OPINIÃO

As memórias de Anildo Sarturi (1921-2022)

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Livros de memórias, ainda que muito apreciados pelos historiadores de tradição positivista, devem ser lidos com a cautela devida e o distanciamento seguro. Nesse tipo de obra, e não se poderia esperar algo muito diferente, em geral, prevalece a versão de quem escreve, podendo, como é comum acontecer, haver outra interpretação, que, inclusive, pode ser diametralmente oposta, para um mesmo fato. E isso, sem considerar que, quase sempre, a emotividade do autor se sobrepõe à razão, até porque, na grande maioria, não se tratam de obras historiográficas de cunho acadêmico hermético e sim de narrativas pessoais de determinados acontecimentos que são vividos, sentidos e como tal percebidos por alguém. Mas, não obstante essas particularidades, obras memorialísticas são fundamentais para o melhor entendimento da história.

Eu sou leitor contumaz de livros de memórias, especialmente quando o autor ou o assunto, preferencialmente ambos, me interessam. E esse foi o caso do livro “Passo Fundo – Memórias”, do médico e político Anildo Sarturi, que, por mero acaso, na véspera do Natal de 2013, encontrei exposto na vitrine de uma livraria em Passo Fundo. Em geral esse tipo de livro, cujo copyright é de 2008, em impressão pela Gráfica Gold Print Ltda., habitualmente, não ganha espaço privilegiado nas vitrines de livrarias, por isso reitero o “por mero acaso”, além de que tampouco eu estava buscando ou sabia da existência desse livro. O nome do autor despertou a minha atenção, pois lembrei que fazia parte da relação dos membros da Academia Passo-Fundense de Letras (na época ainda Grêmio Passo-Fundense de Letras) dos anos 1950, e quanto ao assunto, Passo Fundo, é desnecessário qualquer explicação. Foi assim que, no intervalo entre o Natal de 2013 e a virada de ano novo, me detive na leitura das 380 páginas de narração das memórias de Anildo Sarturi, que surpreendem pela boa escrita e, a não ser pelos acontecimentos muito particulares, de interesse exclusivo do autor e seus familiares, prendem a atenção dos leitores, especialmente quando trata das disputas pessoais na política passo-fundense e dos desdobramentos que sobrevieram ao golpe militar de 1964.

Anildo Sarturi não era natural de Passo Fundo. E isso talvez explique parte dos reveses que sofreu na cena política local. Nasceu em Tapera, formou-se em medicina, pela atual UFRGS, no final dos anos 1940. E, após quatro anos trabalhando em Sertão, como diretor do Hospital São José, estabeleceu-se em Passo Fundo, em 1952, com a intenção de montar a sua clínica e especializar-se em cirurgia geral, em meio a 38 outros profissionais da área médica que, na ocasião, atuavam na cidade. Era solteiro e passou a morar no Hotel Avenida. De pronto, juntou-se à equipe do Dr. Alberto Lago, que, conforme o qualifica Anildo Sarturi, “tinha obsessão pelo bisturi”, transformando-se totalmente quando na sala de cirurgia, e do anestesista Dr. Tobias Weinstein. O Dr. Alberto Lago era considerado, em cirurgia, o “primeiro rival” do Dr. Sabino Arias. Segundo Anildo Sarturi, o Dr. Lago e o Dr. Sabino Arias, ambos conceituados cirurgiões da época, competiam para ver quem fazia mais cirurgias semanalmente. Anunciavam nos jornais e nas rádios locais os nomes dos pacientes e o tipo de cirurgia que haviam sido submetidos, e cada um, a seu modo e com a sua torcida, vibrava nos cafés da cidade, quando um superava o outro em quantidade de cirurgias realizadas. Na visão de Anildo Sarturi frise-se, ainda que se respeitassem mutuamente, o Dr. Lago demonstrava certo ciúme do Dr. Sabino Arias, que havia sido trazido de Ernestina para Passo Fundo, por indicação do Dr. Vergueiro, e sobre quem se dizia que havia nascido no Egito, sendo judeu ou árabe, portanto não era católico, mas mesmo assim gozava do beneplácito do bispo Dom Cláudio Colling, que o manteve como diretor médico do Hospital São Vicente de Paulo durante todo tempo que trabalhou como médico em Passo Fundo. A ambição do Dr. Lago, insiste Anildo Sarturi, era ser nomeado diretor médico do Hospital São Vicente de Paulo, sentindo-se, de certa forma, traído pelo Sr. bispo, que o preteria em favor do Dr. Sabino Arias, que era o médico pessoal de Dom Cláudio Colling. Em função disso, aos poucos, o Dr. Lago passou a concentrar a sua atuação médica no Hospital da Caridade, atual Hospital de Clínicas de Passo Fundo.

Nos 35 anos que viveu em Passo Fundo, entre 1952 e 1987, Anildo Sarturi foi protagonista de elite na área médica e na política passo-fundenses. As suas memórias, expressas no livro “Passo Fundo – Memórias”, são reveladoras quanto a isso, servindo, sobremaneira, para o melhor entendimento de uma cidade e uma época que, hoje, para o bem ou para o mal, não existem mais, ainda que se façam presentes, estigmatizados no dia a dia, muitos desses resquícios do passado.

Anildo Sarturi forjou as suas convicções políticas como militante da Juventude Universitária Católica (JUC), em Porto Alegre, nos anos 1940. Médico recém-formado em Sertão, na época distrito de Passo Fundo, filiou-se no PSD. Depois, desiludido com esse partido, aderiu ao PSP, de Ademar de Barros, pelo qual se elegeu suplente de vereador, em 1952. De qualquer forma, Anildo Sarturi também não se sentia confortável no PSP de Ademar de Barros, que era conhecido pela alcunha de “rouba, mas faz”. Católico fervoroso que era, tendo sido, inclusive, por convite do padre Jacob Stein, um dos oradores da consagração do bispo Dom Cláudio Colling, em 1950, sentia-se atraído pelo Partido Democrata Cristão, que se encontrava em formação no Estado. Foi então que, instigado pelo jornalista Carlos de Danilo Quadros, abraçou a causa do PDC, tendo participado da fundação de diretórios em 21 municípios da região.

Na política local, Anildo Sarturi teve êxitos e, paralelamente, acumulou frustrações. Elegeu-se vereador, os candidatos à vereança apoiados por ele foram eleitos, caso de Juarez Diehl e da própria mulher, Linda Degrazia Sarturi, mas não obteve o sucesso que esperava nas suas candidaturas a deputado. Ainda no PDC, Anildo Sarturi, no pleito de 1963, contava como certa a eleição para deputado estadual. A candidatura, de última hora, do também médico Helio Rosa, pelo PDC de Carazinho, atrapalhou as suas pretensões. Mas, traição mesmo, Anildo Sarturi entende que sofreu de parte de Dom Cláudio Colling, que, segundo ele, “por espírito ardiloso, traiçoeiro, não sei se dos dois”, nos áureos tempos da Liga Eleitoral Católica (LEC) não incluiu o seu nome na lista aprovada pela Diocese de Passo Fundo. Foi uma decepção para o católico praticante Anildo Sarturi, pois era pela lista da LEC que os padres indicavam aos fieis os candidatos preferenciais nas eleições. Amargou uma segunda suplência, mas acabaria, em 1964, assumindo como deputado estadual pelo PDC, por um período de pouco mais de um ano. Nessa temporada em Porto Alegre, pela parte da manhã, começou uma especialização em psiquiatria, no pavilhão Melanie Klein, junto ao Hospital Psiquiátrico São Pedro. Com a volta a Passo Fundo, não terminou o curso, virando, segundo se auto intitulava, uma espécie de “psiquiatra amador”, que, credenciado na especialidade pelo INPS, introduziu o uso de eletrochoques no tratamento de doenças psicóticas na cidade. Essa experiência lhe habilitou para assumir a cadeira de Psiquiatria quando da criação da Faculdade de Medicina da UPF.

A partir do golpe militar de 1964 e o advento do ato institucional que baniu os partidos político no País, instalando o bipartidarismo, com a ARENA e o MDB, Anildo Sarturi aderiu, como seria esperável, à ARENA. E foi pela ARENA que, conforme explicita nas suas memórias, sofreu as derradeiras traições políticas locais. A primeira, por Fidêncio Franciosi, que, como presidente da agremiação, entregou a sigla aos egressos do PTB/MTR, caso de Romeu Martinelli e Augusto Trein, alijando-o da política passo-fundense. E, a segunda, pelo tenente-coronel Edu Villa de Azambuja, de cuja candidatura a prefeito foi um dos artífices, que inicialmente o preteriu como candidato a vice-prefeito, em favor de Juarez Zilio, e, depois se alinhou com os seus inimigos políticos.

Em Passo Fundo, de 1952 até 1987, Anildo Sarturi formou uma clínica médica respeitável e construiu uma base política que desmoronou, na sua visão, pelas traições que sofreu. O epilogo da sua vivência local foi o assalto no seu consultório médico no dia 1º de dezembro de 1987. Deixou a cidade de vez, para viver junto da família, que já estava em Porto Alegre.

Anildo Sarturi trabalhou, atendendo pacientes no seu consultório particular, até os 98 anos de idade. Veio a falecer, aos 101 anos, no dia 2 de setembro de 2022, em Porto Alegre. Requiescat in pace Dr. Sarturi!


Post Scriptum: coluna originalmente publicada nas edições de O NACIONAL de 14 e 21 de março de 2014.


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