OPINIÃO

Da pele pra dentro

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Por quase meio século, passei alheio e ileso ao que me acontecia da pele pra dentro.

Foi um erro.

Tivesse planejado de modo decente, hoje estaria com tempo dedicado apenas ao que se espera de um sujeito às vésperas de consagrar o ridículo dos cinquenta anos: prospectar, com calma, qual a melhor tinta capilar destoaria de meus fios grisalhos de barba.

É comovente o embate do homem de meia-idade contra a sua aparência.

A quem de início se espia um certo desespero estético, um olhar mais atento revela a mais pura virtude da dignidade.

O equívoco do tempo se remedia, invariavelmente, por algum tom equivocado de acaju.

*

Da pele pra dentro, entretanto, as soluções são muito mais complexas. Segundo consta, fomos construídos por duas hipóteses. Nenhuma delas me conforta.

A ideia de sermos uma fatalidade cósmica nos reduziria a um mero punhado de sujeira espacial. Surgir de uma fatalidade, de certa forma, talvez amenizasse o fatalismo da morte. 

A vida seria uma viagem de chegada prevista e partida marcada.

Mas a razão seria dos niilistas.

Por Deus que seria péssimo que os niilistas tivessem razão.

O criacionismo, em último caso, ao menos nos permitiria nominar um culpado.

*

Da pele pra dentro se acumulam muitas bugigangas. O maior milagre da vida é conseguir operar nesta baderna que mistura alma com nervos, espírito com fígado, consciência com pâncreas.

Seja lá quem nos inventou, o apêndice é a prova de um senso de humor tão violento quanto refinado.

O apêndice é a epítome da dor desnecessária. Pensar em um Deus punitivista nos equipando de um botão de dor aleatória seria tão cruel quanto cogitar um universo tão extraordinário em seus farelos orgânicos querendo nos mandar um recado: lembrem-se dos dinossauros.

*

De resto, da pele pra dentro, todas as outras dores refletem uma causa. Minha infância foi de joelhos ardidos em Mertiolate e cotovelos pintados em Mercurocromo.

A adolescência tapava a fúria dos hormônios no rosto com pomada Minâncora.

O medo se impunha por traumas da superfície. Só havia perigo onde se enxergasse sangue.

O paradoxo de um corpo relativamente saudável fez de mim um adulto disfuncional. Meu despertar para a hipocondria tardia coincide com o fascínio que alguns amigos emprestam aos seus carros espalhafatosos e dialetos corporativos repletos de anglicismos duvidosos, subentendidos de saúde patrimonial. 

O que a eles importa o índice da Bovespa, a mim me encanta um gráfico de hemograma; o que lhes assusta a alta do dólar, o colesterol a mim me apavora.

Enquanto dirigem suas máquinas zero-quilômetro rumo a Balneário Camboriú, manobro um corpo 1978, original de fábrica, a caminho do laboratório.

O sangue é o petróleo do corpo.

Cada um com suas ganâncias.

*

Da pele pra dentro, porém, alguns setores não vinham me funcionando a contento.

A idade costuma se fazer notar pelos orifícios.

A vista se acanha, o fôlego suspira, o intestino se emburra e as orelhas aumentam.

O tempo costuma se fazer sentir pelas curvas do esqueleto.

São muitas dobradiças na geringonça do corpo.

Houve um tempo em que tudo que se revestia de nervo já me botava nervoso.

Articular os quadris podia ser tão difícil quanto articular as ideias.

Trocar a analgesia paliativa pelas vitaminas preventivas foi uma mudança e tanto.

O sujeito que inventou os prefixos vitamínicos deve ser o mesmo que batizou os signos do zodíaco.

Da pele pra dentro, o catálogo dos tipos de magnésio e seus benefícios é uma das novidades mais fascinantes da indústria farmacêutica.

Seja obra de Deus ou acaso do Universo, quem inventou a espécie fez o que pôde.

O magnésio tem feito o resto.

Da pele pra fora, faça a sua parte também.

E lembre-se dos dinossauros antes de pintar os cabelos deacaju.

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