princípio do verificacionismo, ao qual Popper se contrapôs.

A rejeição da lógica positivista por Karl Popper começou pela negação da indução como o método da ciência. Seguiu pela afirmação que ciência se distingue de outras atividades humanas não pelas características da atividade e sim pela ATITUDE de quem pratica. E, por fim, fixou a tese de que o objetivo da ciência não é provar teorias (isso é impossível) e sim rejeitá-las, por meio do principio do falsificacionismo.

Um cientista, quando atua isento de conflitos de interesse, não deve delinear experimentos ou buscar observações para confirmar a sua teoria. A obrigação é primar pela busca de dados que, se for o caso, permitam refutá-la. Não é por nada que a mais famosa coletânea de ensaios de Karl Popper é intitulada Conjecturas & Refutações e não Conjecturas & Confirmações.

Mas, a visão de Popper também foi objeto de críticas. Por ser individualista, ela não contemplou a ciência vista como empreendimento social e coletivo. Os cientistas, na atualidade, não trabalham isoladamente. Atuam em comunidades, consórcios, grupos de pesquisa, projetos, etc. Não dividem apenas teorias, mas também valores, crenças, preconceitos, etc., criando os chamados paradigmas, muitos desses quase sagrados, com os quais lidam no dia a dia. E, lutando contra Popper, durante os períodos de normalidade e conveniências acadêmicas, os cientistas, em geral, não buscam a refutação de teorias. Isso só acontece quando essa dita ciência normal entra em crise, na clássica visão de Thomas Kuhn (1922-96), sobrevindo as revoluções científicas.

De discípulo a critico ferrenho de Popper, Paul Feyerabend (1924-94), o relativista de Contra o Método (1975), rejeitou qualquer tentativa de definir ou prescrever o método científico; incluindo o falsificacionismo de Popper, que, segundo ele, pode ser falsificável por vários fatos históricos. Não há um método para a ciência, mas uma diversidade de métodos.

Paul Feyerabend na sua autobiografia, Matando o tempo, publicada postumamente, relata como conheceu Niels Bohr (1885-1962), na Dinamarca, no começo dos anos 1950, em um seminário em Askov. Bohr sentou-se, acendeu seu cachimbo e começou a falar. Enquanto discorria sobre a descoberta de que a raiz quadrada de dois não pode ser um número inteiro e nem uma fração, acendia seguidamente o cachimbo até formar-se uma pilha de palitos de fósforo à sua frente. Esse era o princípio que norteara a transição da mecânica clássica para a mecânica quântica. Encerrada a conferência, Feyerabend aproximou-se de Bohr e pediu alguns detalhes. “Você não entendeu?” “É realmente uma pena. Nunca me expressei tão claramente antes.” O consolo de Feyerabend é que soube que Niels Bohr sempre dizia isso para qualquer pergunta que recebia. E que a conferência fora em dinamarquês; o que era irrelevante, pois Bohr, para muitos, era incompreensível em qualquer língua. Você, prezado leitor, entendeu o que É e o que NÃO É ciência? Ou ainda avaliza astrologia, criacionismo e cura quântica?

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