Não é difícil o entendimento, embora muitos vão se recusar a aceitar, que, quanto maior for a expansão de cultivos temporários na Amazônia, aumentando o desmatamento, maior será o impacto na redução de chuvas e na agricultura no Sul do Brasil. Esse é o tema de um artigo recém-publicado na revista americana PNAS (Vol. 123, Nº. 24, https://doi.org/10.1073/pnas.2525378123), “Amazon deforestation reduces precipitation and soybean yields across Southern Brazil”, que leva a assinatura de pesquisadores vinculados a instituições da China, dos EUA, do Canadá, da Bélgica, da Alemanha, da Suíça e da Arábia Saudita. Nenhum brasileiro na relação de autores, embora conste que o aludido artigo foi editado pelo climatologista Carlos Nobre, da USP, tendo, nesse caso, passado pelo crivo de um especialista local.
A demanda mundial, em crescimento, por alimentos, fibras e energia, no caso do Brasil, um dos mais importantes fornecedores de commodities agrícolas para o sistema mundial de alimentação, sem ignorar que nos outros países não foi e não é diferente, pressiona a expansão da agricultura para áreas de vegetação natural, como acontece ou já aconteceu, nos biomas Cerrado e Amazônia.
Para entender a importância da Amazônia no clima do Sul do Brasil é necessário atentar para o funcionamento do chamado Sistema de Monção da América do Sul e o padrão de circulação da atmosfera associado. Tudo começa com o carreamento de umidade do Oceano Atlântico para a Amazônia, governado pelo aquecimento da superfície e o gradiente de pressão que se forma, e a sua reciclagem sobre a floresta tropical, seguido do transporte de umidade em baixos níveis da atmosfera rumo ao sul, pelos chamados jatos de baixos níveis, que impactam o regime de chuvas em toda a Bacia do Prata. Mas qual o papel da floresta nisso? A sua influência vai além do arco de desmatamento, concentrado no norte do bioma Cerrado e no sul da Amazônia?
A evaporação (ou a evapotranspiração, caso prefiram um conceito agronômico) de uma área com floresta, na faixa tropical, inclusas a transpiração das plantas e a evaporação da água das chuvas interceptada pelo dossel das árvores, é maior do que a evaporação de uma área descoberta ou vegetada com culturas temporárias de porte baixo. Isso pode ter efeito na redução tanto das chuvas locais quanto afetar o regime pluvial em regiões fora da zona tropical. E, seja pela quantidade ou pela irregularidade das chuvas, trazer implicações negativas à produção agrícola, especialmente em sistema de sequeiro, que é majoritária no Brasil.
A circulação da atmosfera, pelos jatos de baixos níveis, canaliza a umidade da Amazônia para o Centro e Sul do Brasil. Ou seja, a Amazônia, por esse processo, contribui para a formação de chuva em locais que estão muito distantes da floresta. Eis a razão de o desmatamento da Amazônia deixar de ser um problema exclusivo dos agricultores do Centro e Norte do País e também ser dos produtores rurais do Sul do Brasil. Essa teleconexão atmosférica entre as Regiões Norte e Sul não pode mais ser ignorada, uma vez que pode afetar o regime de chuvas e, nesse caso, o rendimento da soja, a espécie, economicamente, mais importante da agricultura sulina, embora estejamos distantes da fronteira de desmatamento no Brasil.
Adicionalmente, sabe-se que a distribuição e intensidade das chuvas no território brasileiro, além do mecanismo descrito (Sistema de Monção da América do Sul e circulação de baixos níveis), são também moduladas pelos sistemas frontais extratropicais, pela formação e localização da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) e pela variabilidade associada com as fases do fenômeno El Niño – Oscilação Sul, principalmente.
A interação Amazônia X Chuvas no Brasil X Agricultura, nas diferentes regiões brasileiras, precisa ser melhor entendida. E, especificamente, no caso da soja, cultura que o Brasil é líder em produção e exportação no mundo. A pressão da Amazônia sobre o regime de chuvas no Sul do Brasil pode causar sérios danos à produção dessa oleaginosa em uma região tradicional de cultivo, justificando o título dessa coluna: “mais soja na Amazônia, menos soja no Sul do Brasil”.
A emenda, como reza o velho ditado, pode sair pior do que o soneto: “mais desmatamento, menos chuva e menos soja; para compensar menos soja, mais desmatamento e menos chuva ainda, fechando o ciclo da tragédia anunciada”.
SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura


