O mito da revolução
Cuba tornou-se mais um exemplo do que Raymond Aron chamou de “mito da revolução”. Esse mito, especialmente em sua formulação marxista, manifesta-se como ocorreu na Rússia czarista, quando os bolcheviques tomaram o poder em 1917, e em Cuba, quando os “jovens guerrilheiros barbudos” liderados por Fidel Castro derrubaram o regime ditatorial e corrupto de Fulgêncio Batista. O mito da revolução funciona como abrigo para o pensamento utópico, um intermediário misterioso e imprevisível entre o real e o ideal. A própria violência que o mito carrega exerce fascínio: ela promete ruptura, purificação e renascimento histórico. Fascina porque parece necessária para “purificar” a história, e intimida porque legitima a suspensão de direitos em nome de um futuro que nunca chega.
Reformas sociais democráticas não provocam o entusiasmo
É justamente essa combinação de promessa e brutalidade que produz o entusiasmo quase religioso em torno das revoluções. Reformas democráticas, como o trabalhismo britânico ou a social-democracia escandinava, não despertam o mesmo fervor porque não oferecem a fantasia da “tábua rasa”. Elas exigem negociação, compromisso, paciência — virtudes políticas que raramente inflamam a imaginação. O mito revolucionário, ao contrário, seduz pela simplicidade: identifica um inimigo absoluto, promete sua eliminação e apresenta a violência como instrumento de redenção. Basta eliminar o inimigo, destruir o velho mundo e acreditar que o novo surgirá automaticamente.
O mito revolucionário é uma blindagem ideológica
O mito revolucionário funciona como uma blindagem ideológica: ele permite justificar qualquer medida — censura, prisões, expurgos, vigilância — em nome de um futuro radiante que nunca se concretiza. A violência, longe de ser um acidente, é tratada como instrumento legítimo de engenharia social. Na Rússia, isso significou a Cheka, os Gulags e a coletivização forçada; em Cuba, significou comitês de vigilância, perseguição a dissidentes, campos de trabalho e a dependência estrutural de uma potência estrangeira.
O mito da revolução congela o tempo
Regimes revolucionários tornam-se obcecados em preservar sua legitimidade original, usando a “revolução” como justificativa permanente para a ausência de liberdades. A Rússia soviética manteve por décadas o discurso de 1917; Cuba, até hoje, sustenta sua legitimidade na narrativa de 1959. O passado heroico substitui o presente real. O mito da revolução torna-se um mecanismo de perpetuação do poder. Cria uma poderosa narrativa que permite aos governantes de apresentarem como libertadores mesmo quando reproduzem — ou ampliam — os mecanismos de opressão que diziam combater.
Utopias que se tornaram tragédias
As grandes revoluções do século 20 — a russa, a chinesa e a cubana — e mesmo a francesa do século 18, movidas pela utopia de criar uma sociedade e um “homem novo”, terminaram em tragédias monumentais. Apostaram na benevolência e na sabedoria humanas, mas revelaram, em escala ampliada, as naturais e comuns fraquezas humanas: dominação, ambição, autoengano. Como observa Steven Pinker, “a ambição de refazer a natureza humana transformou seus líderes em déspotas totalitários e assassinos”, e a crença de que planejadores centrais eram moralmente neutros e cognitivamente capazes de dirigir toda uma economia produziu “cômicas ineficiências com consequências graves”. Karl Popper resumiu muito bem esse drama histórico: “Os que nos prometem o paraíso na Terra nunca produziram nada além de um inferno.”

