OPINIÃO

Construir a vida fraterna

Por
· 2 min de leitura
Você prefere ouvir essa matéria?
A- A+

“Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles”, afirma Jesus. A vida fraterna entre as pessoas próximas, entre instituições e nações é um sinal claro da presença de Deus. Esta condição se concretiza na medida em que há um contínuo esforço de corrigir o que há de errado, o reconhecimento dos pecados, conceder o perdão e restabelecer as relações abaladas ou rompidas.

“De novo, eu vos digo: se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus”. O biblista R. Fabris comentando este ensinamento de Jesus afirma: “O acento desta parábola evangélica não é tanto sobre a oração comunitária quanto sobre a concórdia, literalmente o grego disse “sinfonia” ou “sintonização” reencontrada. Esta dá eficácia à oração dos irmãos (...) Uma comunidade reconciliada e orante é o lugar da definitiva presença de Deus revelando-se como Salvador e Senhor em Jesus”.

A Liturgia da Palavra, deste primeiro domingo do Mês da Bíblia (Ezequiel 33,7-9, Salmo 94 (95), Romanos 13,8-10 e Mateus 18,15-20), coloca os leitores e ouvintes da Palavra de Deus diante do tema da correção fraterna que é o meio mais eficaz para restabelecer a fraternidade e a unidade. A Bíblia não esconde os pecados dos grandes personagens bíblicos, nem a necessidade de serem corrigidos.

Eles sabiam da vontade de Deus, porém eram falíveis e não realizavam o que sabiam. Só saber não garante um agir ético. Estes personagens deixaram-se corrigir e por isso puderam levar a bom termo a sua missão. Recordemos alguns exemplos: Moisés é corrigido por Jetro por causa da metodologia de atendimento do povo; Davi é repreendido por Natã depois da morte de Urias; o profeta Elias é corrigido depois de usar métodos violentos para anunciar o verdadeiro Deus; Pedro várias vezes teve que rever seus posicionamentos e o mesmo acontece com São Paulo. Por deixarem-se corrigir restabeleceram a harmonia e puderam continuar a sua missão.

Jesus apresenta uma situação aos discípulos e propõe uma metodologia inspirada no amor ao próximo. “Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão. Se ele não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas. Se ele não vos der ouvido, dize-o à Igreja. Se nem mesmo à Igreja ele ouvir, seja tratado como se fosse um pagão ou um pecador público”.

O desejo de corrigir o “irmão que pecar contra ti” não pode ser uma simples reação à ofensa que se foi vítima. A causa mais nobre para corrigir é o amor ao irmão. Santo Agostinho comenta: “Aquele que te ofendeu, ao ofender-te, causou em si mesmo uma ferida grave, e não te preocupas tu pela ferida de um teu irmão? (...) Deves esquecer a ofensa que recebeste, mas não a ferida de um teu irmão”. O profeta Ezequiel ensina se alguém errou e não for advertido, quem não adverte torna-se corresponsável pela morte do irmão.

Jesus insiste na metodologia da correção fraterna. Antes de expor alguém em público ou excluir, se faz necessário preservar a pessoa que pecou. Sugere uma progressão de medidas – falar pessoalmente, assessorar-se de testemunhas, envolver a comunidade – que permitem fazer um processo curativo e de reconciliação. Jesus também é realista, admitindo que tudo isto não garante que o pecador se arrependa, mas a parte ofendida não ficou indiferente, pois desejou ajudar e salvar o irmão.

Os ensinamentos da Carta ao Romanos são sábios na construção da “sinfonia” entre as pessoas. “Irmãos: Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o próximo está cumprindo a Lei. (...) O amor não faz nenhum mal contra o próximo.

Portanto, o amor é o cumprimento perfeito da Lei”.

Gostou? Compartilhe