OPINIÃO

Jornalizar é preciso

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Quando uma cidade tem uma dívida impagável com um evento que a projetou para lugares nunca antes imaginados, inclusive facultando-lhe o recebimento do título de “Capital Nacional da Literatura”, nada mais justo, nesse momento de retomada das Jornadas Nacionais de Literatura em Passo Fundo, que abraçar a causa do projeto “Jornada em Movimento”, ora capitaneado pela Universidade de Passo Fundo. O objetivo é nobre. Formar leitores e celebrar a memória das Jornadas Literárias, preparando a volta desse grande evento do mundo das letras em 2027.

Que dívida seria essa de Passo Fundo com as Jornadas Literárias, pode estar se indagando o incauto leitor? Ouso afirmar que é impagável, uma vez que o seu maior legado é de natureza infungível. Como substituir ou atribuir valor à presença na cidade de grandes atores da literatura e da cultura mundial contemporânea trazidos a Passo Fundo pelas Jornadas Nacionais de Literatura? Quem imaginaria um dia ver por essas paragens nomes como Edgar Morin, Jostein Gaarder, Carlo Ginzburg, Mia Couto, Antônio Skármeta, Pierre Lévy, Gonçalo Tavares, Alberto Manguel e muitos outros. E sem ignorar a plêiade de escritores e intelectuais brasileiros que marcaram ponto nas Jornadas Literárias de Passo Fundo, a exemplo dos gaúchos Josué Guimarães e Moacy Scliar, além de destaques nacionais como Ariano Suassuna, Milton Hatoum e o bibliófilo José Mindlin. Mas, por minha conta e risco, se fosse possível definir o principal legado deixado pelas Jornadas Literárias para Passo Fundo, a par de toda a movimentação cultural que promovia, eu escolheria a formação de uma geração de passo-fundenses melhor preparada intelectualmente, pela participação das crianças em idade escolar nas Jornadinhas Nacionais de Literatura. Esse, pessoas melhor preparadas, sem qualquer dúvida, foi um legado imensurável deixado pelas Jornadas Literárias e, oxalá, um dia possa ser resgatado.

Uma história que começou, possivelmente sem a pretensão da grandiosidade que um dia viria atingir, em 1981, com a 1ª Jornada de Literatura Sul-Rio-Grandense; seguiria, dois anos depois, em 1983, com a 1ª Jornada Nacional de Literatura Brasileira e 2ª Jornada de Literatura Sul-Rio-Grandense; teria continuidade, em 1985, com a 2ª Jornada Nacional de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira; assumindo, de vez, em 1988, a identidade de jornada nacional, com a 3ª Jornada Nacional de Literatura; sendo mantida a denominação em ordem sequencial, nas edições de 1991, 1993, 1995, 1997, 1999, 2001, 2003, 2005, 2007, 2009, 2011, 2013; até a derradeira jornada dessa primeira fase, a 16ª edição, em 2017. Josué Guimarães, figura de proa no início dessa movimentação cultural, foi o coordenador dos debates, nas edições de 1981, 1983 e 1985. Seria sucedido pro Moacyr Scliar, no evento de 1988. A coordenação seria assumida por nomes nacionais na 4ª Jornada Nacional de Literatura, em 1991, com Eric Nepomuceno e Ignácio de Loyola Brandão. A história completa desse monumental evento pode ser acompanhada no Portal das Jornadas Literárias da UPF (http://jornadasliterarias.upf.br/).

O número de escritores presentes, começou com nove, na 1ª Jornada de Literatura Sul-Rio-Grandense, em 1981, cresceria a cada edição, atingindo a cifra de 113 escritores presentes (primeira e única a ultrapassar uma centena), na 15ª Jornada Nacional de Literatura, em 2013. Os cinco nomes que mais participaram de jornadas, identificados com uso de IA, são: Ignácio de Loyola Brandão (9 participações); Alcione Araújo (7 participações); Affonso Romano de Sant’Anna (6 participações); Deonísio da Silva (6 participações) e Júlio Diniz (5 participações).

O edital para a seleção de propostas ligadas à formação de clubes de leitura, ações de medição leitora e projetos escolares de leitura que promovam práticas de incentivo à leitura, alinhadas com a memória dos 45 anos das Jornadas Literárias de Passo Fundo, continua aberto. Na primeira fase, foram selecionadas 17 iniciativas, apresentadas por três escolas da rede privada local, Colégio Marista Conceição, IE Instituto Educacional e Instituto Redentorista Menino Deus; por duas escolas da rede estadual, a Escola Estadual de Ensino Médio Antonino Xavier e Oliveira, de Passo Fundo, e a Escola Estadual de Ensino Fundamental Carlos Becker, de Alpestre, RS; por uma escola da rede municipal local, EMEF Daniel Dipp; e três unidades ligadas à Universidade de Passo Fundo, o Centro de Ensino Médio Integrado UPF e as Faculdades de Arquitetura e Urbanismo e de Letras. É pouco. Podemos fazer mais pela volta das Jornadas Literárias. Inspirado nos famosos versos de Fernando Pessoa, insistimos: Jornalizar é preciso, não com sentido de precisão (usado no navegar do original), mas sim de necessidade.

Nosso carinho e reconhecimento ao trabalho da Profa. Tania Rösing, que, indiscutivelmente, deu o seu melhor, à frente do abnegado grupo de professores da UPF, para que essa história das Jornadas Literárias de Passo Fundo chegasse até aqui. De agora em diante, estão no comando deste leme os competentes professores Fabiane Verardi e Miguel Rettenmaier. Boa sorte!

Acesso ao edital para submissão de propostas, pelo link: https://www.upf.br//_uploads/Conteudo/Edital%20de%20Credenciamento%20-%20Jornadas%20Liter%C3%A1rias.pdf

SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura

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