Às vésperas do Carnaval, já se pode dizer que resiliência é a palavra mais resiliente dos últimos tempos.
Desde a pandemia, quando a empatia ganhou relevância incontestável, nenhum substantivo abstrato se impôs com tanta autoridade no léxico de todas as camadas do tecido social.
Ao contrário da empatia — cuja prática exige ação expansiva — a resiliência opera no ambiente mais íntimo e soturno da introspecção. São forças que não se anulam, mas, em um contexto tensionado em que até as abstrações se polarizam, não surpreende o ostracismo dos empáticos diante da ascensão dos resilientes. Ser resiliente, de certa forma, é o novo diferenciado.
À diferença dos empáticos e dos resilientes, entretanto, a praga do diferenciado impôs-se com a promessa de reunir um punhado de idênticos em todo tipo de clichê onde se pudesse colar o decalque do sofisticado, disruptivo e original.
Foi assim com o Halls de Paçoca, o Tic-Tac de Pipoca e a Fanta Caju.
É assim no Instagram.
Muito alarde; pouco sabor.
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Existe um lugar-comum que prospera sob o pretexto das promiscuidades e excessos atribuídos aos bastidores de um programa de televisão. Muitos são mitos; alguns, reais. Por mais ressalvas que se façam quanto à sua qualidade artística, a rotina é muito exaustiva em todos os estágios do processo de criação.
Ao contrário da solidão concentrada do texto impresso — cuja logística se resolve no eixo ideia–prelo —, do jornalismo certificado ou até da arte denuncista de aplicar legendas divertidas sobre conteúdos alheios na internet, escrever para TV, sob a pressão de prazos, orçamentos e resultados, geralmente a serviço de temperamentos com fortes traços de egopatia, impactou de maneira perversa meus hábitos profissionais.
Em apenas três meses — e pelos dez anos seguintes — fiz-me usuário compulsivo do que só agora se alastra como epidemia nacional. Fui literalmente dependente do literalmente. Não importava o quadro, o gênero, o personagem ou o apresentador: todos os meus roteiros exigiam ao menos uma dose de literalmente para me acalmar.
Se o diferenciado é a porta de entrada recreativa para drogas mais pesadas, o literalmente é o crack da linguagem.
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O uso figurado de literalmente como intensificador criou, como em tudo, forte polarização, rachando em definitivo prescritivistas e linguistas — no que espelharia com precisão os corriqueiros embates entre laias progressistas e conservadoras que se alastram pelo mundo inteiro, não fosse a elegância dos paletós de tweed e o altíssimo nível com que trocam seus sopapos semânticos.
Até o momento, os linguistas estão em vantagem. Dicionários de prestígio, como o Oxford e o Merriam-Webster, já passaram a descriminalizar seu uso em tratamentos de ênfase ou exagero.
Por outro lado, a grande repercussão nas redes sociais de um trecho de carta enviada, em 1946, por Guimarães Rosa à esposa, Aracy de Carvalho, parece ter animado as trincheiras dos anti-literais.
Diz o post, compartilhado com entusiasmo surpreendente tanto por millennials quanto pela geração Z:
Guimarães Rosa poderia ter dito “eu te amo”, mas disse:
“Outros eu conheci por ócio acaso. A ti vim encontrar porque era preciso”.
A internet tem dessas coisas. De um stories a outro, vai-se do cosplay de Datena ao autor de Grande Sertão: Veredas.
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O último grande episódio de união nacional de que me lembro foi o repúdio coletivo ao uso abusivo do gerúndio. Talvez eu tenha sido o único a não me manifestar contra a prática dos operadores de telemarketing.
Empatia e resiliência.
O gerúndio já me acompanha desde que fui batizado Fernando.


