Ao ignorar o provérbio romano “Sutor, ne ultra crepidam” (Sapateiro, não vá além das sandálias), consciente ou não do que fazia, Luiz Carlos Simor, o sapateiro da descida da Rua Bento Gonçalves, quase esquina da Avenida Brasil, no centro de Passo Fundo, produziu, a partir de anotações feitas ao longo dos últimos 50 anos, o livro “Memórias de um sapateiro: costurando palavras”, que, mais do que uma obra de memórias, é um verdadeiro manual de uma profissão cujo destino, graças aos novos hábitos de tudo usar e tudo descartar, tende à extinção.
Além da vida pessoal do autor e suas lembranças, o livro “Memórias de um sapateiro: costurando palavras”, que foi recentemente lançado, ao dar detalhes do processo de formação qualificada desses profissionais em Passo Fundo, listando e descrevendo ferramentas e materiais usados e tipos de trabalho afeitos ao dia a dia dessa atividade, qualifica-se como uma obra de referência digna do regozijo dos discípulos de São Crispim e São Crispiano, os padroeiros dos sapateiros, que, em alusão a esses santos da Igreja católica, tem o seu dia celebrado em 25 de outubro.
Luiz Carlos Simor nasceu em Passo Fundo, no dia 24 de julho de 1952, no seio de uma família de 11 irmãos. Estudou nas escolas Anna Luísa Ferrão Teixeira, Protásio Alves e Nicolau de Araújo Vergueiro, cumprindo até o primeiro ano do ensino médio. E, tal qual muitos outros da sua geração de passo-fundenses, parou os estudos e iniciou a trabalhar ainda menor de idade. Começou no ofício de aprendiz na Saparia Gabriel (atualmente, Botas Gabriel), que ainda está em funcionamento na Rua/Avenida Teixeira Soares, na Vila Vera Cruz, em Passo Fundo. Esta empresa pode ser considerada uma verdadeira escola de formação de sapateiros, pois, desde 1962, uma legião de profissionais, que se estabeleceram na cidade e em toda a região, nela tiveram a sua carreira iniciada sob a batuta do Seu Gabriel e irmãos. Há 50 anos Luiz Carlos Simor labuta na profissão de sapateiro e faz 47 anos que é casado com a Sra. Maria Marlene Zanchett Simor, funcionária aposentada do HSVP. É pai do engenheiro Robledo Zanchett Simor, especialista em automação e controle, sogro da Francieli dos Santos Simor e avô orgulhoso da Mariana dos Santos Simor.
Uma viagem pelo universo dos calçados mais populares das últimas cinco décadas, que permite ao leitor rememorar as suas vivências, nos oferece, gentilmente, Luiz Carlo Simor no seu livro. Desde as alpargatas feitas de tecido e solado de juta, passando pela conga, de tecido e sola de borracha e cadarço, a sete vidas, parecida com a conga, mas com tecido mais aberto, o bamba, que lembrava a conga, porém com solado e cano mais altos, até o kichute, uma espécie tênis com travas de borracha no solado, e os tradicionais sapatos Passo Doble e Vulcabrás. No terreno das curiosidades, Luiz Carlos Simor relata que chegou a adaptar sapato para assegurar conforto a paciente de cirurgia de unha encravada, mostrando a utilidade da profissão à ortopedia, e confeccionar uma espécie de bota para uma bezerra recém-nascida que havia tido uma pata amassada acidentalmente. E, com estatísticas precisas e irrefutáveis, assegura que um solado de couro pode fazer caminhadas de até 700 km.
O sapateiro Luiz Carlos Simor é um profissional que, de muitos clientes, acabou amigo. Esse é o caso dos acadêmicos Ironi Andrade, Marilise e Osvandré Lech, que assinam excertos no livro “Memórias de um sapateiro: costurando palavras”. Ironi, acostumado com ajustes em calçados desde a infância, exalta que “são uns deuses esses sapateiros”, e, uma vez vizinho da loja da Bento, foi inevitável se tornar cliente e amigo do sapateiro Luiz Carlos. Osvandré Lech, cliente há quase 40 anos, quando levou um sapato raro que ninguém mais queria consertar, ao receber a resposta “vamos dar uma segunda chance pra esse aí”, passou a respeitar Luiz Carlos como “um mestre da conversa, da ética silenciosa e do trabalho bem-feito”. E Marilise Lech, também cliente, que, ao conhecer o caderno de notas com as histórias simples de um profissional que valoriza, acima de tudo, as relações humanas, virou entusiasta para transformá-las em livro.
Luiz Carlos Simor mantem, na sua tradicional sapataria da descida da Bento, uma máquina de costura de mais de 100 anos, que pertenceu a Antônio Gasparetto, o sapateiro da ponte do Rio Passo Fundo, e um martelo, que, reza a lenda, teria sido do primeiro sapateiro de Passo Fundo. A peça rara chegou às suas mãos depois de ter passado pelas dos mestres locais do ofício, como Hermengildo Volcato e Isidoro Rossati.
O livro “Memórias de um sapateiro: costurando palavras”, que saiu pelo selo da Aldeia Sul Editora, com organização de Marilise Lech, faz parte das obras publicadas, em 2025, com o apoio da Câmara de Vereadores de Passo Fundo à literatura local, via emenda impositiva da nobre edil Eva Valéria Lorenzato.
Luiz Carlos Simor, não por acaso, é cultuador do provérbio “Foi pescar e não pescou nada. Voltou sapateiro!”
Vida longa aos sapateiros!
SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura



