Conspirações no Brasil
Um amigo me desafia a tratar das teorias da conspiração no Brasil. A cautela nos recomenda não meter a mão em vespeiro e nem entrar em controvérsias, pois elas raramente trazem benefícios e ainda nos fazem perder miseravelmente o tempo e o bom humor. Ainda assim, parece impossível ignorar o papel que teorias conspiratórias, mesmo falsas, desempenharam nas disputas políticas ao longo da história brasileira. A política, afinal, é um ambiente fértil para esse tipo de narrativa. A desinformação e os medos das pessoas são manipulados para gerar vantagens eleitorais, mobilizando massas por meio do ódio, da simplificação brutal de problemas complexos e da invenção de inimigos que não existem.
A falsa conspiração comunista para tomar o poder no Brasil
Em setembro de 1937, circulou um documento que descrevia um suposto plano secreto dos comunistas para tomar o poder no Brasil por meio de greves, incêndios, saques e assassinatos de autoridades. O documento, chamado Plano Cohen, porém, era falso: havia sido produzido por militares brasileiros e apresentado como se fosse uma diretriz da Internacional Comunista. Sua divulgação provocou enorme comoção nacional. A imprensa tratou o documento como autêntico, reforçando a narrativa construída pela cúpula militar e utilizada por Getúlio Vargas para justificar o golpe que instaurou o Estado Novo (1937–1945), um regime ditatorial inspirado em modelos nazifascistas europeus. Esse episódio — um falso plano comunista usado para criar pânico e legitimar a ruptura institucional — é um dos muitos exemplos de como o medo e a crença em teorias da conspiração podem ser explorados para fins políticos.
O comunismo não é mais uma ameaça real
Em 1937, ao contrário do que ocorre hoje, a ideia de uma ameaça comunista parecia plausível para grande parte da sociedade brasileira. Havia, de fato, grupos comunistas que conspiravam contra o governo, e a tentativa de insurreição armada de 1935 — conhecida como Intentona Comunista — reforçou o temor do comunismo entre civis e militares. Esse episódio, embora rapidamente derrotado, alimentou um clima de suspeita que seria explorado politicamente nos anos seguintes. Hoje, porém, quando grupos de extrema direita evocam a ameaça comunista para obter ganhos políticos, recorrem a um fantasma que perdeu substância histórica após o fim da União Soviética e o colapso dos regimes comunistas do Leste Europeu. Restam apenas pequenos grupos sem representatividade que ainda sonham com uma revolução nos moldes bolcheviques de 1917. No cenário atual, o principal partido de esquerda do país atua dentro das instituições democráticas e tem se mostrado defensor dos mecanismos republicanos.
Teorias conspiratórias nas redes sociais
Nos últimos anos, uma enxurrada de teorias conspiratórias se espalhou pelas redes sociais, alimentando a desconfiança nas instituições democráticas. Vídeos virais acusavam as urnas eletrônicas de manipularem votos, enquanto influenciadores políticos repetiam diariamente narrativas que sugeriam fraude e perseguição ideológica. Trechos de decisões do TSE eram editados para parecer que ministros admitiam irregularidades. Conteúdos fantasiosos afirmavam que vacinas continham chips ou alteravam o DNA. Boatos diziam que as escolas promoviam “ideologia de gênero” para corromper crianças, criando pânico moral e mobilizando setores religiosos. Essas histórias ajudaram a deslegitimar a imprensa profissional e reforçaram a ideia de uma suposta conspiração globalista envolvendo STF, mídia e partidos de esquerda. Nesse ambiente, até os ataques e depredações de 8 de janeiro de 2023 na Praça dos Três Poderes passaram a ser retratados por alguns como uma armação, alimentando ainda mais a polarização e a desinformação.

