A liturgia dominical, através da Palavra de Deus, convida a reconhecer a gratuidade das coisas essenciais, olhar com compaixão para o próximo para exercitar e realizar o milagre da partilha e da fraternidade. Confiar o pouco dos humanos para ser abençoado pelo poder de Deus resulta em abundância (Isaías 55,1-3, Salmo 144(145), Romanos 8,35.37-39, Mateus 14,13-21).
O profeta Isaías convida os que têm sede e fome a se saciar, “sem nenhuma paga”. Nos recorda que as coisas mais importantes e elementares da vida não podem ser compradas. Elas só podem ser doadas: o sol e a luz, o ar que respiramos, a chuva, a beleza da terra onde habitamos, o amor, a amizade e a própria vida.
Dar-se conta de ter recebido de forma gratuita e generosa as coisas mais importantes desperta o sentimento de gratidão e de louvor.
A carta aos Romanos pergunta: “Quem nos separará do amor de Cristo?” Há forças que ameaçam, necessidades, perigos e sofrimentos que podem fazer duvidar do amor de Deus. Permanece a certeza de que “somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou!” A vida sempre corre riscos de perdas, mas o amor de Deus é garantido.
Se recebemos de Deus tantos dons gratuitamente, chegou a nossa vez de doar. O milagre da multiplicação dos pães e peixes não deseja mostrar o domínio de Deus sobre a natureza e os homens. O milagre é, antes de tudo, um sinal de um mundo renovado, começo de um reino futuro que já está presente onde os homens se submetem ao senhorio de Deus. Ele quer tornar os homens livres e protagonistas de um mundo pacificado e fraterno.
“Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles”. Isto desencadeou várias ações: curou os doentes; diz aos discípulos: “dai-lhes vós mesmos de comer!”; organiza a multidão; abençoa os pães e os peixes; orienta a distribuição e recolhe o que sobrou. O ponto de partida foi acolher a multidão. A compaixão o fez participar das dores e necessidades da multidão. Não transformou a multidão em simples destinatários, mas os envolveu e os tornou corresponsáveis.
A única saída que os discípulos vislumbravam para a multidão que estava com Jesus no deserto e em hora adiantada era despedir as pessoas. A sabedoria divina indica outro caminho possível e melhor: envolver os discípulos e a multidão na procura de outras respostas. Na busca da solução encontram alguém que só tem “cinco pães e dois peixes”. De fato, pelos critérios humanos e da matemática, não é a solução para a quantidade de alimento necessário. Mas algo importante já aconteceu: o envolvimento dos discípulos na busca de soluções e quem tinha o alimento colocou à disposição para a partilha. Temos nesta postura uma luz diante da situação da fome de tantas pessoas no mundo. Precisamos de pessoas que pensem segundo os critérios da partilha, da fraternidade em relação aos bens materiais.
Ainda é preciso destacar que Jesus “pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção”. “Quem diz-bem Aquele que bem-dá, reconhece em qualquer pingo a fonte, em qualquer raio o sol, em todo o pedaço o todo. Tomar bendizendo é nascer, vir à luz como filhos, vendo si mesmo e tudo o que existe como sinais do amor do Pai” (Silvano Fausti). Aqueles pães e peixes estavam aí graças a toda obra da criação existente, por isso Jesus se volta ao Pai e agradece. A multidão tinha fome e sede de água e pão, mas também da bênção de Deus. Recebe ambos, pois Deus cuida da pessoa integralmente.


