Em 2009, eu e Ronaldo Fenômeno não tínhamos mais nada a provar. Ele ressurgira de um joelho em frangalhos para conquistar a Copa do Mundo de 2002. Eu já manuseava talheres à mesa com relativa destreza e naturalidade.
Ronaldo fora ídolo nos dois maiores clubes da Itália e Espanha; eu passara no teste psicotécnico e manobrava com razoável desenvoltura pelas ruas do Rio um Palio de câmbio manual.
Foi amparado por essa improvável equivalência que Ronaldo desembarcou no Brasil para defender o Corinthians. À época, eu também me ajustava a mudanças bruscas de carreira. Havia um ano vagava como autor-roteirista num programa de televisão sem uma única ideia original que justificasse meu salário.
Ronaldo fora personagem importante no programa bem antes de minha chegada. Lançada sem formato definido, a atração amargava um punhado de quadros e matérias erráticas: excelente acabamento, parco entretenimento e modorrento resultado final.
A virada se deu quando ele topou receber o apresentador em sua casa, em Milão, sem planejamento algum além do puro desespero de tocar-lhe o interfone de supetão. A gentileza em recebê-lo já seria louvável, não fosse o fato de ele ter recém se tornado pai e operado o joelho, numa lesão grave o bastante para colocar em dúvida sua presença na próxima Copa — da qual, felizmente, chegaria ileso e sairia consagrado.
Em 2009, o programa era o mesmo, mas o desesperado era outro. Era eu. E a salvação, outra vez, seria Ronaldo.
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A premissa do quadro parecia simples, como simples parecem todas as boas ideias que morrem rabiscadas em papel: encontrar nos campos da periferia de São Paulo uma escolinha comunitária com um menino corintiano de talento excepcional.
Encontrar também um bom pretexto para gravá-lo em açãoe justificar o interesse repentino do apresentador por sua história em particular. Interesse que redundaria num convite ao Museu do Corinthians, onde o até então maior artilheiro da história das Copas do Mundo esperaria imóvel, em posição de estátua, por tempo suficiente até o menino percorrer todo o espaço, antes de posar ao seu lado — no caso, sua versão em cera encantada.
Ao que, depois do inevitável susto com a estátua do ídolo a ganhar vida, Ronaldo o assustaria ainda mais um bocado ao convidá-lo para um teste nas categorias de base do clube, sob o olhar atento do próprio Fenômeno à beira do gramado.
Uma câmera exclusiva estenderia o breve instante em longos segundos de câmera lenta na edição, ao som de uma trilha dramática, sensível e apelativa sem ser vulgar.
Absolute TV.
(Ou, se preferir: sensacionalismo com responsabilidade.)
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Pois Ronaldo não apenas topou como foi decisivo ao se posicionar ao lado da produção. Enfrentávamos alguma resistência da direção corintiana em aceitar o menino por pelo menos um mês de testes, à revelia de seu desempenho em campo.
Afinal, uma eventual recusa, diante de milhões de telespectadores, bastaria para produzir traumas incalculáveis.
Talvez não tanto ao menino quanto a mim.
Por sorte, foi um sucesso, inaugurando um quadro que teria ainda participações futuras de nomes como Ronaldinho Gaúcho, Marta, Kaká e Neymar.
O menino foi contratado, eu não fui demitido e Ronaldo foi campeão da Copa do Brasil, com direito a gol no final.
Infelizmente, contra o Internacional.
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A Copa de 2014, no Brasil, coincidiu com meu primeiro ano no cargo de roteirista-chefe. Agora não me bastava agonizar contra minhas próprias ideias; deveria agonizar contra as de uma equipe inteira de degenerados.
A mais esdrúxula nos ocorreu num misto de epifania e delírio coletivo: existiria algum canto remoto do país onde as pessoas simplesmente não soubessem o que é futebol?
A interrogação me levou a Brasília, em sucessivas idas à burocracia federal para uma negociação complexa com a Funai.
Depois de transtornar o sonho das crianças, chegara a vez de atrapalhar o sossego dos povos originários.
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O aceite dependia de uma logística complicada: um emissário levaria o pedido à aldeia e traria a resposta semanas depois. Se positiva, teríamos de estar disponíveis na data por eles determinada — o que, embora razoável, era também arriscado para um programa de agenda confusa e ajustada.
A tribo que nos aceitou foi a dos Zo’é, nas profundezas do Pará, já então lindamente registrada pelas lentes do fotógrafo Sebastião Salgado.
A data não poderia ser mais apropriada.
Foi quando me ocorreu o óbvio: e se levássemos o Ronaldo?
Pois, novamente, ele não apenas topou como passou dois dias bastante à vontade naquela inédita condição de anonimato.
Ao final da matéria, chegou sua vez de apresentar o futebol a nossos gentis anfitriões da floresta.
Sacou uma bola e fez algumas embaixadinhas diante de uma seleta plateia de trezentas almas pouco impressionadas com sua habilidade.
Em questão de segundos, uma chuva de flechas atravessou o objeto, que caiu morto ao chão, murcho e miserável.
Seu olhar era de absoluto espanto.
O meu, de absoluto agrado.
Talvez porque lhe fosse grato por tudo; talvez apenas porque não tivesse digerido muito bem aquela derrota do colorado.


