De Jorge Luis Borges (1899 - 1986), são conhecidas duas autobiografias e muitas biografias. Uma biografia nada mais é que a história da vida de uma pessoa, em geral, escrita por outra pessoa, que, como o próprio Borges destacou, quando escreveu, em 1930, um ensaio biográfico sobre Evaristo Carriego, cuja intenção é despertar, em outros indivíduos (os leitores), recordações que pertencem a um terceiro indivíduo (o biografado). E uma autobiografia, gênero que, para muitos, teria sido inaugurado por “As Confissões”, de Santo Agostinho, por volta do ano 397/398, ao rememorar os pecados que cometeu até a sua conversão ao mundo da fé, e, como tal, por analogia com a definição de biografia, seria a história da vida de uma pessoa escrita por ela mesma.
A primeira AUTOBIOGRAFIA de Borges, abrangendo o período 1899 a 1970, é o ensaio autobiográfico, originalmente publicado em inglês, em setembro de 1970, na revista The New Yorker. A intenção dos editores de Borges nos EUA foi apresentar melhor o escritor argentino aos americanos por intermédio de uma publicação de grande prestígio intelectual. Esse ensaio, escrito em colaboração com o tradutor Norman Thomas di Giovanni, seria incluído, ainda em 1970, como introdução à edição americana do livro “The Aleph and Other Stories”. Na sequência, ganharia tradução para o português, italiano, alemão e outras línguas, sendo que, a versão em espanhol, somente sairia nas comemorações do centenário do nascimento de Borges, em 1999, pelas Edições El Ateneo.
O ensaio autobiográfico de Borges nada mais é que um retrato intelectual e moral que Jorge Luis Borges fez da própria vida. Está dividido em cinco partes – Família e infância, Europa, Buenos Aires, Maturidade e Anos de plenitude –, tratando, sempre com a sua peculiar concisão, de prestar tributos aos antepassados e destacar a influência da biblioteca do pai na sua formação intelectual; de reconhecer o período que passaram na Europa, 1914 a 1921, os estudos em Genebra e a vivencia com o mundo intelectual na Espanha; o regresso a Buenos Aires, agora vista com um novo olhar, escrevendo o seu inspirado livro de poemas “Fervor de Buenos Aires” e , além de outros dois livros de poemas, mais 3 livros de ensaios que, mais tarde, abominaria, excluindo-os das suas obras completas; a fase da maturidade, anos 1930 e 1940, indubitavelmente, é quando Borges escreveria as suas melhores obras, que o alçariam à fama global de escritor icônico, após os anos 1960, possibilitando-o viver, até a sua morte, em 1986, o que, na ocasião, chamou de anos de plenitude.
Norman Thomas di Givanni foi colaborador de Borges nas traduções das suas obras para a língua inglesa, de 1967 a 1972, e peça fundamental no ensaio autobiográfico publicado na revista The New Yorker. Inclusive, sobre ele, Borges, mais tarde, destilaria a sua ironia ferina, afirmando “Estoy seguro de que las traducciones (al inglés) que hizo Norman Thomas di Givanni son mejores que el original. Él está seguro también”.
A segunda AUTOBIOGRAFIA de Borges é a que está posta no epílogo das suas Obras Completas, publicada pela Emecé Editores, em 1974. Uma espécie de (auto)biografia apócrifa, escrita na terceira pessoa, em que, mais uma vez, se sobressai a ironia borgiana, ao frisar que seria publicada no ano de 2074, na Enciclopedia Sudamericana, em Santiago, no Chile. Um resumo da sua vida, mas que exige certa atenção do leitor menos familiarizado com Borges, pois, deliberadamente, falseia informações, como o próprio nome, optando por fechar as suas obras completas com o nome de José Francisco Isidoro Borges, um antepassado seu, tal qual havia feito, no início de carreira, em 1920, no poema que publicou na revista Grecia, de Sevilla, Espanha. E deixa a dúvida sobre a conclusão do seu bacharelado (equivalente ao nosso ensino médio) em Genebra, que, segundo ele, os críticos seguem pesquisando, não obstante ter ditado classes nas universidades de Buenos Aires, Texas e Harvard.
As biografias sobre Borges contam-se às dezenas. E a cada ano surgem novas. As mais populares são as escritas por pessoas que conviveram com ele ou por biógrafos profissionais ou fãs da sua obra. A exemplo dos livros publicados por Alicia Jurado, “Genio y Figura de Jorge Luis Borges” (1964); Emir Rodriguez Monegal, “Jorge Luis Borges: A Literary Biography” (1978); Estela Canto, “Borges a Contraluz” (1989); María Esther Vázquez, “Borges, Esplendor y Derrota” (1996); Edwin Williamson, “Borges, uma vida” (2011); Alejandro Vaccaro, “Borges, una biografia en imágenes” (2005); e Alejandro Vaccaro, “Borges, vida y literatura” (2023). Entre muitos outros.
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