OPINIÃO

M. V. Llosa & J. L. Borges

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Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura 2010, e Jorge Luis Borges, sempre candidato, mas que nunca recebeu o Nobel, são partes do seleto grupo de escritores latino-americanos que ganhou notoriedade mundial a partir dos anos 1960. Mas, apesar disso, têm estilos de vida e de obras muito diferentes. Enquanto Vargas Llosa, mesmo que se declare admirador de Borges, consagrou-se como romancista fascinado pela politica, história, mundo real e como apreciador de um estilo de vida luxuoso; Borges notabilizou-se pela concisão e prosa perfeita em ensaios, contos e poemas e pela adesão ao gênero da literatura fantástica e a preferência por temas abstratos, além da discrição no modo de vida.

Vargas Llosa recebeu o Nobel de Literatura, indiscutivelmente, pela qualidade da sua obra; e Borges não ganhou por falta de méritos do que escreveu, mas, dizem, pelas opiniões políticas desastradas, ao ter flertado e simpatizado com as ditaduras militares que tomaram conta da América Latina nos anos 1970. Ou, como ironicamente ele costumava responder, quando lhe perguntavam por que os acadêmicos suecos não lhe haviam concedido o Prêmio Nobel? “Porque esses cavalheiros compartem comigo o juízo que tenho sobre a minha obra”.

Em 2020, Mario Vargas Llosa publicou o livro “Medio siglo con Borges”. Uma coletânea de entrevistas, artigos e notas das conferências que proferiu sobre a obra do escritor argentino. Eu apreciei as duas entrevistas que Vargas Llosa realizou com Borges. A primeira em Paris, em novembro de 1963, quando o escritor, acompanhado de María Esther Vásquez, fazia um giro pela Europa. E a segunda, em Buenos Aires, em junho de 1981. Essa última, em especial, lança luzes sobre a origem de um mal-estar gerado entre os dois escritores, que, contada por um dos protagonistas (Vargas Llosa), soa mais fidedigna do que as versões que vieram a público por terceiros.

Alberto Manguel, que faz parte do grupo daqueles que, um dia, tiveram o privilégio de ler para Borges, relata no livro “Con Borges”, de 2004, que, quando jovem, Mario Vargas Llosa visitou Borges, em meados dos anos 1950, e fez uma observação sobre o ambiente de mobília simples e perguntou por que o mestre não morava num lugar mais grandioso, mais luxuoso. Borges se ofendeu imensamente com a observação e teria respondido para o indiscreto peruano: “talvez as coisas sejam assim em Lima, mas aqui em Buenos Aires não gostamos de ostentar”.

A primeira correção no relato de Manguel é que essa passagem não aconteceu nos anos 1950 e sim em 1981. E a segunda é que o diálogo não foi bem como relatado por ele. Parecido. Mas, sim, é verdade, Borges se chateou com Vargas Llosa por causa desse episódio.  

Encarregado de entrevistar Jorge Luis Borges para vários veículos de comunicação, Vargas Llosa foi recebido, em junho de 1981, no apartamento de dois dormitórios, no centro de Buenos Aires, onde o escritor vivia acompanhado de Fanny (Epifanía Uveda de Robledo) e de um gato branco, que se chamava Beppo (alusão ao gato/poema de Lord Byron). Ao se deparar com móveis antigos, gastos pelo uso, poucos livros, paredes escuras, manchas de vazamentos e até goteiras sobre a mesa da sala, Vargas Llosa resolveu perguntar a Borges por que tanto desprendimento material, tamanha austeridade, que o quarto dele mais parecia cela de um monge trapista e outras observações do gênero. A resposta que recebeu foi essa: “o luxo me parece uma vulgaridade”. Insistiu, perguntando que significa o dinheiro para você? Nunca lhe interessou o dinheiro? Nunca trabalhou para ganhar dinheiro? Às quais Borges teria respondido: “a possibilidade de livros e viagens”. E “sim, mas parece que não consegui”.

Na verdade, Borges tirou onda com Vargas Llosa. Quando morreu em 1986, o espólio mostrou contas no Banco Galicia, no Chase Manhattan e em banco suíço que avultavam milhares de dólares, francos franceses e pesetas. E sem contar as condecorações e libras de ouro e os polpudos direitos autorais que recebia pela sua obra no mundo todo (conforme relatos de Juan Gasparini, no livro “Borges: la posesión póstuma”, 2000).

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