OPINIÃO

OS CELULARES E A GERAÇÃO ZUMBI

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Preocupação crescente e um pai irritado

A preocupação com os efeitos prejudiciais do uso de celulares entre crianças e adolescentes ganha força em diversos países. Especialistas alertam para o avanço do vício digital e seus impactos no desenvolvimento das futuras gerações — tema explorado pelo psicólogo Jonathan Haidt no livro A Geração Ansiosa. Recentemente, a imprensa noticiou que o ator inglês Hugh Grant criticou as escolas porque, segundo ele, elas estariam contribuindo para o aumento da dependência de telas. Grant aderiu a uma campanha que defende a retirada de celulares, laptops e tablets das salas de aula. “Sou apenas mais um pai irritado travando uma longa, exaustiva e deprimente batalha contra crianças que só querem ficar em frente a uma tela”, afirmou o ator, que é pai de cinco filhos.

Geração Zumbi

           Javier Albarez, especialista em neurofisiologia clínica, lançou há cerca de dois meses o livro Geração Zumbi (Generación Zombie). Ele afirma que estamos criando uma geração de “zumbis”, jovens que caminham pelas ruas totalmente absorvidos pela luz dos celulares. O médico espanhol, referência em medicina do sono e pai de dois filhos, alerta para os efeitos do uso excessivo de dispositivos eletrônicos por crianças e adolescentes. Segundo Álvarez, os prejuízos ao sono e ao desenvolvimento físico, hormonal e emocional dos menores tornam‑se cada vez mais evidentes.          

Uma droga potente e perigosa

           Segundo a psiquiatra americana Anna Lembke, autora de Nação Dopamina e referência em medicina do vício, celulares, internet e redes sociais atuam como drogas potentes. Elas acionam os mesmos circuitos cerebrais estimulados por substâncias como álcool e cocaína, liberando dopamina no sistema de recompensa — mecanismo que aumenta o potencial de dependência. Lembke destaca que se trata de uma adição silenciosa, cujos efeitos podem passar despercebidos por longos períodos. “Não deixa cadáveres”, diz ela. O médico espanhol Javier Albares reforça a gravidade do problema: exames de ressonância magnética de pessoas viciadas no mundo digital, afirma ele, são muito semelhantes aos de usuários de outras drogas.

Ansiedade e depressão

           Cada vez mais crianças dormem mal, isolam‑se do convívio e apresentam dificuldade até para manter a atenção em uma conversa. Especialistas afirmam que isso não é coincidência: o tempo excessivo diante das telas tem sobrecarregado jovens e se tornou um dos principais obstáculos ao desenvolvimento saudável na infância e na adolescência. Quanto maior o acesso aos celulares, maior a frustração e o sentimento de vazio — e, em casos mais graves, esse padrão pode estimular comportamentos suicidas. O uso prolongado também rouba horas de sono, aumenta os despertares noturnos e reduz tanto a qualidade quanto a quantidade de descanso.

Taxas recordes de depressão e ansiedade

Muitas crianças e adolescentes pegam o celular assim que acordam; alguns dormem com o aparelho sob o travesseiro e chegam a responder mensagens durante a madrugada. Os dispositivos eletrônicos tornaram‑se grandes ladrões do sono infantil — essencial para a maturação cerebral. Com isso, jovens vão para a cama mais tarde, dormem menos e descansam pior. As consequências já aparecem: aumento de casos de depressão, ansiedade, automutilação, desatenção, sensação de vazio e perda de propósito, além de mais transtornos de personalidade.

E nós, adultos?

O escritor britânico Douglas Murray observa que, se nós, adultos, formos honestos, reconheceremos que a maioria de nós já se deixou enredar pelos celulares e dispositivos — ou, ao menos, cultiva com eles uma relação que beira o insalubre. Todos nós já vivemos a experiência de conversar com um amigo que, de repente, se perde no celular. Passamos cada vez mais tempo nas redes sociais, lemos cada vez menos livros.

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