OPINIÃO

Artes Nádegas

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“A bunda, que engraçada.

Está sempre sorrindo, nunca é trágica.”

Discordo de Carlos Drummond de Andrade.

Tenho observado com especial interesse alguns traseiros masculinos.

Interessam-me os pares de nádegas de sujeitos alinhados à minha faixa etária.

Existe algo de profundamente triste em nossas bundas maduras.

Falta-lhes a ambição das cartilagens, a insubordinação das orelhas, a empáfia dos narizes, que jamais se subtraem ao encolhimento da carne nem às rabugices da idade.

Nossas bundas rendem-se cedo demais. Acanham-se em suas bandas de bochechas murchas, condenadas ao cadafalso do fundilho das calças, até degringolar do antigo orgulho do cóccix ao vão de um vexatório cofrinho.

Por mais que o resto do corpo persista em disfarçar certa normalidade numa rotina impregnada de academia, creatina e proteína, é a bunda nossa pior desertora — caçoa silenciosamente dos bíceps esmilinguidos enquanto joga dominó com outras bundas aposentadas no banco da praça.

Todo cinquentão é um usurpador cultural dos pintores, eletricistas e pensionistas.

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Talvez a bunda feminina nos fascine porque interrompe a monotonia geométrica do corpo humano.

Nossa anatomia é amplamente composta de infraestrutura: colunas, eixos, dobradiças, longos corredores ósseos desenhados para suportar peso e deslocamento. O fêmur que nos sustenta não passa de uma BR-101 anatômica — extensa, pragmática, precária e urgente de reparos constantes.

Então surgem as nádegas como um breve deslocamento lúdico: duas curvas voluptuosas no meio de um projeto executivo.

Como Oscar Niemeyer interferindo no racionalismo soviético de Moisei Ginzburg.

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Os gregos sempre foram especialmente afeitos às artes nádegas. Havia no mundo clássico um genuíno encantamento pelos glúteos masculinos — atléticos, heroicos, quase litúrgicos. A tradição atravessou séculos até encontrar seu epítome em Davi, de Michelangelo, cuja retaguarda renascentista finamente lapidada em mármore de Carrara talvez seja uma das mais ambiciosas já produzidas pela civilização ocidental. Sua bunda foi índice de juventude, vigor e perfeição física.

Para alívio do ator Juliano Cazarré, os romanos também esculpiram sua bunda-prima feminina.

Vênus Calipígia é a “Vênus das belas nádegas”. Em sua célebre representação em pedra, a deusa vira o corpo para contemplar o próprio traseiro, no que o sincretismo contemporâneo encontrou seu perfeito análogo na Kim Kardashian.

Havia uma dignidade glútea no mundo antigo que perdemos entre escritórios, cadeiras ergonômicas ou ao volante de algum Porsche, antes de ser devidamente confiscado pela polícia em mais uma etapa da Operação Pólis ou Consortium contra a lavagem de dinheiro e o golpe do bilhete premiado.

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O glúteo máximo é o maior músculo do corpo humano.

Durante milênios, a bunda humana foi puro equipamento. Tecnologia locomotiva de ponta. Um acessório de guerra. Foi ela quem ajudou nossos antepassados a estabilizar a postura ereta, atravessar savanas, perseguir caça, flertar com seus tacapes e fugir da gula dos mamutes sem desmontar a lombar pelo caminho.

O coração, em contrapartida, era apenas um músculo periférico e pouco promissor.

Até Wando unir o melhor dos dois músculos.

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