OPINIÃO

INTERNET VERSUS LIVRO

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Queima de livros

No romance Fahrenheit 451, publicado em 1953, o escritor americano Ray Bradbury (1920–2012) imagina uma sociedade futura em que os livros são considerados uma ameaça à ordem social e, por isso, são sistematicamente queimados. Nesse regime totalitário, a leitura e o pensamento profundo são vistos como atos subversivos. Quem é flagrado lendo pode até ser enviado a um hospício. Bradbury nutria profundo amor pelos livros e pelas bibliotecas. Afirmava que sua obra não tratava apenas de censura, mas expressava a inquietação de que a televisão pudesse destruir o interesse pela leitura. Temia que a sociedade se deixasse absorver por telas e distrações superficiais, perdendo gradualmente a capacidade de reflexão.

Abandono dos livros

Niall Ferguson, historiador escocês, afirma que os livros não precisam ser queimados em uma tirania política, como imaginou Ray Bradbury em Fahrenheit 451. Sem fogueiras, a própria sociedade de consumo mostrou-se eficiente em nos afastar da leitura, sobretudo com o advento da era digital — em especial a internet e as chamadas redes sociais. Para Bradbury, o crime maior do que queimar livros é não lê-los. Não por acaso, o grande poeta gaúcho Mário Quintana dizia que o pior analfabeto é aquele que sabe ler, mas não lê.

Menos leitores

Ferguson cita uma pesquisa segundo a qual, em 1984, apenas 8% dos jovens de 13 anos diziam nunca ou quase nunca ler. Em 2023, esse índice saltou para 31%. No Brasil, o cenário também preocupa: mais da metade (53%) dos entrevistados pela pesquisa Retratos da Leitura no Brasil de 2024 não leu sequer parte de um livro nos três meses anteriores ao levantamento, segundo dados divulgados pelo G1 em 19/11/2024. A tendência não é exclusiva de países com baixa escolaridade. Mesmo nos Estados Unidos e em nações europeias, onde o acesso à educação é amplo, adolescentes têm lido menos por prazer do que há uma ou duas décadas. O tempo antes dedicado à leitura literária vem sendo substituído por um consumo digital fragmentado — mensagens instantâneas, vídeos curtos e redes sociais.

Destruição do passado

           A cultura de massa e a velocidade da informação têm favorecido a substituição de narrativas históricas por versões simplificadas, o que especialistas veem como ameaça à democracia. Eric Hobsbawm (1917–2012) já alertava para essa “destruição do passado” em Era dos Extremos, apontando a ruptura dos vínculos entre gerações como um dos problemas mais graves do século XX. O desconhecimento histórico, afirmam estudiosos, enfraquece a identidade coletiva e compromete a compreensão de quem somos enquanto sociedade. A memória histórica é igualmente vital para a cidadania: sem ela, cresce a vulnerabilidade à manipulação ideológica e à repetição de tragédias políticas e sociais.

Desconhecimento do passado

            Diversos pensadores alertam para os riscos do desconhecimento histórico. Regimes autoritários exploram essa ignorância para reescrever fatos e justificar atrocidades. George Santayana (1863–1952) sintetizou o perigo ao afirmar que “quem não conhece o passado está condenado a repeti-lo”. Hannah Arendt (1906–1975), em Origens do Totalitarismo, também via o esquecimento como base para o avanço do autoritarismo. Zygmunt Bauman (1925–2017) descreveu nossa época como dominada pelo “presenteísmo”, em que tudo é efêmero. A memória histórica precisa ser preservada ou desaparece.

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