OPINIÃO

De Roger Moreira a Yuval Harari, os inúteis

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Quase quatro décadas depois de Roger Moreira e a banda de rock Ultraje a Rigor, com a música “Inútil”, terem popularizado o refrão “inútil/ a gente somos inútil”, foi a vez de o historiado israelense Yuval Harari vaticinar o surgimento de uma nova classe de seres humanos, “os inúteis”.

A música “Inútil”, originalmente gravada em 1983, tornou-se conhecida em 1985, quando saiu o primeiro álbum do grupo Ultraje a Rigor, “Nós Vamos Invadir Sua Praia”. E ainda que a letra tenha virado um hino dos jovens que, na época, abraçaram a campanha das “Diretas Já”, pela frase “a gente não sabemos escolher presidente”, o próprio Roger, tempos depois, se encarregaria, por meio de atitudes e manifestações públicas, de esclarecer que a intenção nunca foi de reinvindicação política, mas, apenas, retratar o brasileiro como visto pelos estrangeiros, pois, afinal, se “A gente não sabemos escolher presidente/ A gente não sabemos tomar conta da gente/ A gente não sabemos nem escovar os dente/ Tem gringo pensando que nóis é indigente”. Logo: “Inútil/ A gente somos inútil”.

Em 2018, seria a vez de Yuval Harari, em artigo sobre o significado da vida em um mundo sem trabalho, publicado no jornal inglês The Guardian, alertar que, nos próximos 30 anos, diante da crescente onda de substituição de pessoas pela chamada Inteligência Artificial (IA), o mundo veria o surgimento de uma nova classe de seres humanos, OS INÚTEIS, formada por indivíduos que não serão mais empregáveis. Em vez de “pessoas não empregadas”, as estatísticas contabilizarão “pessoas não empregáveis”. Eis a mudança no mundo do trabalho, ora em andamento, que pode levar menos tempo para acontecer do que os 30 anos sugeridos por Harari. E então, que podemos/devemos fazer? Será mesmo que estamos seguros e isso não é problema nosso, mas da próxima geração? A agricultura brasileira também faz parte dessa bolha?

A 3ª Jornada Técnica RTC, realizada em Gramado, RS, de 28 a 30 de maio de 2025, trouxe para debate o tema desse “futuro digital” que, queiramos ou não, chegou no campo. Indiscutível o papel que a Inteligência Artificial (IA) pode desempenhar na melhoria da qualidade intelectual das decisões que são tomadas, em todos os níveis, no processo de gestão de um empreendimento rural. O principal questionamento posto, ao estilo “coach”, é “como” fugir do deslumbramento ingênuo e, efetivamente, pelo uso de ferramentas de IA, tomar decisões melhores? A plataforma SmartCoop, que, desde 2019, vem sendo gestada pela Rede Técnica Cooperativa - RTC, por meio de um processo em cocriação que envolve 30 cooperativas agropecuárias do Rio Grande do Sul, ligadas ao sistema FecoAgro/RS, ao se apresentar como um grande ecossistema de tecnologia, incluindo IA, e, uma vez voltada, acima de tudo, à gestão de empreendimentos rurais, intenta dar esse tipo de resposta.

Inquestionavelmente, apesar da nossa “paixão pela ignorância”, vivemos, mesmo sem perceber (você consegue distinguir se está conversando com um humano ou com um chatbot disfarçado de humano, quando liga para alguma empresa prestadora de serviços?), imersos na nova era da Economia da Inteligência Artificial. O risco é de, em vez de aproveitarmos a janela de oportunidades que, como nunca antes, se descortina à nossa frente, sucumbirmos à tirania dos algoritmos, deixando de lado imperativos morais e, mais que buscar o consenso, darmos voz ao dissenso que ora grassa no mundo.

Entenda-se que, apesar da ansiedade, que costuma afetar todos nós, diante do novo, as “Deep Techs”, muito embasadas em IA, são a aposta do momento para a geração de inovação de valor em áreas de elevada complexidade e de risco. Que poderia sair ou já saiu desse novo mundo? Que tal pensar em consumir carne cultivada a partir de células troncos e não mais de animais criados para o abate? Apraz tomar um copo de suco feito de uma única fruta que, na verdade, é um coquetel que pode combinar aromas e sabores de várias espécies? E a visão do novo “chão de fábrica”, trabalhando no conceito dark factory, onde, em vez de robôs tradicionais comandados por humanos, humanoides com autonomia conferida por IA executam tarefas até então exclusivas de seres humanos?

Em pouco tempo, o mundo que conhecemos, se resistir à divisão que a humanidade, por intermédio de alguns que se julgam “os senhores do mundo”, insiste em infringir a si mesma, não mais será o mesmo. Ou adquirimos letramento em IA ou, desta feita, poderemos cantar conscientes, sem qualquer dúvida quanto a intenção original da letra da canção escrita pelo Roger Moreira, daquilo que, efetivamente, vamos nos tornar: “Inútil/ A gente somos inútil”.

SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura

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