OPINIÃO

Conjuntura Internacional

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A verdade é que já não podemos falar em “multilateralismo” como antes. O sistema, ancorado na criação da ONU em 1945, está hoje obsoleto por diversas razões, entre elas, a própria configuração do Conselho de Segurança, no qual Rússia e China, juntamente com potências ocidentais, têm poder de veto sobre qualquer decisão. 

A intenção do atual governo, estimulada por Celso Amorim no contexto dos BRICS, é acreditar, de forma quase ingênua, que em uma nova ordem mundial sem o dólar o Brasil teria posição de destaque. Na prática, trata-se de um sonho ideológico, ancorado numa visão ultrapassada de mundo dividido pela linha do Equador, com o hemisfério Norte dominante e o chamado “Sul Global” (denominação exótica para países que, mesmo no Ocidente, se colocam contra o regime ocidental e frequentemente demonstram simpatia por ditaduras).

Distanciamento europeu

Há tentativas pontuais de aproximação com países europeus, mas Lula não é levado a sério pelos líderes do continente. Ele acreditava ter influência na região, mas recebeu um “não” categórico quanto ao Acordo Mercosul–União Europeia. Some-se a isso o fato de que o próprio bloco, junto à OTAN, chegou a cogitar sanções ao Brasil diante de seu apoio irrestrito a Putin. O alinhamento estratégico entre União Europeia e EUA, somado às posições da OTAN, praticamente isola a política externa de Lula. Hoje, ele não detém qualquer prestígio real na Europa.

Fantoche

No contexto dos BRICS (que funciona, em muitos aspectos, como um “Foro de São Paulo 2.0”), Lula tornou-se um porta-voz da narrativa de substituição do dólar, algo que nem mesmo outros líderes do grupo sustentam publicamente. Narendra Modi, próximo presidente rotativo do bloco, evita o tema. O líder chinês prefere o silêncio. O russo, sobrecarregado por problemas internos, também não insiste. Sobrou a Lula sustentar um discurso ideológico, mesmo após receber a carta de Trump anunciando o tarifaço. O seu papel não tem sido negociar, mas “venezuelizar” o Brasil.

Riscos

A estratégia tarifária de Trump vem desarticulando, ainda que de forma indireta, a coordenação econômica dos BRICS. Desde o início, a política externa de Lula mostrou-se subserviente a regimes autoritários. O risco não está apenas nas tarifas. Tomemos como exemplo a Índia: mesmo tendo sido recebida com honras na Casa Branca, poucos dias depois foi alvo de uma tarifa de 25% sobre o petróleo russo. Com o Brasil, o cenário pode ser mais grave. Tramita no Congresso americano um projeto que prevê aumento tarifário de até 400% para importadores de produtos russos. E o Brasil é um dos maiores compradores de diesel russo. Ainda mais preocupante é o impacto da política interna brasileira. Não apenas pela diplomacia errática, mas pelos sinais emitidos pela própria Justiça. Na carta enviada por Trump, a referência à Seção 301 do Trade Act de 1974 abre margem para investigações sobre comércio desleal e práticas envolvendo Big Techs. Os EUA consideraram um ato hostil quando um ministro do Supremo Tribunal Federal enviou ordens judiciais e intimações diretamente a empresas e cidadãos americanos, sem utilizar mecanismos formais como carta rogatória ou o Tratado de Assistência Jurídica Mútua Brasil–EUA. Essa postura agravou o desgaste diplomático e expôs o país a uma situação, no mínimo, vexatória.

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