Minha avó, Dona Ada, foi uma mulher tão devota quanto devotada.
Lembro, ainda muito pequeno, de eventualmente tê-la acompanhado à missa, numa manhã ensolarada do que suponho um domingo — quando, pelo tempo de joelhos, tive clara certeza e sérios receios sobre a vida eterna. Lembro de ter sido recompensado na saída com uma casquinha doce da carrocinha da esquina — e lembro também de ter ficado profundamente frustrado com Deus por não me ter recompensado a visita demorada com a carrocinha inteira.
Antes de mudar para o Rio, passei me despedir. Ela me presenteou com três sabores diferentes de sua clássica linha de licores caseiros e uma Bíblia encapada em couro marrom. Sugeriu que abrisse o presente antes de seguir viagem, e também nas paradas ao longo do caminho. Respondi que poderia ser arriscado beber as três garrafas enquanto dirigisse na estrada. Ela riu, com sua gargalhada anasalada de Guaporé, e disse que eu fosse me catar, e que eu fosse com Deus.
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Lembro do apuro com que cuidava do altar que mantinha em casa. Era uma casa interrompida por décadas de luto. Nada disso a impedia de preservar e relembrar os votos de sua primeira e única núpcia, enquanto distraía a ausência com a visita dos outros filhos e netos, macerando frutas, preparando lasanhas, compotas cítricas e escutando óperas líricas.
A morte relativamente prematura de meu avô não fora a única. Anos depois, teria de experimentar e se refazer à perda ainda mais precoce de seu primogênito. Nem por isso sua fé pareceu sofrer alguma ranhura — ao oposto: embora não os tivesse à vista — Deus, filho e marido — tudo naquela casa vivia a sensação permanente dos três.
Dona Ada tinha tanta convicção de que Deus era justo e sabia o que fazia, que jamais tive coragem de polemizar sobre o episódio da casquinha depois da missa.
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Só viríamos a compartilhar o mesmo ambiente de igreja décadas depois, no batizado de seu bisneto e meu sobrinho, Bento. Com os movimentos já debilitados, lhe foi arranjada uma cadeira confortável, junto à pia batismal onde transcorria o evento.
Embora me parecesse certo exagero purificar os pecados de uma criança que, honestamente, duvido que algum dia venha a tê-los ou cometê-los — ainda assim, foi muito bonito o momento: a cadeira imponente, os panos largos e estampados de seda, o cabelo prateado armado em um penteado elegante, o terço estilizado em pedra ou madeira, a acústica monótona e seca. Havia muita fé no ambiente, mas também muita performance em cena.
Fiquei impressionado com a fluência convicta e o ritmo com que repassou, de memória, todas as preces que o padre propunha, enquanto resfriava e engasgava de água sabor benta aquela doce criatura inocente.
Depois de gabaritar cerca de quinze orações repletas de ênclises e próclises — e reforçar outras trinta vezes que Ele estava no meio de nós — fui embora com duas certezas: meu sobrinho era um anjo, e minha avó teria sido uma rapper de mão cheia.
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Dias antes de falecer, já às vésperas dos cem anos, fui visitá-la no hospital. Brincamos sobre o absurdo de ela estar grávida. Depois reclamou dengosa de minhas longas ausências. Disse que estava em Passo Fundo apenas para vê-la, e que retornaria no dia seguinte ou no próximo. Não deu tempo. Não sei se ela mesma ou alguém pintava suas unhas — acho que de vermelho.
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No seu velório, quando o caixão baixou aos trancos pelo jazigo, não pude deixar de perceber a beleza do que se desenrolava alguns palmos abaixo, submersa pela baderna de cimento e tijolos: por fim se remontava, no mesmo espaço físico acanhado, a memória e a presença do que um dia foram os primeiros instantes daquela família que restava em despedida.
Fosse apenas pelas sobras de matéria, fosse por Deus finalmente fazendo justiça, onde quer que estivesse, minha avó estaria com os seus.

