OPINIÃO

Uma Amazônia hipertropical

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Em recente artigo (https://doi.org/10.1038/s41586-025-09728-y) publicado na revista Nature, edição de10 de dezembro de 2025, pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, que tem sede em Manaus/AM, e da Embrapa Amazônia Oriental, localizada em Belém/PA, em associação com pares de universidades dos USA, identificaram uma nova ameaça da mudança do clima global para as florestas tropicais úmidas: o aumento da mortalidade de árvores sob secas associadas com temperaturas elevadas. E, mais do que isso, diagnosticaram, para o final do século XXI e no pior cenário, na região tropical úmida (temperatura média anual acima de 24,0 ºC e total de chuva superior a 1300 mm), que, além da Amazônia, abrange também parte da África e o Sudeste da Ásia, a configuração de uma zona de clima hipertropical, que não guarda analogia com nada do que conhecemos atualmente no mundo em termos de clima. E quais seriam as consequências desse novo tipo de clima hipertropical? É o que intentaremos responder nas breves notas que seguem.

O artigo pode ser considerado de complexidade relativamente elevada para entendimento fácil. Até chegar às aludidas conclusões, os autores integraram, além das sempre necessárias pressuposições usadas nesse tipo de estudo, dados de experimento de longa duração conduzido na parte central da Amazônia brasileira, de onde saiu a maior parte da informação de mortalidade anual de árvores durante períodos de secas, com destaque para as ocorridas em 1997/98, 2010/11, 2015/16 e 2023/24 (não casualmente, 1997/98, 2015/16 e 2023/24 foram anos de El Niño), medições mais recentes de monitoramento de água no solo e fluxos de seiva nas árvores (transpiração) e resultados de projeções do clima futuro pela média dos 10 modelos da fase 6 do Projeto de Intercomparação de Modelos Acoplados (CMIP6). Além de análises estatísticas sofisticadas que associam clima e índices biometerológicos relacionados com demanda evaporativa da atmosfera e estresse hídrico em plantas.

A questão levantada no estudo publicado na Nature suscita atenção porque, indiscutivelmente, mesmo que alguns neguem, com mais alarde do que evidências, a mudança do clima induzida pela atividade humana está aquecendo o planeta. As florestas tropicais úmidas, especialmente a Amazônica, desempenham papel crucial na regulação climática no mundo. São fontes de distribuição de energia via fluxos de calor latente de evaporação (entenda-se energia associada com a mudança do estado físico da água) das regiões tropicais para as temperadas, além de exercer o controle do ciclo hidrológico local. A grande dúvida é como as florestas tropicais vão responder a esse novo clima hipertropical, mais quente por natureza, seja nos processos fisiológicos das plantas ou na composição da estrutura das comunidades florestais. Afinal, o diagnóstico tem sido claro: secas na Amazônia quando associadas com temperaturas elevada tem dado causa a maior mortalidade de árvores. Apenas temperaturas elevadas, quando dissociadas de secas, não tem tido o mesmo efeito, frise-se. E, em destaque, que a mortalidade de árvore tem sido maior nas áreas de floresta em regeneração, com a predominância de espécies pioneiras em baixa densidade de mata.

O diagnóstico do novo clima hipertropical na parte central da Amazônia brasileira, a partir dos resultados das simulações CMIP6, reforça a atenção para o trimestre crítico da transição da época de menos para mais chuva, agosto-setembro-outubro, quando, nos eventos do passado, 1997/98, 2010/11, 2015/16 e 2023/24, o problema de mortalidade de árvores, sob condição de seca e calor, ficou bem-evidenciado. Mais especificamente, indicando, no clima futuro, como problemático o período de final de setembro e começo de outubro. Embora na saída da estação seca para a úmida também se identifica mortalidade de arvores, em função da intensificação do processo convectivo na região e a formação de nuvens associadas com tempestades de descargas elétricas.

Afinal, qual a causa da mortalidade de árvores sob condição de seca e temperaturas elevadas na Amazônia? Especula-se, pois respostas, a partir de novos estudos especializados em Ecofisiologia, estão sendo buscadas. Infere-se que poderia ser por falhas hidráulicas no sistema solo-planta atmosfera, uma vez que, sob baixa umidade no solo, aumento da demanda evaporativa da atmosfera, pelo maior déficit de saturação pressão de vapor d`água no ar, o sistema entraria em colapso, afetando, indiretamente, o processo de fotossíntese e as plantas morreriam, no limite, pelo que os autores chamaram de fome de Carbono (Carbon starvation). E assim, a floresta tropical, até então vista como potencial sumidouro de Carbono da atmosfera, poderia se converter em fonte de Carbono.

Nossos cumprimentos ao colega Alessandro Carioca de Araújo, um dos autores do artigo “Hot droughts in the Amazon provide a window to a future hypertropical climate”, que nos sugeriu, como presente de Natal, a leitura no período de festas de final de ano. Muy amigo esse Alessando!

SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura

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