OPINIÃO

Miguel Pereira, o “babilônico”

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Quem, um dia, aqui nas páginas de O NACIONAL, teve o costume de ler as colunas do saudoso jornalista Antonio Augusto Meirelles Duarte, deve estar familiarizado com o nome Miguel Pereira. Todos os anos, invariavelmente, na época de finados, o insigne jornalista publicava, acompanhada de fotografias, a história do sargento telegrafista brasileiro que, após ter lutado na Força Expedicionária Brasileira (FEB), na Campanha da Itália, 1944-1945, cuidava do Cemitério Militar Brasileiro em Pistoia, naquele país, primeiro, zelando pelos túmulos dos soldados patrícios que sucumbiram na luta para libertar o mundo das garras do nazifascismo, até 1960, e, depois, pelo Monumento Votivo Militar, que deu lugar ao cemitério, praticamente, até a sua morte, ocorrida em 2003.

Miguel Pereira era gaúcho. Nasceu na localidade de Santo Amaro do Sul, atualmente, distrito de General Câmara, mas tinha identidade com Passo Fundo. Primeiro, por ter vindo, ainda criança, acompanhando a família que havia adquirido uma propriedade rural no atual distrito do Pulador. E, segundo, por ter iniciado a sua carreira militar, em 1938, no III/8º Regimento de Infantaria, especializando-se em radiotelegrafia. Em 1943, com a patente de 3º sargento, radicado no Rio de Janeiro, foi nomeado instrutor da Escola de Transmissões de Deodoro e virou colaborador na preparação da então incipiente Força Expedicionária Brasileira. Em setembro de 1944, como voluntário, embarcou para a Itália como 3º Sargento de Rádio do Grupo de Rádio da 1ª Companhia Especial de Radiodifusão. Desse país, após um breve retorno ao Brasil, em 1945, nunca mais voltaria. E foi lá que constituiu família, uma vez casado com a italiana Giuliana Menichini (por procuração, em 1946, pois havia voltado para o Brasil), e se notabilizou como o guardião do Cemitério Militar Brasileiro em Pistoia, vivendo, naquele local, o resto dos seus dias e onde escreveu as suas memórias. Miguel Pereira voltou para Pistoia em janeiro de 1947, para se juntar à Seção da Guarda do Cemitério, que, uma vez desmantelada pelo tratado de paz, ficaria, em solo italiano, apenas ele, para zelar pelo cemitério militar brasileiro, sob tutela do Consulado Brasileiro em Florença. E foi no exercício dessa função que Miguel se notabilizaria.

Quando da morte de Miguel Pereira, em 2003, os filhos Michela, Donatella e Mario (Luce,1956-2003, in memoriam) começaram a organizar o arquivo do pai, que era constituído por documentos, fotografias, anotações manuscritas e páginas datilografadas. O primeiro que encontraram foi um diário das primeiras semanas após o seu desembarque na Itália. Esse diário seria publicado em italiano, em 2004, e republicado em 2018. Mas havia mais, muito mais. Além do diário, fotografias emblemáticas e a história detalhada, com anotações precisas, das suas memórias e do Cemitério Militar Brasileiro em Pistoia.

O arquivo deixado por Miguel Pereira era constituído por 28 caixas. Um acervo que ele próprio achou por bem chamá-lo de “meu babilônico arquivo”. Foi nos últimos meses de 2015, quando os filhos, decididos a organizarem os documentos deixados pelo pai, encontraram, em folhas datilografadas dispersas, aquilo que seria o livro que Miguel vinha se dedicando a escrever desde os anos 1950. O material conta a história do Cemitério Militar Brasileiro de San Rocco e a de Miguel Pereira, como curador desse campo santo, a partir de 1947 até 1960, quando os restos mortais dos soldados ali sepultados foram repatriados para o Brasil. No local seria construído um Monumento Votivo Militar, que só ficaria pronto em 1967, onde seria sepultado o corpo de um soldado brasileiro desconhecido, exumado em Montese, e do qual Miguel também cuidaria. Fredolino Chimango, que dá nome ao Centro de Esporte e Lazer, na frente do antigo Quartel do 8º RI, estava entre os pracinhas brasileiros que, sob uma cruz branca, haviam sido sepultados em Pistoia.

Quis o destino que, durante temporada de estudo que passou na Itália, o historiador passo-fundense Alex Vanin, em fevereiro de 2024, fizesse uma visita a Pistoia. Na ocasião, foi ciceroneado por Mario, o filho de Miguel Pereira. Iniciava ali as tratativas para a publicação do livro “Brasileiros sob o Céu de Pistoia”, do expedicionário Miguel Pereira, publicado de forma póstuma, e cujo lançamento, com a presença dos filhos Donatella e Mario, ocorreu no último sábado (4/10/2025), em Passo Fundo, como parte da programação alusiva aos 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial.

O padrão Acervus de qualidade editorial, mais uma vez, se sobressai no livro “Brasileiros sob o Céu de Pistoia”, fundindo, com elevada sensibilidade, textos primorosos e imagens históricas originais, para nos dar noção de quão cruel podem ser as agruras de uma guerra. A ligação umbilical de Miguel Pereira com Passo Fundo torna esse livro mais uma obra que tem o seu lugar reservado na prateleira dos mais relevantes compêndios da história local. Para adquirir o livro, entrar em contato com a Acervus Editora: [email protected], acervuseditora.com.br, (54)99676-9020. 

Uma exposição para preservar a memória local sobre a Segunda Guerra Mundial, com curadoria do Instituto Histórico de Passo Fundo, pode ser visitada, até 28 de novembro, de quinta-feira a domingo, no Museu Histórico Regional (prédio da antiga prefeitura, Av. Brasil Oeste, 780, Passo Fundo, RS). Acrescente-se a possibilidade de uma visita guiada por historiadores de elite pelos Caminhos da Segunda Guerra Mundial em Passo Fundo: o antigo quartel do 8º RI (Rua Teixeira Soares), o Centro de Esporte e Lazer Fredolino Chimango e seus monumentos (30 anos do fim da Segunda Guerra, 50 anos do Dia da Vitória e homenagem a Fredolino Chimango) e o monumento ao Expedicionário Miguel Pereira na Piazza Itália (Av. 7 de Setembro). Informações pelo e-mail [email protected] ou pelo WhatsApp (54)99202-6854.

SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura

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