OPINIÃO

Olha o Super El Niño aí, gente!

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Um olhar, por mais superficial que seja, nos títulos das manchetes dos veículos de comunicação, no Brasil e no exterior, que alardeiam a volta de El Niño em 2026 não escapa, até pelo enredo que é posto, invariavelmente trágico, da conclusão inevitável de similaridade com o famoso grito de guerra imortalizado pelo Neguinho da Beija-Flor (Olha a Beija-Flor aí, gente! Chora, cavaco!) quando a famosa Escola de Samba de Nilópolis entrava para desfilar na passarela do samba, no Rio de Janeiro. Essa é a melhor forma de lidar com El Niño? Será que convivendo, conscientes pelo menos, com a presença de El Niño e seus impactos no mundo, desde 1983, ainda não estamos preparados para o entendimento desse fenômeno e fazer bom uso das previsões climáticas? Afinal, o papel dos veículos comunicação, nas suas mais diversas mídias, é esse mesmo? O quê, de fato, está sendo previsto? Diante do cenário ora posto, o quê fazer? E o quê não fazer?

Indiscutivelmente, o adjetivo “Super” El Niño e o rótulo de El Niño Godzilla, que têm aparecido nas manchetes, para muita gente, que vive em regiões afetadas, seja por enchentes ou por secas severas, ou que teve a sua atividade econômica, caso da agricultura, impactada, em anos de El Niño, podem ser fontes de ansiedade e dar azo a tomada de decisões equivocadas. O adjetivo “Super”, embora seja uma categorização usada na comunidade científica desde que foi criada por Li-Ciao Hong, no trabalho de pesquisa que deu origem à sua tese de doutorado pela Universidade Nacional de Taiwan, em Taipei, posteriormente publicado na revista Geophysical Research Letters (Geophys. Res. Lett., 41, 2142-2149, 2014, doi:10.1002/2014GL059370), sob o título “A Southern Hemisphere booster of super El Niño”, e, em 2016, no formato de livro, apenas como “Super El Niño”, na série de teses destaques da Springer (Recognizing Outstanding Ph.D. Research), pode causar confusão de entendimento na maioria das pessoas. O que Li-Ciao Hong identificou foi uma classe distinta de eventos El Niños, que, além da magnitude da anomalia de temperatura da superfície das águas do Oceano Pacífico equatorial e dos impactos no clima global, é marcada por um padrão de circulação atmosférica no Hemisfério Sul, nos baixos níveis, que intensifica os ventos de Oeste sobre o Oceano Pacífico. Nessa categoria, de Super El Niños, o autor citado, incluiu os eventos de 1972/73, 1982/83 e 1997/98, não casualmente os mais fortes do século XX. Eis uma das fontes de preocupação quando se fala em “Super” El Niño! E, ainda, sem ignorar a tragédia climática, de memória recente e de triste lembrança, a enchente de abril/maio de 2024, no Sul do Brasil, que não pode ser dissociada do El Niño 2023/2024.

A categorização de El Niños, mais adotada atualmente (NOAA-Climate Prediction Center), inclui, em função das anomalias de temperatura da superfície das águas do Oceano Pacífico equatorial (Região Niño 3.4/ Relative Oceanic Niño Index - RONI), eventos de intensidade fraca (0,5 ºC ≤ Index RONI <1,0 ºC); moderada (1,0 ºC ≤ Index RONI <1,5 ºC); forte (1,5 ºC ≤ Index RONI <2,0 ºC); e muito forte (Index RONI ≥ 2,0 ºC). A força da intensidade do El Niño não significa, necessariamente, quando forte ou muito forte, que os impactos no clima serão severos; mas, sim, que é mais provável que esse tipo de impacto extremo possa ocorrer. Além de, não se ignorar, que previsão de El Niño é uma coisa e previsão de impacto de El Niño é outra.

Outra particularidade, não irrelevante, é que a previsão de El Niño feita no início do outono do Hemisférios Sul carrega maior incerteza, no quesito intensidade, quando comparada com as de início de inverno. Todavia, as previsões do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF) sinalizam, claramente, a tendência que teremos um El Niño e esse, mesmo que não venha a ser um “Super” El Niño, poderá ser um evento forte. Esse El Niño deverá se estabelecer no segundo semestre de 2026 e atingir seu pico no começo de 2027. O Centro de Previsão Climática dos EUA (NOAA-Climate Prediction Center) também é taxativo na volta de E Niño no segundo semestre de 2026. Merece ser destacado ainda, que, pela magnitude da temperatura das águas subsuperficiais que ora migram, via as chamadas Ondas de Kelvin, rumo a costa Oeste da América do Sul, na faixa de 300 m de profundidade no Oceano Pacífico, atingiram, no começo de abril, uma anomalia de 1,6 ºC. Esse fato, somado às anomalias de vento de Oeste na zona equatorial do Oceano Pacífico, reforçando o processo, indica que; SIM, é possível a configuração de um evento El Niño forte até o final do ano.

Apesar de alguns negarem com veemência, inclusive que o processo esteja em curso, em tempos de aquecimento global, a frequência, a intensidade e a dimensão dos impactos causados por El Niño não podem ser dissociadas.

O El Niño 2026/2027 será um “Super” El Niño? Logo, logo saberemos! Então, o quê fazer? Buscar informações confiáveis, descartar sensacionalismos de ocasião e montar, de acordo com a sua atividade econômica, uma estratégia de gestão integrada de riscos. Não é a primeira e nem será a última vez que enfrentaremos um El Niño.

SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura

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