OPINIÃO

O benemérito Ivaldino Tasca

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Quem ousaria imaginar que a mesma instituição que um dia, “gentilmente”, no final dos anos 1960, por razões que a própria razão desconhece, parafraseando Blaise Pascal, convidou o estudante de Direito e Filosofia IvaldinoTasca a se fastar do seu corpo discente, passadas quase seis décadas, receberia, com a merecida pompa, na Sala dos Conselhos da Reitoria, no dia 14 de julho de 2026, o jornalista, editor e escritor Ivaldino Tasca, para lhe outorgar o título de Benemérito da Universidade de Passo Fundo. O destino tem dessas ironias. E que bom que o desfecho, nesse caso, tenha sido esse, pois o legado de Ivaldino Tasca, na comunicação local, seja como jornalista e radialista, e como escritor, acima de tudo no papel de editor, indiscutivelmente, é digno de aplausos. Nossos respeitos à direção da UPF pela escolha do nome de Ivaldino para ser o primeiro agraciado com o título de benemérito da instituição, tomando por base o reconhecimento à sua notável trajetória profissional e à sua incansável dedicação aos registros históricos, em especial da Universidade de Passo Fundo. Que os próximos beneméritos sejam tão merecedores da distinção honorífica quanto ele.

Ivaldino AntonioTasca é natural de Barra Funda (município emancipado de Sarandi em 1992), RS. Chegou em Passo Fundo, acompanhado dos pais, por volta dos 12 anos de idade. Aqui estudou, trabalhou, constituiu família e vive desde então. O primeiro livro que leu, para nunca mais parar, foi “O Prisioneiro da Montanha”, do ex-frei Fidélis Dalcin Barbosa. Desde muito cedo demonstrou vocação política. Na fase de estudante no Colégio Marista Conceição vinculou-se ao Grupo da Juventude Estudantil Católica (JEC), tendo concluído, no Colégio Rosário, em Porto Alegre, o Curso de Alfabetização de Adultos do Paulo Freire, cujo método, com o advento da Ditadura Militar, em 1964, acabaria proscrito. Na fase universitária, continuou atuante no movimento estudantil. Presidiu o Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito, secretariou o Diretório Central de Estudantes da UPF e esteve em dois congressos da UNE, inclusive no evento clandestino de Ibiúna, em 1968, acompanhado dos colegas passo-fundenses Carlos Alceu Machado, Gilberto Borges e Argeu Santarém, que culminou na prisão em massa de estudantes. A relação Ivaldino Tasca e UPF é umbilical. Foi dele o discurso, como representante dos estudantes, na cerimônia de instalação da Universidade de Passo Fundo, em 11 de maio de 1968.

Há duas obras, pelo menos, que registram a história da UPF pelas mãos abalizadas do editor Ivaldino Tasca, publicadas pela sua editora, a Aldeia Sul. Eu me refiro aos icônicos livros “UPF, que horas são”, de 2002, que traz a histórica entrevista, conduzida pelo hábil jornalista Ivaldino Tasca, com o padre Elydo Alcides Guareschi, o reitor que ocupou esse posto por mais tempo, de 1982 a 1998, na Universidade de Passo Fundo. Tasca extraiu “quase confissões” do ex-reitor, que seriam inimagináveis de serem obtidas por outra pessoa. Querem saber quais? Leiam o livro. E “Eu e a UPF: memórias”, publicado também pela Aldeia Sul, em 2013, que Ivaldino Tasca atuou como organizador. Os primeiros 45 anos da história da UPF São perpassados pelas memórias de quem foi, de fato, ator relevante nessa construção. Apenas para instigar a curiosidade dos leitores. Quem quiser entender o papal da Faculdade de Educação na consolidação da importante Universidade Comunitária que se transformaria a UPF, ler esse livro é imprescindível.

De lavra própria de Ivaldino Tasca, há muitas obras. Vou fazer referência a duas apenas. O best-seller “Cuba não briga com o cozinheiro”, em coautoria com o poeta e ensaista cubano Ricardo Pérez, cuja primeira edição, 5000 exemplares, de 1999, esgotou rapidamente. Obra polêmica, alusiva aos 40 anos da Revolução Cubana, trazendo um olhar crítico, de quem esteve in loco, da situação, na decantada Ilha de Fidel, após o esfacelamento da antiga União Soviética. Esse livro rendeu críticas de setores mais à esquerda a Ivaldino Tasca. E “A reza, o espantalho e os transgênicos – mitos, medo e ciência na agricultura”, publicado em 2001, que lança luzes, a partir da posição de cientistas, sobre o conturbado período vivido na agricultura brasileira, na segunda metade dos anos 1990, com o advento da chegada dos Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) nos nossos campos, pela entrada clandestina da soja contrabandeada da Argentina. Duas obras dignas de leitura, para se entender melhor os tempos atuais.

Há ainda o Ivaldino Tasca ficcionista, do livro de contos “Portas”; o autor da peça teatral “A lenda da Mãe Preta”; o memorialista dos “15 dias que abalaram Passo Fundo”; e muitos outros títulos. O Ivaldino Tasca que editou, sem obter lucro, centenas de autores locais; o político abnegado, que na eleição de 1988, para prefeito de Passo Fundo, obteve 7165 votos. E, acima de tudo, o ser humano singular Ivaldino Tasca, que, por indiscutíveis méritos, foi escolhido Patrono da Feira do Livro de Passo Fundo em 2025; agraciado com a Medalha de Excelência Acadêmica 2026 da APLetras; e, coroando, com o galardão de Benemérito da UPF. Mara, Janaína e Júlio Vinícius, compartilhamos com vocês o nosso orgulho de termos Ivaldino Tasca nos quadros da Academia Passo-Fundense de Letras!

SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura

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