OPINIÃO

Devagar com o andor que o “Menino Jesus” é de barro

Por
· 4 min de leitura
Você prefere ouvir essa matéria?
A- A+

Não ouso imaginar o quão caro poderá me custar, na derradeira hora, diante do Criador, por usar o nome do “filho de Deus” em vão. Assim, me apresso a justificar que o título desta coluna não é nenhuma heresia, mas apenas referência ao fenômeno El Niño, uma vez que, em alusão ao Menino Jesus (El Niño Jesús), era dessa forma, “Corriente de El Niño”, que os pescadores da costa do Equador e do Peru se referiam a uma corrente de águas quentes que costumava aparecer, naquelas águas tradicionalmente geladas, ao redor da época do Natal.

A previsão da volta do fenômeno El Niño em 2026, de fato ora estabelecido, tem levado a toda sorte de informação responsável e também de desinformação, desde as bem-intencionadas, apesar de equivocadas, até as mal-intencionadas que são cada vez mais postas pelos contumazes, mas muito ouvidos, negacionistas do clima, que, uma vez cientes que a marca indissociável do futuro é a incerteza, na contramão da ciência, apostam, apesar da menor chance, naquilo que pode NÃO acontecer.

A mais recente atualização do Centro de Previsão Climática dos EUA (Climate Prediction Center/NCEP/NOAA), de 27 de julho de 2026, reitera que o El Niño não é mais uma perspectiva, está configurado. As águas superficiais do Oceano Pacífico (OP) equatorial estão acima da média na parte central e leste desse oceano. As anomalias de circulação da atmosfera sobre o OP são consistentes com El Niño. Portanto, cai por terra o argumento, muito usado pelos negacionistas da ciência do clima, que a falta do acoplamento oceano-atmosfera, que efetivamente caracteriza o fenômeno El Niño-Oscilação Sul (ENOS), ainda era uma incógnita. E mais, segundo o centro americano, o El Niño deverá ganhar força ao longo do ano, devendo, com 97% de chance, persistir ativo até o nosso outono de 2027. Para complementar, no trimestre outubro a dezembro, há 81% de probabilidade que teremos um El Niño de intensidade muito forte. Dito em outras palavras, para os aficionados em bets, a chance que tenhamos um El Niño de intensidade menor do que a categoria “muito forte” é de uma em cinco.

Ainda que a intensidade do El Niño não assegure que anomalias climáticas extremas necessariamente acontecerão, também não se pode ignorar que, em anos de El Niño fortes e muito fortes, eventos climáticos extremos são mais comuns. Tomemos como exemplos os El Niños marcantes que aconteceram desde o início dos anos 1970: 1972/73, 1982/83, 1991/92, 1997/98, 2015/16 e 2023/24. Exceto o último, apesar de trágico, com as enchentes de setembro de 2023 sendo prenúncio da tragédia de final de abril e início maio de 2024, todos os demais, também de tristes lembranças no sul do Brasil, atingiram a categoria “muito forte”.

Há que se louvar, para contrapor o negacionismo de ocasião, as inúmeras iniciativas públicas ora postas em prática, em todas as esferas (municipal, estadual e federal), com a organização de Salas de Situação, que, indiscutivelmente, são sinais de que a sociedade, conscientemente, com o reconhecimento do papel das estruturas de Defesa Civil, está melhor preparada para o enfrentamento de El Niño e suas anomalias climáticas associadas, que, em grandes traços, passam por chuvas acima do padrão normal do clima no Sul e abaixo no Norte e Nordeste do País, por irregularidades no início e durante a estação chuvosa, incluindo-se maior frequência de ondas de calor no Centro do Brasil. Informações de qualidade sobre o El Niño de 2026-2027 podem ser encontradas no portal do Instituto Nacional de Meteorologia (https://portal.inmet.gov.br/), por exemplo. Em paralelo, os serviços privados de meteorologia no Brasil, com seus profissionais altamente qualificados, são dignos dos nossos aplausos, pelo trato responsável como têm lidado com a situação. Idem os veículos de comunicação que cumprem com maestria o seu papel de informar a sociedade. No território livre das redes sociais, infelizmente, é onde tem grassado o negacionismo e a desinformação.

Imaginemos, apesar de pouco provável, que o El Niño ora previsto não atinja a intensidade prognosticada e nem traga os impactos no clima que costumeiramente causa, embora já esteja dando o ar da sua presença no sul do Brasil. Qual seria a sua reação? Seria do tipo “viu, alardearam e nada aconteceu, chamaram de negacionista, mas o Fulano é que estava certo, não tinha El Niño coisa nenhuma”? Ou saberia lidar com a incerteza associada com qualquer previsão, uma vez que a incerteza é indissociável quando se trata de futuro, entendendo que é essa incerteza quantificada, em probabilidades, que permite, efetivamente, se pôr em prática um plano de gestão de riscos?

Um pouco de literatura, quem sabe, pode ajudar. No causo “Cabeça de Ovelha”, Luiz Coronel retrata a história do tio Djalma, do sobrinho Luizinho e do Cabeça de Ovelha, um moreno conservado na pinga. Eis que, num domingo, após a missa, a campainha da casa do tio Djalma tocou insistentemente. Era o Cabeça de Ovelha, que de cara suplicou: – “Dotori Adejarmo, minha mãe morreu e percisamos de dinheiros pras encomendações”. O tio Djalma puxou da carteira uma nota graúda e deu ao pedinte. Luizinho, que tinha 10 anos, emendou: – “É furado, padrinho! É mentira, é pro trago!”. O padrinho respondeu: – “Luizinho, os olhos dele estavam tristes”.

No final da tarde, assistindo o sol se espreguiçar sobre os telhados da Santa Casa, tio Djalma e Luizinho se depararam com um bloco de sujos, cantando “Olha a cabeleira do Zezé...”. No meio da folia, meio ladeado como cavalo de brigadiano, o pedinte folião. Luizinho avista e grita: – “Padrinho, olha lá o Cabeça de Ovelha fantasiado de tigre”. Qual você imagina foi a reação do tio Djalma? Indignação por ter sido enganado? Não, foi outra: – “Que bom, Luizinho, que a mãe dele não morreu!”

Então é isso: que bom que El Niño não venha dar o ar da sua costumeira graça (espalhando desgraças) em 2026. E, se vier, que estejamos preparados para enfrentá-lo. Vale a máxima: “devagar com o andor que o santo, no caso o “Menino Jesus”, é de barro!”

SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura.

Gostou? Compartilhe