Há que ter intimidade para alguém se referir a Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, simplesmente, como Bel, e, ao mesmo tempo, ser retribuído com Dogi. Pois, pelo que tudo indica, era dessa forma que o radialista Dogival Duarte e o cantor/compositor Belchior se tratavam, na convivência que mantiveram nos últimos anos vividos pelo artista, que optou pela reclusão, na cidade de Santa Cruz do Sul. O relato dessa singular relação – fã x artista x amigos x mecenas – é o tema do livro “Belchior – Cenas do último capítulo”, publicado, em 2025, por Dogival Duarte.
O livro de Dogival Duarte, até por ele, junto com Belchior, ser protagonista do enredo principal da obra, acrescenta detalhes pouco conhecidos para a tessitura de uma biografia definitiva do singular artista cearense. Vem se somar aos livros “Belchior – Apenas um rapaz latino-americano”, de Jotabê Medeiros, de 2017, escrito ainda sob o calor da morte de Belchior, ocorrida em 30 de abril de 2017, e “Viver é melhor que sonhar – Os últimos caminhos de Belchior”, dos jornalistas Chris Fuscaldo e Marcelo Bortoloti, de 2021. Complementam a lista de obras relativamente recentes sobre Belchior, o livro “Belchior – A história que a biografia não vai contar”, publicado em 2017, pelo advogado gaúcho Jorge Claudio de Almeida Cabral, que acolheu Belchior em seu sítio em Guaíba, e o “Cancioneiro Belchior”, coletânea das letras belchioranas, organizado pelo professor José Gomes Neto, amigo de Belchior desde os anos 1970.
Depois do autoexílio, vivido, a partir de 2009, em San Gregorio de Polanco, no interior do Uruguai; uma vez “encontrados” pela repórter Sônia Bridi, que produziu matéria e entrevistou o cantor para o programa Fantástico, Belchior e Edna, apareceriam, em 2012, em Porto Alegre, numa condição quase mendicante. Seriam acolhidos por fãs e pelos integrantes do Movimento de Pequenos Agricultores, que os levariam para o acampamento da entidade no município de Seberi, até aportarem, em definitivo, na cidade de Santa Cruz do Sul, em 2013, onde vai entrar em cena Dogival Duarte.
A relação entre Dogival e Belchior começou pela idolatria, com o primeiro, a partir de 1984, frequentando os shows, pegando autógrafos, até virar uma amizade fraterna, em que ambos, sempre que possível, pareciam apreciar a companhia um do outro. Foi então que, quando soube que Belchior estava em Santa Cruz do Sul, Dogival Duarte tratou de ajudar o ídolo e amigo. Primeiro hospedando o casal Belchior e Edna em sua residência. Depois, valendo-se das suas relações pessoais na cidade, Dogival buscou o apoio de amigos que pudessem auxiliá-lo na empreitada de acolher o casal, ainda que nem sempre tivesse sido plenamente entendido. Durante o tempo de convivência, na casa de Dogival, eles conversaram sobre livros, filmes e sobre a possível volta de Belchior aos palcos, que era um assunto evitado ou desconversado pelo cantor e, especialmente, por Edna. Tiveram momentos prazerosos, com Belchior discorrendo sobre livros, em especial sobre a Divina Comédia, apreciando vinhos e, também, desavenças, entre Edna e a esposa de Dogival, que acabariam inviabilizando a convivência sob o mesmo teto.
Dogival, ainda que a sua proximidade com Belchior passasse a ser rechaçada por Edna, não abandonaria o ídolo e amigo. Buscou o apoio de Dom Sinésio, o bispo católico, e de amigos que também eram admiradores de Belchior. Assim, apesar do distanciamento imposto por Edna, indiretamente, Dogival nunca deixou de ajudar o casal. O apoio maior Dogival recebeu do empresário Júlio César Schmidt. Na casa de Júlio, com ele e com a filha pequena, Belchior e Edna moraram de 7 de janeiro de 2014 a 8 de setembro de 2015, quando foram para outra residência, também de propriedade do empresário, onde Belchior, ao lado de Edna, viveria os seus derradeiros dias. A visão de Júlio Schmidt sobre Edna destoa da maioria dos que conheceram o casal e via nela uma espécie de dominadora de Belchior. Júlio denota empatia por Edna e considera um desrespeito com Belchior colocar a culpa nela por tudo que aconteceu, pois era com ela que ele tinha sintonia e era com ela que ele gostava de estar.
Não obstante tudo que fez por Belchior e Edna, Dogival, naquele 30 de abril de 2017, soube por terceiros da morte de Bel. Atualmente, Dogival Duarte continua reverenciando a memória de Belchior via o programa “Labirintos Noturnos – A música de Belchior”, pela web rádio Ceará Rural, de Fortaleza, que vai ao ar todos os domingos às 20h.
O livro “Belchior – Cenas do último capítulo”, de Dogival Duarte, pode ser adquirido diretamente com o autor (WhatsApp: 51-99922-0060). Dogival é escritor, tem vários livros publicados e ocupa a cadeira número 12 da Academia de Letras de Santa Cruz do Sul, cujo patrono, não casualmente, é o poeta Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes. Como diria Belchior, “Abraços & Canções”.
SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura


