Dois meses depois de EUA e Irã anunciarem um memorando destinado a encerrar a guerra, o documento passou a servir como prova do descumprimento da outra parte. Já havia dito que o Memorando era de (des)entendimento, desde seu início. Washington afirma que Teerã deveria ter reaberto o Estreito de Ormuz; os iranianos sustentam que os norte-americanos deveriam ter levantado o bloqueio aos seus portos e liberado ativos congelados. A divergência avançou: cada lado interpreta de forma distinta quando as obrigações começaram e se o prazo de sessenta dias chegou a existir. Para Teerã, os EUA violaram o acordo em 48 horas e prazo algum começou a correr. Para Washington, o comportamento iraniano esvaziou o compromisso. Todos falam do mesmo documento, mas já não discutem o mesmo acordo.
Ormuz transformou-se na mesa de negociação
O Estreito de Ormuz ganhou uma importância que ultrapassa a geografia. Antes da guerra, cerca de um quinto do fluxo mundial de petróleo e gás natural liquefeito passava por Ormuz. Mantê-lo fechado permite ao Irã converter sua fragilidade militar em pressão econômica. Trump afirma que Washington possui “controle total” do estreito, enquanto a autoridade criada pelo Irã sustenta que a passagem seguirá bloqueada até que suas condições sejam atendidas. As duas afirmações cumprem funções políticas. Trump precisa demonstrar resultados; Teerã precisa provar que ainda consegue impor custos. O petróleo tornou-se o termômetro da disputa, oscilando ao sabor de ataques e declarações de uma negociação que os próprios interlocutores interpretam de maneiras distintas.
Negociar sem parecer que está negociando
As conversações estão paralisadas, porém mensagens continuam circulando por intermédio de Paquistão e Catar, sinal de que nenhum dos lados pretende abandonar um arranjo. O problema é o custo político do retorno à mesa. Para Trump, aceitar as condições iranianas poderia parecer recuo após a pressão militar. Para Teerã, reabrir Ormuz antes de obter contrapartidas significaria entregar sua principal alavanca de negociação. O resultado tende a ser uma diplomacia indireta, na qual mediadores tentarão ordenar concessões para que ninguém pareça ter cedido primeiro. O maior risco está no erro de cálculo: uma ação para ampliar a barganha pode ultrapassar o limite tolerado pelo adversário.
Três cenários
O cenário provável é a manutenção do impasse administrado, com contatos indiretos, episódios militares limitados e negociações sobre a ordem de cumprimento do memorando. O possível é uma nova escalada, sobretudo se ataques à navegação produzirem vítimas norte-americanas ou afetarem mais severamente o abastecimento energético, levando Washington a responder e reduzindo o espaço para mediação. O desejável passa por um acordo operacional antes de uma solução abrangente: reabertura gradual de Ormuz, flexibilização proporcional do bloqueio e liberação escalonada de ativos, acompanhadas por mecanismos verificáveis. O futuro do memorando dependerá menos de reinterpretar aquilo que foi assinado e mais de construir uma sequência que ambos consigam cumprir. Enquanto cada lado começar a leitura por uma página diferente, o Memorando de Entendimento continuará merecendo, ironicamente, o prefixo “des”.


