Há 30 anos, morria, no dia 25 de fevereiro de 1996, em Porto Alegre, o escritor Caio Fernando Abreu, o Caio F., como ficaria conhecido. Para celebrar a efeméride, apesar da decantada relação de amor e ódio que o escritor mantinha com a Capital gaúcha, estão sendo previstas atividades na Biblioteca Pública Municipal Josué Guimarães, com as suas obras colocadas em destaque para empréstimo; no Instituto Estadual do Livro, palestra e exposição de fotografias do autor assinada por Dulce Helfer; e, na Biblioteca Pública do Estado, a escolha, pelo Clube da Leitura, de duas obras de Caio F., Morangos Mofados e O Ovo Apunhalado. E, evidentemente, muitas lamentações pela casa onde o escritor viveu seus últimos dias, um sobrado estilo espanhol, na Rua Oscar Bittencourt, número 12, no Bairro Menino Deus, não ter sido tombada e nem virado Casa de Cultura, apesar da movimentação nesse sentido, acabando por ser demolida em 2022.
Eu, imagino, que, nessa ocasião, é oportuno resgatar a matéria sobre Caio Fernando Abreu, que saiu publicada, na Revista Aplauso (Ano 5, n.º 45, p. 28-34, 2003), assinada pelo jornalista Paulo César Teixeira, o Foguinho. Na época, veio no rastro do lançamento, em 2002, pela Editora Aeroplano, do livro Caio Fernando Abreu: Cartas, organizado por Italo Moriconi. Essa obra ganharia nova edição, no formato e-Book, com acréscimo de outras cartas, em 2016.
Publicações de diários e de cartas de escritores é ainda um gênero literário de pouca tradição no Brasil, apesar de consolidado no exterior. Há quem torça os olhos para esse tipo de obra. Quer seja por considerar mera bisbilhotice da vida alheia ou, quando a morte é recente, pelo fato de algumas citações causarem constrangimentos para pessoas ainda vivas. Nesse último caso, os editores geralmente tomam o cuidado de omitirem as passagens mais comprometedoras ou se valem do recurso da criação de nomes fictícios ou da divulgação apenas das iniciais. O que nem sempre é uma garantia de proteção da privacidade dos envolvidos, pois a contextualização de acontecimentos e de épocas, sem grande esforço, em certos casos, permite a identificação dos personagens reais. De qualquer forma, como bem frisou o professor do Instituto de Letras da UFRGS, Luís Augusto Fischer, na referida matéria do Paulo César Teixeira: “Se o remetente vale a pena, a exemplo de Caio, a cultura agradece”. E, no fundo mesmo, o maior mérito, desse tipo de obra, é angariar novos leitores para os escritores envolvidos.
Caio Fernando Abreu morreu em 1996, aos 47 anos, em decorrência de complicações associadas com o vírus HIV. Era natural de Santiago e veio para Porto Alegre em 1965, com 17 anos, para estudar no IPA. Em 1969 foi para São Paulo, integrando a primeira turma de jornalistas (escolhida a dedo por Mino Carta) da recém-criada, na ocasião, revista Veja. Publicou 18 livros no Brasil, sendo que alguns ganharam traduções na França, na Itália, na Alemanha, na Holanda e nos Estados Unidos da América. Os mais conhecidos do grande público, provavelmente, sejam as coletâneas de contos Morangos Mofados, O Ovo Apunhalado e Mel e Girassóis; a seleta de textos Ovelhas Negras; o infantil As Frangas; e o romance Onde andará Dulce Veiga? Os Dragões não Conhecem o Paraíso, traduzido para o inglês e para o francês, talvez seja o maior sucesso de Caio F. fora do Brasil.
Caio pode ser considerado um dos ícones da geração de 1968. Uma turma que sucumbiu ao tentar inventar um novo modelo de sexualidade, família e trabalho. Era um pessoal adepto da psicanálise, que usava drogas e escolhia outras opções sexuais para sair do padrão; conforme explicação dada por Heloísa Buarque de Hollanda/Heloisa Teixeira (1939-2025), dona da Aeroplano, justificando a publicação da correspondência de Caio F. como uma forma de contar a história daquela geração que ganhou notoriedade a partir do movimento desencadeado em Paris, no final dos anos 1960.
Pela descrição dos amigos, a alternância de humor era uma das marcas da personalidade de Caio F. Tinha períodos de depressão e momentos de alto astral. Sabia ser encantador ou insuportável, quando queria. Também, nunca escondeu sua orientação sexual, embora evitasse levantar bandeiras e considerasse os guetos homossexuais “burros e chatos”. Tinha uma espécie de humor ácido, a ironia era uma das suas marcas. Um bom exemplo foi o que disse, um ano antes de morrer, quando foi patrono da Feira do Livro de Porto Alegre: “Mas essa é uma homenagem para mortos?”
Quando teve certeza que era soropositivo para o HIV, procurou encarar a situação com naturalidade. Depois quase enlouqueceu, tentando se jogar pela janela. Passado o impacto, contou em detalhes o ocorrido aos leitores de suas crônicas no jornal o Estado de S. Paulo. Voltou a morar na casa dos pais, no bairro Menino Deus, em Porto Alegre. E, em 1996, morreu.
A melhor síntese de Caio F. foi feita por ele mesmo, em entrevista à revista IstoÉ, em julho de 1995: “Nos anos 50, andei de moto e dancei muito rock-n’-roll. Nos 60, apanhei e fui preso como comunista. Depois, virei hippie e experimentei todas as drogas. Passei por uma fase punk e outra dance. Portanto, o HIV é simplesmente a face da minha morte. E é coerente com a vida que tive e o tipo de pessoa que sou”.
Uma boa fonte sobre Caio Fernando Abreu é o livro da jornalista Paula Dip, Para sempre teu, Caio F., publicado em 2009, que reúne reminiscências que a autora compartilhou com o escritor, além de depoimentos de pessoas importantes na vida de Caio.
(P.S.: Texto atualizado a partir de coluna originalmente publicada em 31 de março de 2003.)
SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura


