Da leitura de uma biografia, mais do que detalhes menores da vida pessoal do biografado, que seriam de interesse exclusivo dele e dos seus amigos e familiares, pode-se depreender, a partir do seu entorno, informações por demais relevantes para a compreensão histórica de uma sociedade e seu tempo. Esse é caso das notas biográficas do passo-fundense Paulo Roberto Sandri Pires recém-publicadas no volume 8 do caderno Memórias, que é editado pela Associação dos Procuradores do Estado do Rio Grande do Sul (APERGS), com o intuito de contar a história de quem fez a história da Procuradoria-Geral do Estado. E esse, indubitavelmente, é o caso do Dr. Paulo Pires que, inclusive, quando à frente da APERGS, foi o criador da série Memórias.
Paulo Roberto Sandri Pires nasceu em Passo Fundo em 10 de abril de 1940. Filho do casal Nilo Estivalet Pires e Clotilde de Simoni Sandri. Ele era contador ou guarda-livros e, em função da profissão, a família alternava períodos em Porto Alegre, Santa Maria e Passo Fundo. Até que se radicaram em Palmeira das Missões, pelo trabalho do pai, ligado à Indústria Palmeirense do Mate. De lá foram para Santo Augusto e, posteriormente, para Três Passos, onde Nilo seria eleito vereador e ocuparia o posto de assessor da administração municipal, além de desempenhar variadas funções na sociedade local. A família cresceu com a chegada dos irmão João Carlos (in memoriam), Maria Elizabeth e Jorge Alberto (in memoriam). Aos 12 anos, Paulo Pires vai estudar em Cruz Alta, em regime de internato, no Colégio Marista Cristo Redentor. Nessa época, nasceu a sua paixão pelo rádio, o microfone simbolizado pela voz, formatou a sua base cultural pela leitura dos clássicos das letras francesas (Victor Hugo, Alexandre Dumas, Proust e Júlio Verne), além de ter a personalidade moldada pelos valores maristas ligados a religiosidade, generosidade, empatia e respeito pelo social, a par de ter enraizadas as suas convicções políticas e filosóficas. Ainda, aflorou a vocação de escritor e poeta. Além de ter se destacado como exímio orador e datilógrafo (o teclado que o levaria ao jornalismo).
A vida da família Pires-Sandri sofreu um revés em dezembro de 1956, quando, vitimado por um infarto fulminante, Nilo Pires morreu aos 45 anos. Seria sepultado em Três Passos, tendo sido, anos depois, transladado para Passo Fundo. A ajuda de parentes próximos, tios especialmente, foi fundamental para a volta da família a Passo Fundo. E foi na terra natal que Paulo Pires passou a atuar no movimento estudantil da época. Concluiu a formação ginasial pelo Ginásio Estadual Osvaldo Cruz, tendo sido orador nos festejos do Centenário de Passo Fundo, em 1957, quando proferiu o histórico discurso: “Aquilo que os nossos ancestrais fizeram em 100 anos, devemos fazê-lo em 50, porque um povo instruído intelectualmente estará apto para trabalhar com maior eficácia”.
Paulo Pires, em Passo Fundo, virou figura de proa no movimento estudantil. Assumiu a presidência da União Passo-Fundense de Estudantes (UPE) e, em 1960, tornou-se vice-presidente da União Gaúcha de Estudantes Secundários (UGES); concluiu, em 1961, o Curso Científico no Colégio Marista Conceição e, em 1962, começou a Faculdade de Direito. Paralelamente, de 1962 a 1968, trabalhou como auxiliar administrativo na Inspetoria de Terras/Instituto de Reforma Agrária da Secretaria da Agricultura, foi professor no EENAV e no Cecy Leite Costa, redator e locutor nas rádios Municipal e Passo Fundo e redator no jornal O NACIONAL.
