Na histórica relação entre EUA e Brasil, nunca se esteve em um cenário iminente de ruptura, uma vez que ela sempre esteve muito bem assentada, em que pese as mudanças de governos. Na coluna da semana passada, alertamos para a queda da política externa e o desprestígio diplomático jamais vistos no Brasil, embalados pela mente “sul-globalista” de Celso Amorim. Lula, desde que Trump assumiu, não fez qualquer esforço para uma relação, mesmo que pragmática. Não houve nomeação de embaixador, assim como os EUA, que designaram ao Brasil apenas um encarregado. Tudo já começou muito desgastado, com Lula e Amorim abraçando ditadores, recebendo navios iranianos ou até mesmo na derradeira observação de Lula na recente e esvaziada cúpula dos BRICS, com forte crítica ao dólar. A Casa Branca chegou a informar que Trump estaria atento à cúpula que ocorria no Rio de Janeiro. Não demorou para que viesse uma carta ao Brasil, anunciando 50% de tarifas aos produtos brasileiros, bem como a abertura de investigação pela Seção 301 do Tratado de Comércio americano de 1974, que permite a abertura de investigação em práticas duvidosas no tocante às relações comerciais entre os países (e talvez esse seja o ponto mais importante da carta).
Carta
A carta adotou um tom mais político do que técnico e comercial, uma vez que o Brasil é quem mantém déficit comercial com os EUA, e não o contrário. Denota-se uma relativa impaciência para além das questões comerciais, uma vez que, por exemplo, um juiz de Suprema Corte tenha notificado cidadãos e empresas americanas por vias não legais, já que o caminho normal seria a carta rogatória ou mecanismo mútuo entre os países no que toca às questões de justiça. Com isso, inevitavelmente, feriu-se a soberania americana e parece que a resposta veio em caráter comercial, de toda sorte, também um mecanismo heterodoxo. Parece-me que a centralidade não seja Bolsonaro, senão as recorrentes manifestações de Lula contra o dólar, sendo a última mais contundente, colocando o Brasil no limbo dos BRICS. A falta de inteligência diplomática e articulação levou o país a um curso perigoso, enquanto a Argentina fecha um acordo que irá zerar a tarifa de 80% dos produtos destinados aos americanos.
Ruptura
Até agora, é uma das cartas mais contundentes recebidas por países que têm adotado relativo protecionismo frente aos EUA. O objetivo de Trump é fechar acordos, reduzindo as tarifas a posteriori, a partir de compromissos de investimentos nos EUA. Alguns países adotaram a negociação, inclusive a presidente mexicana, de esquerda, que deixou de lado as suas convicções ideológicas para negociar. Falar em reciprocidade agora é um problema, até porque o Brasil está atrelado à Tarifa Externa Comum do Mercosul. Trump faz mais uma barganha política do que comercial. Parece visível que o Brasil tomou rumo incerto no que toca à liberdade de expressão e à perseguição política desenfreada, características mais de ditaduras latino-americanas do que de democracias minimamente funcionais, dobrando a aposta ao emitir ordens ilegais e dissonantes aos princípios do direito internacional público. A ruptura é iminente.


