OPINIÃO

Natureza humana (5) – e a política

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NATUREZA HUMANA (5) – E A POLÍTICA

 

A visão trágica e a visão utópica

Steven Pinker, no livro “Tábula Rasa: a negação contemporânea da natureza humana”, tentando estabelecer alguma claridade nas posições conservadores e nas posições liberais, recorre a Thomas Sowell, que descreveu duas visões fundamentais da natureza humana, que ele designou como “visão restrita” e “visão irrestrita”. Sowell pretendia com isso entender as raízes das divergências ideológicas que moldam os debates políticos e sociais, que sustentam diferentes formas de ver o mundo. Pinker preferiu chamar essas duas visões de “visão trágica” e “visão utópica”.

 A visão trágica – a madeira torta da humanidade

Segundo a “visão trágica”, os seres humanos são naturalmente limitados em conhecimento, sabedoria e virtude. Os arranjos sociais devem reconhecer esses limites. Como escreveu Kant, “da madeira torta da humanidade coisa nenhuma verdadeiramente reta pode ser feita”. A visão trágica é associada a Thomas Hobbes, Edmund Burke, Adam Smith, aos chamados “pais fundadores” dos EUA, como Hamilton, Madison, John Adams, Jefferson. Também partilham dessa visão o jurista Oliver Wendell Holmes, os economistas Fredrich Hayek e Milton Friedman e os filósofos Isaiah Berlin e Karl Popper.

 A visão trágica e o egoísmo

           Nossos sentimentos morais, por mais caridosos que possam ser, assentam-se sobre um alicerce mais profundo de egoísmo. Esse egoísmo não é a crueldade ou a agressão do psicopata. Trata-se da preocupação com nosso bem-estar. Numa passagem célebre do livro “A Riqueza das Nações”, Adam Smith deixou bem claro o que seria esse egoísmo. “O homem tem necessidade quase constante da ajuda dos semelhantes, e é inútil esperar essa ajuda simplesmente da benevolência alheia. (...) Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse. Dirigimo-nos não à sua humanidade, mas à sua autoestima, e nunca lhes falamos das nossas próprias necessidades, mas das vantagens que advirão para eles.” Para Smith, que Niall Ferguson chamou de o mais inteligente dos escoceses, esse egoísmo não era um defeito moral, mas, simplesmente, a busca do interesse próprio, que é como um motor da economia. Como disse Roberto Campos de forma brilhante: “As civilizações podem e devem ser embelezadas pelo altruísmo, mas são construídas pelo egoísmo.

 Adam Smith e a questão moral

           Não devemos esquecer que Adam Smith era profundamente preocupado com a questão moral. Antes de publicar seu estudo sobre as causas que produzem a riqueza de uma nação, ele escreveu o livro “A Teoria dos Sentimentos Morais” (1759), onde argumentou que os seres humanos têm a capacidade de simpatizar com os sentimentos dos outros; que o egoísmo excessivo é visto como um obstáculo à convivência ética; que o comportamento virtuoso depende do equilíbrio entre o interesse próprio e a consideração pelos outros. Adam Smith apenas procurou mostrar que a tendência de um indivíduo a cuidar de si mesmo e de sua família pode atuar em benefício de toda a sociedade.

 

As tradições permitem contornar as imperfeições da natureza humana

           Na visão trágica, a natureza humana não mudou. Somos membros da mesma espécie imperfeita. Tradições como a religião, a família, os costumes sociais, os costumes sexuais e as instituições políticas são produtos da engenhosidade humana ao longo da história. Costumes e instituições imemoriais que comprovaram sua eficácia para nos permitir contornar as imperfeições da natureza humana, mesmo que não saibamos explicar sua base racional. A visão trágica fundamenta o conservadorismo, a ideia segundo a qual a melhor forma de evolução, de progresso de uma sociedade, ocorre com mudanças incrementais.

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