As tragédias provocadas pela negação da natureza humana
A história está cheia de exemplos das trágicas experiências realizadas por desconhecimento ou por negação da natureza humana. Essas experiências defendiam a concepção da “tábula rasa”, a ideia de que a mente humana não possui uma estrutura inerente e de que a sociedade, ou nós mesmos, podemos escrever nela à vontade.
A utopia comunista desconhecia a natureza humana
Talvez o maior exemplo dessas experiências com consequências trágicas tenha sido a utopia comunista, “a maior fantasia do século 20”, segundo Leszek Ko?akowski, feita em nome da teoria desenvolvida por Karl Marx (1818-1883). Para o pensador alemão, a mente não possui estrutura inata, ela emerge dos processos dialéticos da história e da interação social. Ele escreveu que toda a história nada mais é do que uma contínua transformação da natureza humana. Leon Trotsky e Che Guevara diziam que o comunismo criaria um homem de melhor qualidade. A história demonstrou que a desconsideração de nossa natureza criou um sistema econômico e político intolerável, que se tornou inaceitável em todos os países em que foi implantado. A destruição da razão, que teve lugar sob Stálin e durante a Revolução Cultural chinesa, não tem precedentes na história, diz Jon Elster no livro “Marx Hoje”.
Nicolau Maquiavel (1469-1527) e Thomas Hobbes (1588-1679) reconheceram a natureza humana
Maquiavel e Hobbes romperam com os equívocos da tradição clássica, que fundamentava suas doutrinas políticas em leis imaginárias para repúblicas imaginárias. A boa sociedade tem de levar em conta a realidade da natureza humana. Segundo Maquiavel, os homens fazem parte da natureza, assim como o céu, o sol e os elementos. No livro “O Príncipe”, ele escreveu: “Em todas as cidades e em todos os povos existem aqueles mesmos desejos e aqueles mesmos humores, como sempre existiram.” (...) “Sobre os homens pode-se dizer de modo geral que são ingratos, volúveis, simuladores e dissimuladores, covardes diante dos perigos e cúpidos de ganhos”. Embora tenha tendência para o mal, o homem é capaz de corrigir essa tendência com a capacidade de escolha moral. No entanto, por causa de suas paixões, isso nem sempre acontece, como bem demonstrou Thomas Hobbes.
Thomas Hobbes – o medo é a virtude cívica por excelência
Hobbes escreveu que os seres humanos conhecem os preceitos racionais que os orientam a buscar a paz e a convivência social. Esses preceitos, que ele chamou de “leis naturais”, não bastam por si só. Nem sempre os homens fazem a escolha moral de que são capazes. Na sua condição natural, no chamado “estado de natureza”, cada indivíduo é livre para seguir ou ignorar as leis naturais. É um estado de insegurança constante, onde todos têm direito a tudo, inclusive à vida dos outros. Onde todos têm direito a tudo, ninguém tem direito a nada. Mesmo que a razão diga que é melhor buscar a paz, o medo e a desconfiança levam os indivíduos a se armarem e se protegerem — o que perpetua o conflito. Para sair do estado de natureza, da guerra de todos contra todos, é necessário instituir um poder soberano (Leviatã), que tenha o monopólio do uso da força, condição necessária para que as leis naturais sejam respeitadas. O soberano tem o poder de punir quem viola os pactos, tornando a obediência às leis naturais uma obrigação real, não apenas racional. Numa frase célebre na história do pensamento político, Hobbes escreveu: “o medo é a virtude cívica por excelência”. Portanto, continua ele, devemos providenciar nossa segurança, não mediante pactos e promessas, mas através de castigos, “castigos tão grandes previstos para cada injúria que se evidencie que sofrerá maiores males quem a cometer do que quem se abster de praticá-la, pois todos, por necessidade natural, escolhem o que a eles pareça constituir o mal menor”.


