OPINIÃO

O “novo normal” do clima

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As chuvas que, copiosamente, caíram sobre o Rio Grande do Sul, entre o final de abril e o começo de maio de 2024, deixando um rastro de destruição sem precedentes na nossa história, têm suscitado as mais variadas indagações. Afinal, qual foi a causa de tanta chuva em período de tempo tão curto? Foi um evento extremo do grupo das excepcionalidades climáticas que, talvez, a geração atual não presenciará novamente? Foi El Niño? É um sinal da mudança do clima global em ação? Que podemos fazer, caso esse seja o “novo normal” do clima no Rio Grande do Sul?

Iniciamos destacando que, de fato, a enchente de 2024, no Rio Grande do Sul, foi um evento sem precedentes, especialmente, no que diz respeito aos impactos que causou. Não importa a escala de tempo que se analise quantidade de chuva acumulada, seja em 4 dias (29 de abril a 2 de maio) ou 10 dias (26 de abril a 5 de maio), como fez um grupo de pesquisadores do Imperial College de Londres (Clarke, B. C. et al., 2024. Climate change, El Niño and infrastructure failures behind massive floods in southern Brazil. Grantham Institute, Imperial College London, Reino Unido. 56 p.), essas quantidades de chuva podem pode ser consideradas extremamente raras na série histórica do nosso clima atual, com períodos de retorno estimados de 100 a 250 anos.

O fenômeno El Niño Oscilação Sul (ENOS), ativo na sua fase quente (El Niño), em 2024, é importante para explicar a variabilidade das chuvas observadas. Chuvas intensas no outono ocorreram em eventos El Niño prévios, como são exemplos 1941 e 1983. O El Niño, segundo o estudo de Clarke et al. (2024), referido no parágrafo anterior, pode aumentar de 2 a 3 vezes a probabilidade e de 4 a 8% a intensidade das chuvas, na escala decendial (10 dias), e 2 a 5 vezes a probabilidade e de 3 a 10% na intensidade dessas chuvas, quando os eventos são computados na escala temporal de 4 dias.

As chuvas no sul do Brasil, reconhecidamente, são influenciadas por padrões de oscilação em escalas estacional, interanual (El Niño Oscilação Sul), decadal e secular (mudança do clima). Nossa posição geográfica configura que, no Rio Grande do Sul, predomine uma condição de clima subtropical, que na prática se traduz em uma zona de transição entre os climas tropical e temperado típicos. Uma região que é continuamente abastecida por umidade que tem origem tanto no Oceano Atlântico como na Amazônia.

Os eventos extremos de chuva, no Sul do Brasil e como de resto em todo o Sudeste da América do Sul, são impactados pelo ENOS. O El Niño, fase quente do ENOS, costuma estar, quase sempre, em fase com a configuração de um centro de alta pressão persistente na costa leste da América do Sul. O centro de alta pressão do Atlântico Sul normalmente se movimenta para oeste sobre o Brasil Central durante o outono/inverno (e para leste sobre o Atlântico Sul durante a primavera/verão). Nesse ano, o centro de alta pressão do Atlântico e sobre o Brasil Central se configurou maior e mais forte, intensificando os Jatos de Baixos Níveis da América do Sul (JBNAS) que, no seu deslocamento para oeste, ao encontrarem a barreira dos Andes, giram para o sul-sudeste e carregam umidade da Amazônia para o Sudeste da América do Sul, aumentando as chuvas nessa região. A temperatura do Atlântico anomalamente quente em 2024 intensificou o fluxo de umidade para os JBNAS. Ao mesmo tempo, sistemas frontais com origem em latitudes maiores, que costumam ser mais frequentes no outono-inverno, foram bloqueados pelo centro de alta pressão no centro do Brasil e, pela proximidade da corrente de jato, tiveram sua instabilidade aumentada, dando causa às chuvas extremas que assolaram o Rio Grande do Sul, em abril/maio de 2024, repetindo situação que costuma, frequentemente, acontecer, no outono-inverno, em anos de El Niño.

Ainda que consistentes com o padrão das teleconexões ENOS, as chuvas intensas que assolaram o Rio Grande do Sul, tanto em 2023 quanto em 2024, podem, sim, estar associadas com a mudança do clima global. Há indícios, fortes, de que um dos impactos da mudança do clima global seria o aumento na frequência e na intensidade dos eventos climáticos extremos. Portanto, no sul do Brasil, conforme apontam vários estudos, corroborados pelo IPCC, não seria de todo desarrazoado esperar que eventos extremos, ao estilo de 2024, se tornem mais frequentes e mais intensos. A título de exemplo apenas, em 1941, foram 22 dias até que o nível do Guaíba atingiu a marca, histórica, de 4,76 m acima do normal. E, em 2024, em apenas 5 dias, o mesmo Guaíba chegou a 5 m. Em ambos, superando o nível de 3 m, considerado suficiente para alagar a cidade de Porto Alegre.

Se uma nova ordem climática ora está posta, que podemos fazer? Um bom começo pode ser dar menos voz aos negacionistas da mudança do clima global, saber dimensionar as vulnerabilidades e trabalhar em prol da construção da capacidade para se lidar com riscos climáticos, seja no meio urbano ou rural, a partir das lições deixadas pelas cheias de 2024. Ainda que alertas tivessem sido disponibilizados com quase uma semana de antecedência, nem todos tiveram a capacidade para entender a gravidade da situação ou sabiam quais ações poderiam ter sido tomadas, seja para atenuar prejuízos materiais ou, até mesmo, salvar vidas.

SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura

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