Mario Vargas Llosa morreu no último domingo, 13 de abril de 2025, aos 89 anos, em sua casa, na cidade de Lima, capital do Peru. Desde o seu passamento, têm sido muitas as manifestações públicas sobre o laureado escritor peruano e sua obra. Amigos, pessoas próximas dele, leitores que admiravam e admiram a sua obra e até adversários no campo do pensamento políticos são unânimes ao reconhecerem que Vargas Llosa, seja pela atuação jornalística, como professor ditando cátedras de literatura em renomadas universidades norte-americanas e europeias, pelos incontáveis artigos de opinião que assinou em jornais de diversos países, pelos prêmios literários que amealhou (Cervantes, Príncipe de Astúrias, PEN/Nabokov, Grinzane Cavour e Nobel de Literatura), por ter sido eleito membro da Académie Française e, acima de tudo, pelos ensaios e romances que escreveu, foi um dos gigantes da literatura mundial. Dom Mario vai fazer falta.
Vargas Llosa é autor de clássicos da literatura mundial. Entre tantos, vou destacar A cidade e os cachorros, 1963, cujas primeiras edições, em português, receberam o título de Batismo de fogo; Conversa no Catedral,1969, que é considerada uma obra modelar na construção de diálogos; Tia Julia e o escrevinhador, 1977, autobiográfico, sobre o seus casamento com Julia Urquidi, a Tia Julia; A guerra do fim do mundo,1981, alusiva a Canudos, sobre a qual, há quem pense que Euclides da Cunha escreveu a obra mais famosa, Os Sertões, 1902, mas foi Mario quem produziu a melhor ou pelo menos a de leitura mais fácil e agradável; Travessuras da menina má, 2003, uma história de paixão, encontros e desencontros, que faz lembrar Madame Bovary; até o seu último romance, Dedico a você meu silêncio, publicado em 2023.
No Rio Grande do Sul, mais especificamente em Porto Alegre, Vargas Llosa, que eu saiba, esteve presente em três ocasiões. A primeira foi em 1985, quando, no dia 28 de março daquele ano, foi conferencista na 8ª edição do Fórum da Liberdade. Voltaria em 2010, no dia 14 de outubro, como estrela do projeto cultural Fronteiras do Pensamento. No dia seguinte, ainda na capital dos gaúchos, soube que Academia Sueca havia lhe concedido o Prêmio Nobel de Literatura 2010. E, novamente, no Fronteiras do Pensamento, se fez presente, em 11 de maio de 2016, para falar sobre cultura, literatura e liberdade. Lamenta-se que não tenha vindo a Passo Fundo participar das nossas saudosas jornadas literárias.
Jaime Bayly, escritor e jornalista peruano radicado em Miami, que foi amigo dos Vargas Llosas, tendo convivido com os filhos de Mario, Álvaro, Gonzalo e Morgana, especialmente com Álvaro, de quem se tornaria desafeto (ex-amigo, prefere ele), em recente fala no seu Canal do YouTube, após a morte do escritor, a par de reconhecer a genialidade de Mario, destacou três episódios em que se sobressaiu a vaidade de Dom Mario.
O primeiro foi o que romperia, ad aeternum, a relação entre Mario e Gabo, acontecido na Cidade do México, em 12 de fevereiro de 1976, em um cinema, numa sessão especial, para convidados, do documentário “Odisea en los Andes” (relato da queda do avião uruguaio nos Andes, em 1972, que obrigou os sobreviventes a comerem carne humana), com roteiro assinado por Vargas Llosa. García Márquez, ao avistar o amigo de longa data, foi ao seu encontro, de braços abertos, bradando “¡Hermano! ¡Hermanazo! (Irmão! Grande irmão!)”, todavia, em vez do efusivo abraço esperado, foi recebido com um soco cruzado de direita, que, acertando-o no nariz e no olho esquerdo, o nocauteou. Ao ser questionado sobre o que havia feito, Mario, ainda furioso, deixou o local, gritando “¡Es por lo que le hizo a Patricia! (É por causa do que ele fez com Patrícia!)”. Esse tema é tratado por Bayly no romance Los gênios, publicado em 2023. Ninguém sabe o que houve entre Gabo e Patricia. Mario e Gabo, em pacto tácito, levaram esse segredo para o túmulo. Bayly entende que a vaidade ferida de Dom Mario deu azo à agressão ao amigo e compadre García Márquez.
O segundo episódio de vaidade explicita de Dom Mario seria a entrada na política, ao se candidatar à presidência do Peru, em 1990, abraçando pautas conservadoras. Perdeu a eleição, em segundo turno, para Alberto Fujimori. E, segundo Bayly, foi graças ter perdido essa eleição, que Mario ganharia o Prêmio Nobel de Literatura, 20 anos depois. A politica peruana, ao passarem atuar em trincheiras opostas, apesar de ter apoiado a candidatura de Mario, afastaria Bayly dos Vargas Llosas.
Por último, Mario Vargas Llosa, depois do famoso discurso, na cerimônia que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, em 2010, com juras de amor a Patricia, e terem celebrado juntos, em Nova York, 50 anos de casados, em 2015, se separaria dela, para viver uma nova paixão com Isabel Preysler, a famosa socialite conhecida como “la reina de corazones” (a rainha dos corações) ou “la reina del papel couché” (a rainha do papel couché), fazendo a alegria das revistas de celebridades. Mais um exemplo da exacerbada vaidade de Dom Mario que aflorou nas inúmeras capas da Revista ¡Hola!, nas quais ele e Isabel apareceram juntos.
Depois de sete anos, a relação entre Mario e Isabel acabou. E, repetindo idas e vindas do passado, Mario e Patricia reconciliaram-se e há indícios que ele viveu junto dela os seus últimos anos.
Deixando de lado as vaidades de Dom Mario e algumas ideias políticas pouco defensáveis, Mario Vargas Llosa foi um gênio da literatura mundial e como tal merece ser reconhecido.
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