Na Faculdade de Direito, Paulo Pires assumiu a presidência da Federação Universitária Passo-Fundense, que seria o embrião do Diretório Central dos Estudantes da futura UPF, dando início à campanha pela federalização dos cursos superiores em Passo Fundo. Não vingou. Em vez de uma instituição federal, surgiria uma comunitária, a UPF, em 1968. O ensino público federal chegaria no século XXI com os campi da saúde da UFFS e tecnológico do IFSul.
Envolvido com a política local, Paulo Pires concorreu a vereador na eleição de 1963, pelo MTR, logrando 515 votos e ficando na suplência. O prefeito eleito foi o empresário Mário Menegaz. Paulo Pires assumiu a Secretaria de Administração da Prefeitura e, como suplente, também chegou a ocupar a cadeira de vereador. Lutou pela criação de vagas nos estabelecimentos públicos de ensino, que estavam represadas (e conseguiu, com a criação de 500 novas vagas no G. E. Protásio Alves). Em função de discurso contrário à apreensão da edição de O NACIONAL de 27 e março de 1965 e a prisão do jornalista João Freitas, que irritou o Major Grei Belles, comandante da guarnição local do Exército, sob a acusação de comunistoide nas páginas do Diário da Manhã, foi pressionado a renunciar ao cargo na administração municipal. Assumiu a gerência da Rádio Municipal e a direção do Hospital Municipal. Marcou época na Rádio Municipal, com a transmissão ao vivo do Concurso Miss Brasil 1968, direto do Maracanzinho, com Passo Fundo representado por Elizabeth Finardi.
No pleito de 1968, desta feita pela ARENA, Paulo Pires foi eleito vereador com 934 votos. Para surpresa, nomes que, até então, antes da implementação do bipartidarismo, com MDB (oposição) e ARENA (situação), eram ligados ao PTB e depois ao MTR, como Augusto Trein, Romeu Martinelli e o próprio Paulo Pires, para desespero dos situacionistas raiz, caso de Anildo Sarturi, que, no seu livro de memórias faz críticas fortes ao acontecido, migram para a ARENA. Começava a pavimentação do caminho da ida de Paulo Pires para Porto Alegre.
Uma vez formado em Direito, atuando em escritório privado e com forte atuação na política local, Paulo Pires, desta feita na situação, casado com a Sra. Dorimar Trevisan, vai para Porto Alegre onde, sob auspícios dos deputados Augusto Trein, Fernando Gonçalves e Victor Faccioni, assumiu a coordenação da bancada da ARENA na Assembleia Legislativa. A partir de 1974 passa a ocupar a chefia do Gabinete do Vice-Governador Amaral de Souza. E com a ascenção de Amaral de Souza a governador, 1979 a 1983, integrou a equipe de organização do governo e virou titular de uma Secretaria Especial. Concorreu a deputado estadual nas eleições de 1978 e 1982, obtendo votações expressivas. Em1980 deixou o cargo de Secretário Especial e assumiu como diretor de operações da METROPLAN. Em 1982 prestou concurso para Procurador do Estado e foi nomeado em 1986. Passou por São Borja, Passo Fundo e encerrou a carreira, com a aposentadoria em 1993, em Porto Alegre. Voltou atuar na iniciativa privada, com escritório especializado em Direito administrativo e tributário, sendo encarregado pelos sócios, em função das habilidades em oratória (a voz), para fazer sustentações orais nos tribunais. E, com o jubilamento, veio a fase do fotógrafo (a câmera, a imagem) e viajante, que renderam os premiados livros Fora de Rota, de 2009, e Ainda Fora de Rota, de 2016.
Como trilha sonora da sua biografia, Paulo Pires escolheu, para a primeira fase de vida (infância), os versos de Guri, imortalizados na voz de César Passarinho, “...pra que digam quando eu passe: saiu igualzito ao pai!”; da adolescência, ... eu sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco...”. do Belchior; quando adulto, “...e não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais...”, do Raul Seixas e Paulo Coelho; e para o pós-jubilamento, “... e agora, o fim está próximo...eu vivi uma vida completa, eu viajei por toda e qualquer estrada...eu fiz isso do meu jeito”, eternizados por Frank Sinatra.
SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura


